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2 histórias se cruzam por um instante e 4 séculos: Solar de Mateus e Mateus Rosé

Portugal tem muitas marcas de vinhos populares ao redor do mundo, por exemplo, Casal Mendes, Periquita, Calamares, Casal Garcia e o Mateus Rosé, para mencionar alguns. Curiosamente, o Mateus Rosé não é muito popular por aqui, porém foi a primeira marca portuguesa de vinho apreciada mundialmente, estando presente em 125 países, há várias décadas.

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A história do Mateus Rosé começa em 1942, quando Fernando Van Zeller Guedes, o fundador da gigante de vinhos portuguesa, Sogrape, criou um conceito distinto, apresentado numa garrafa inovadora. A garrafa foi inspirada nos cantis usados pelos soldados na Primeira Guerra Mundial. O tal vinho era diferente: cor-de-rosa, adocicado, refrescante e com uma efervescência ligeira. O rótulo foi uma homenagem ao grandioso património histórico português.

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Antiga garrafa de Mateus à venda no eBay.

O vinho especialmente concebido para os mercados norte-americano e do norte da Europa, cresceu rapidamente nas décadas de 1950 e 1960 e, no final da década de 80, junto com a versão de branco, representou quase 40% da exportação total de vinho de mesa de Portugal.

No início dos anos 70, Mateus Rosé era o vinho mais popular do mundo. A Rainha Elizabeth está até hoje entre suas fiéis consumidoras. Diz a lenda que a Rainha ficou insatisfeita com a selecção de vinhos oferecida em uma festa privada no Hotel Savoy em Londres no início dos anos 60 e pediu ao maitre que lhe trouxesse Mateus.

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Jimmy Hendrix curtindo um Mateus.

Hoje, o vinho perdeu um pouco de sua popularidade internacional, mas mesmo assim milhares  de estrangeiros (70% dos 80.000 visitantes anuais) buscam o edifício que corre o mundo no rótulo do Mateus Rosé. O Palácio ou Solar de Mateus está situado na freguesia de Mateus, concelho de Vila Real, Distrito de Vila Real e foi construído na primeira metade do século XVIII pelo 3º Morgado de Mateus, António José Botelho Mourão para substituir a casa da família, já existente no local, desde o início do século XVII.

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Um Solar para chamar de seu.

Segundo especialistas, a construção da casa, ou pelo menos de sua fachada central e decoração, é atribuída ao artista, decorador e arquiteto italiano Nicolau Nasoni (Toscana, 2 de Junho de 1691 – Porto, 30 de Agosto de 1773), considerado um dos mais significativos arquitetos da cidade do Porto durante o século XVIII.

A fachada do palácio se destaca pela dupla escadaria que conduz à porta principal, sobre a qual aparece o escudo familiar flanqueado por duas estátuas. No interior,  pode-se visitar uma biblioteca que abriga livros do século XVI, valiosos móveis, porcelanas e quadros e um pequeno museu onde se encontra 1 edição de “Os Lusíadas” de Luís de Camões, da qual só se produziram 200 exemplares. Parte da casa é fechada à visitação, pois ainda é habitada pela família.

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O palácio encontra-se rodeado por um lindo jardim cravado de belas estátuas. Chama a atenção, uma escultura de 1981, de João Cutileiro – Dorme no Lago. E muitas vinhas. Porém, o vinho rosado das garrafinhas bojudas não é feito aqui. O Palácio produz um vinho sim, mas o Porto Quinta da Costa das Aguaneiras. Exatamente, tudo que os 2 têm em comum é a fachada da mansão no rótulo mundialmente famoso e nada mais.

Em 1911, o Palácio de Mateus foi classificado como Monumento Nacional. Acima de tudo, a Casa de Mateus é hoje uma fundação privada, criada para proteger e divulgar o patrimônio histórico e fomentar a atividade cultural.

E mesmo que estas 2 histórias se cruzem por um momento muito mais breve do que eu poderia esperar, recomendo tanto a visita ao Palácio quanto uma boa garrafa de Mateus.

Fonte: Vinho Mateus Rosé e Casa de Mateus

Dia 1 – A emoção da chegada.

Nosso grupo de visita eno-gastronômico e histórico-cultural chegou. Um nome grande para coisas simples como devorar a tradicional comida portuguesa, beber seu delicioso vinho e conhecer tesouros antigos e escondidos que só mesmo os locais conhecem e compartilham com o carinho do povo da aldeia.

Para isso, recebemos nossos convidados com um delicioso almoço na Casa Aleixo no Porto e fomos direto ao Hotel Palácio do Bussaco para conhecer um pouco da história, ver de perto um dos mais belos monumentos deste país e brindar com um tradicional espumante da região a chegada de novos amigos.

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Depois, já em casa, foi hora de relaxar e conhecer o que atraiu todos até aqui: a adega do Há Pão.

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Final perfeito para um dia corrido, mas muito legal.

Corinthians lança coleção de vinhos licenciados

O time com a segunda maior torcida do país (logo após o Flamengo) o Corinthians, acaba de lançar uma coleção de vinhos oficiais. A idéia é celebrar os principais feitos da equipe: o bicampeonato do Mundial de Clubes da FIFA em 2.000 e em 2.012. Segundo o site, a linha foi criada para celebrar o instinto vencedor do Corinthians.

Os vinhos são vendidos na loja online do site Loja Corinthians e segundo o mesmo site, serão comercializados com preços especiais até o dia 15.08.

A linha de vinhos tem o objetivo de apoiar uma iniciativa maior que consiste em promover o evento “Brinda Timão, com o mote “não importa onde você estiver, o que importa é ser Fiel”. A ação pretende que, no dia 1 de setembro de 2016, às 20h30 (horário de Brasília), todo torcedor corinthiano faça um brinde ao Timão em qualquer lugar do mundo. Ainda segundo o site, o time pretende que “este brinde demonstre toda a força e união dos torcedores, mostrando que o Corinthians é um dos maiores clubes do mundo.”

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O projeto engloba 6 vinhos cujas descrições retiramos do mesmo site citado nesta matéria:

. 2 vinhos do Porto

  • Vinho Campeão 2000 – Um vinho nascido na região do Douro, em Portugal, resultado de castas tintas tradicionais e envelhecido em cascos de madeira.
  • Vinhos Campeão 2012 – Um vinho nascido na região do Douro, em Portugal, resultado de castas tintas tradicionais e envelhecido em cascos de madeira.

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. 1 vinho branco – Um vinho nascido na região do Douro, bem estruturado, equilibrado e com bom suporte de taninos finos.

. 1 um vinho rosé – Um vinho com castas tradicionais portuguesas, agradavelmente rosado, resultado da sua composição intermédia entre o tinto e o branco.

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. 2 vinhos tintos

  • Vinho Tinto Reserva Corinthians – Um vinho nascido na região do Douro, em Portugal, uma combinação de frutas negras, ervas aromáticas e tostados que resulta num sabor macio e afável, que reflete uma maturação controlada.
  • Vinho Tinto Corinthians – Um vinho nascido na região do Douro, com castas tinta barroca, touriga franca e tinta roriz.

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A iniciativa realmente chama muito a atenção, primeiro pela escolha do vinho como bebida para a campanha. Sei muito pouco sobre futebol, até hoje nem sei o que é penalti, mas sei  sobre perfil de consumidor e num país como o Brasil que tem o consumo incipiente de 1,5 lt per capta de vinho, ofertar exatamente este produto a um time que é conhecido e pelo perfil popular da sua torcida, me parece uma escolha temerosa. Provavelmente algum tipo de cerveja artesanal teria mais apelo junto a estes torcedores. Isso sem considerar o preço…

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A campanha me pareceu bastante ousada. Achei muito legal não cederem à típica imagem do vinho:  produto sofisticado, consumido em momentos especiais e com um ritual todo específico. A referência à própria torcida com certeza terá um apelo muito maior junto a este público.

Tenho certeza tambémque os que apreciam vinhos sejam torcedores de qualquer time, não aprovarão quem elaborou os descritores dos vinhos para a campanha. São simples demais, pobres, não dizem quase nada sobre o vinho e 2 deles têm erros crassos:

  1. Vinhos brancos não têm taninos, a não ser em casos muito específicos, que não é o de um vinho do Douro.
  2. Vinhos rosés não são “resultado da sua composição intermédia entre o tinto e o branco”. Eles possuem um processo específico de produção.

Depois disso tudo só o que me resta é desejar saber o resultado desta campanha e concordar com esta última peça publicitária.

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Fontes:

Corinthians Vinhos

Mais uma boa dica de vinho verde, também depois de tanto falar do Minho!

Já falamos muito sobre o Minho e temos um monte de razões para isso:

  • é uma região linda;
  • produz um vinho único e exclusivo, o vinho verde;
  • normalmente o vinho verde tem um preço mais acessível;
  • é muito leve e refrescante para o nosso clima;
  • combina muito com a nossa gastronomia conforme falamos no nosso post Você conhece vinho verde.
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Vinhas típicas do Minho.

Já contamos sobre a Sug-região de Monção e Melgaço que é o terroir onde a casta Alvarinho apresenta sua melhores características mais acentuadamente, mas não podemos esquecer que a região demarcada dos vinhos verdes é considerada a maior região de Portugal e uma das maiores regiões demarcadas do mundo, essencialmente devido à extensão da sua área e por isso existe uma grande variedade de bons vinhos verdes de outras sub-regiões. Saiba mais no site da COMISSÃO DE VITICULTURA DA REGIÃO DOS VINHOS VERDES.

Outra característica marcante da Região dos Vinhos Verdes é a produção dispersa por inúmeras propriedades agrícolas de pequena dimensão, geralmente pertencentes a famílias. O início do movimento cooperativo remonta à década de 50 justamente como resposta à necessidade de unir os milhares de pequenos e médios produtores de Vinho Verde para que pudessem obter escala na vinificação, comercialização e distribuição.

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Cultivo antigo e tradicional de vinhas no Minho.
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Vinhas “de Enforcado”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É o caso da Vercoope, situada pertinho do Porto, em Agrela/ Santo-Tirso fundada em 1964. A Vercoope é uma cooperativa de Adegas Associadas: Amarante, Braga, Guimarães, Famalicão, Felgueiras, Paredes e Vale de Cambra. É a união de cerca de 5.000 viticultores, resultando numa incrível variedade de marcas e vinhos de perfis diferentes.

Dentre as várias marcas da Vercoope no Brasil, encontramos a Adega de Braga, vinho verde das Sub-regiões do Cávado e Sousa, exclusiva de nossos amigos da Casa Palla. São 3 variedades:
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  1. O branco é um corte das castas: Arinto, Loureiro e Trajadura com notas de frutos cítricos, maçã verde e pêra fresca. Recomendo com um bom sushi.
  2. O da casta Loureiro apresenta aromas de maçã verde e abacaxi e na boca também entrega notas cítricas. Neste vou ousar e recomendar com um churrasco. Sim! Cai bem com linguiça, frango e costelinha suína na brasa. Prove e me conte.
  3. O rosé é da casta Espadeiro com notas de morango e framboesa. Leve e refrescante, recomendo como aperitivo.

Gosto de dizer sempre que somos independentes, mas a Casa Palla além de ser nosso cliente, são gente muito boa e praticam preços que valem a pena conhecer. Fica a dica.

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A Monção de uma brava heroína e sua história centenária

Anteriormente, falamos de Melgaço, uma das vilas que junto com Monção compõe a Região Demarcada dos Vinhos Verdes, uma das regiões vitícolas mais antigas de Portugal. Monção compartilha da magnífica beleza do anfiteatro natural que caracterizamos quando falamos de Melgaço.

As 2 vilas têm mais de 700 anos de história possuindo belos castelos, o Castelo de Melgaço que já vimos e o Castelo de Melgaço. Ambos defenderam este território fronteiriço desde a conquista da independência portuguesa.

Assim como Melgaço, Monção pertence ao Distrito de Viana do Castelo e tem cerca de 2.500 habitantes. O município é limitado a norte por Salvaterra do Minho e Arbo, ambas em Galicia e a leste por Melgaço.

Outro fato que compartilham é o terroir perfeito para o cultivo da Alvarinho. Aliás, o reconhecimento da qualidade do vinho de Monção e Melgaço vem do século XIV. Nessa época, o vinho desta região era extremamente procurado pelos ingleses que o trocavam por bacalhau.

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A beleza das águas do rio Minho.

Durante as guerras fernandinas (entre D. Fernando, rei de Portugal e D. Henrique de Castela, no séc. XIV) Castela impôs um duro cerco à vila de Monção. O cerco já durava muito tempo e a situação começou a ficar complicada dentro das muralhas. Foi aí que Deu-la-deu Martins, esposa do alcaide local, agiu. Mandou recolher a pouca farinha que restava e com ela fazer pães. Com os pães já cozidos nas mãos, a corajosa Deu-la-deu subiu à muralha e atirou-os gritando: “A vós, que não podendo conquistar-nos pela força das armas, nos haveis querido render pela fome, nós, mais humanos e porque, graças a Deus, nos achamos bem providos, vendo que não estais fartos, vos enviamos esse socorro e vos daremos mais, se pedirdes!”. O blefe funcionou, o inimigo acreditou que ainda havia muita fartura dentro das muralhas, levantou o cerco e se mandou. Foi assim que a corajosa Deu-la-deu salvou a cidade e ficou, para sempre, ligada à história de Monção.Mas estes tempos vão longe e hoje a fartura marca a gastronomia desta região.

Além da gastronomia, da beleza natural, e do deliciosos Alvarinho, aliás um dos meus preferidos se chama justamente Deu-la-deu, Monção conta com um recanto muito especial para quem quer se hospedar por lá ou a caminho de Santiago de Compostela: o Solar de Serrade. Esta casa armoriada de meados do século XVII, de arquitetura típica solarenga altominhota parou no tempo. Tudo remonta a séculos anteriores, desde o interior até a capela e o jardim romântico.

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O morgado de Serrade foi instituído pelo Padre Dr. Belchior Barbosa e os seus sucessores foram personalidades importantes que andaram por Moçambique e pelas Índias. A imponência do Solar já diz tudo.

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Em 1801, o Solar chegou a abrigar o Quartel General das forças de vigilância de fronteira, sob o comando do Marquês de la Rosière e desde então, tem recebido a visita de diversas personalidades.

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Tetos tradicionais em masseira e salões com lareira, são um convite à tranquilidade e ao lazer. Tudo está arrumado para quem você se sinta em casa e não um hóspede.


O Solar de Serrade é um bom exemplo da recuperação do património arquitetônico da região Altominhota. Os quartos são um capitulo a parte, desde as namoradeiras nas janelas, banheiras antigas e inclusive… penico! E ao contrário de alguns hotéis deste gênero, este tem um  preço bem acessível.

O Solar produz um delicioso Alvarinho que apesar da produção relativamente pequena, segue até para exportação devido à reconhecida qualidade.

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Estando por estas bandas, não deixe de conhecer o imponente Palácio da Brejoeira, suas vinhas bosques e jardins, localizado só a 6 quilômetros a sul de Monção. O Palácio foi erguido nos primeiros anos do século XIX, tendo as obras se prolongado até 1834. Incrivelmente, não pertenceu a ninguém da nobreza. Dá para acreditar?

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Espero que tenham gostado e até o próximo post.

Fontes: Solar de SerradeRota do Vinho Verde

A beleza tranquila de Melgaço e um Alvarinho muito diferente

Adoro o norte de Portugal. Além das raízes de parte da família, o Minho, região que faz fronteira com a Espanha, é terra de gente amável, de paisagens verdejantes e da magnífica Alvarinho. E foi ali, no distrito de Viana do Castelo, que fui buscar Melgaço, uma vila de cerca de 1.500 habitantes, limitada a norte e leste pela Espanha e a oeste por outra jóia do Minho, a vila de Monção. É claro que o GPS aprontou das suas e eu acabei numa estradinha minúscula. Na Espanha!

Parece que este é o melhor caminho mesmo, mas com os mapas velhos do GPS e já bem dentro da Espanha, não consegui ativar o Waze que funciona com operadora de Portugal para checar o caminho. Então o jeito foi ir em frente. Normalmente eu não gosto de dirigir, mas confesso que esta paisagem é tão bonita que eu até curti.

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Lindas paisagens pontuadas pelos típicos espigueiros.

Foi assim que Melgaço se revelou: como uma verdadeira rainha da beleza minhota, desfilando numa espécie de palco, cercada por montanhas que deslumbram e que parecem formar uma platéia de onde se pode em troca, contemplar o charme ancestral da cidadezinha.

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Cheguei por lá na hora do almoço e minha reunião só estava agendada para a tarde. Um momento tranquilo, numa vila já muito tranquila. Aproveitei para almoçar no parque, percorrer as ruelas e visitar os principais pontos turísticos. Veja só minhas companhias…

 

Hora do almoço + cidade pequena = tudo fechado. Gostaria de ter visitado o Solar do Alvarinho, mas não foi possível. É uma construção linda e vai ficar para a próxima com certeza. Veja por você mesmo: Solar do Alvarinho – Melgaço

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Outra visita que vale a pena são as 2 igrejas. Tudo muito pertinho num percurso que você faz a pé. Bem rapidinho, mas deixe tempo para desfrutar da beleza exterior e interior.

Outro ponto de visita imperdível é o Castelo de Melgaço, principal ponto de defesa fronteiriça do Alto Minho no século XII, localizado quase às margens do rio Minho cujas ruínas vigiam até os dias de hoje a travessia para a Galícia.

 

Mas já era hora de interromper o passeio e trabalhar. Então, rumei para a Soalheiro.

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A Quinta de Soalheiro está localizada bem pertinho do centro de Melgaço e também desfruta da beleza privilegiada da região, cercada por um conjunto de serras que além do visual fantástico, criam as condições de pluviosidade, temperatura e horas de sol necessárias à melhor maturação das uvas da casta Alvarinho. Este incrível terroir foi cuidadosamente composto pela natureza assim:

  • pluviosidade: regulada pelo Rio Minho que separa Portugal de Espanha.
  • temperatura: as colinas proporcionam as encostas que protegem e aquecem o vale, barrando o frio do norte ou do Oceano.

Esta peculiaridade se estende à cidade de Monção logo ali ao lado e o perfil do Alvarinho da sub-região de Monção e Melgaço é reconhecidamente diferente. Aqui, apesar das condições favoráveis ao desenvolvimento de todo o potencial da Alvarinho, o custo de produção é bastante alto e o quilo da uva custa em média o triplo do que se paga no resto da região, devido às características do relevo e ao tamanho das propriedade.

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Mas voltando à Soalheiro, a quinta foi plantada em 1774 por João António Cerdeira que lançou em 1982, a primeira marca de Alvarinho de Melgaço, a Soalheiro. Hoje, uma área significativa das vinhas se encontra em produção biológica, promovendo a biodiversidade da fauna e flora local. É exclusivamente destas vinhas que nascem as uvas que vão dar origem ao Soalheiro Primeiras Vinhas e ao Soalheiro Reserva.

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Uma característica interessante da Soalheiro é a maneira como utilizam a madeira em seus vinhos. Como exercício de degustação, é super legal perceber como um vinho branco, em especial feito de uva Alvarinho pode manter sua fruta e frescor e crescer com o uso da madeira. Este é um trabalho feito por poucos, pois qualquer equívoco pode arruinar o vinho e produzir algo parecido com “chá de madeira”. Na região do Minho existem apenas 3 ou 4 produtores que usam madeira com a devida maestria.

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Outros 2 vinhos que você não pode perder são os espumantes Rosé (feito com Alvarilhão e Touriga Nacional) e o de Alvarinho.

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Acho que são importados pela Mistral, e lembrando sempre que este blog é independente, convido vocês a conhecerem os vinhos da Soalheiro que vão proporcionar uma experiência fantástica e bem distinta quando você pensar em vinhos verde. Saúde!

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Conhece Bem os Vinhos Fortificados? E o de Carcavelos?

Pequenos frascos, grandes perfumes. Seguindo esta máxima tão popular, vamos falando das pequenas jóias portuguesas, escondidas ali pertinho de Lisboa, à vista de todos, mas encerradas em si mesmas.

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Enquanto Colares, a jóia do nosso mais recente post, faz vinhos tranquilos, Carcavelos faz 1 do 4 vinhos generosos de Portugal. Sabe quais são os outros 3?

  1. O centenário e internacionalmente conhecido Porto. Desse nem falo porque tem muita gente gabaritada falando deste vinho por aí;
  2. O Moscatel de Setúbal que vem conseguindo projeção no Brasil, apoiado por vinícolas gigantes como a Quinta da Bacalhoa e a José Maria da Fonseca. Este vinho fica perfeito com uma magnífica iguaria local, o queijo de Azeitão;
  3. O injustiçado Madeira para o qual vamos dedicar um post separado porque ele merece.

Depois de irmos a Colares que fica mais ao norte, pertinho de Sintra, fomos a Carcavelos, do ladinho de Cascais, mais ao sul. Porém igualmente perto de Lisboa, meia horinha. A DOC Carcavelos é a menor região vinícola de Portugal e situa-se em torno da freguesia de Carcavelos, nos concelhos de Cascais e de Oeiras. Muito próxima da foz do rio Tejo, a área de vinha da região é bem pequena e urbanizada. Uma boa sugestão de passeio é sair de Lisboa, visitar Carcavelos e suas vinhas para depois almoçar em Cascais, terminando a tarde com uma volta pela praia. Ou até tentar a sorte no Casino Estoril ali do lado.

O Carcavelos é um vinho antigo (séc. XIV) que ganhou reconhecimento internacional com o Marques de Pombal que produzia este vinho na sua quinta em Oeiras lá pelo séc. XVIII. No entanto, foi no reinado de D. José I e sob a forte influência do 1º Conde de Oeiras, Sebastião José de Carvalho e Mello que o vinho de Carcavelos conheceu o seu apogeu. Por isso mesmo, durante muito tempo este vinho foi conhecido como Conde Oeiras, mas devido a um desentendimento com o herdeiro do título, o nome foi modificado para Villa de Oeiras em 2004. Admirado por muitos, o vinho conquistou um adepto ilustre, o Duque de Wellington, que esteve em Portugal comandando as forças militares luso-britânicas, em defesa do exército napoleônico no princípio do séc. XIX. As tropas inglesas levaram consigo o tanto o nome quanto a fama do vinho de Carcavelos, tornando-o conhecido num dos mais importantes mercados internacionais. As qualidades dos vinhos generosos de Carcavelos foram oficialmente reconhecidas em 1907 e um ano depois foram definidos os princípios gerais da sua produção e comercialização.

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Porém, o tempo passou e não foi generoso com este vinho. As doenças, a falta de apoio e a urbanização massiva da região provocaram o fechamento de quase todas as quintas da DOC e quase determinaram a extinção do vinho de Carcavelos, não fosse a decisão em 1997 da Câmara Municipal de Oeiras em cooperação com a Estação Agronómica Nacional de apostar na revitalização de uma das velhas quintas da região. Começaram com apenas cerca de 5,5 hectares, plantados em 1984 e planos ambiciosos de não só proteger este patrimônio, mas fazê-lo crescer, inclusive com a recuperação da Quinta do Marquês de Pombal, incluindo a Adega Antiga.

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Não empurra, não!

O clima deste terroir é mediterrâneo, temperado e sem grandes amplitudes térmicas devido à proximidade do mar que se pode ver logo ali, pertinho das vinhas. O terreno calcário é voltado para o sul e ventos do norte que subtraem a humidade marítima.

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As castas são bastante exóticas, exemplo vivo da riqueza de castas autóctones disponíveis em Portugal.

  • Principais castas tintas: Castelão e Preto Martinho, num mínimo de 75%. A Trincadeira e a Rabo de Ovelha podem ser utilizadas até 25%.
  • Principais castas brancas: Galego Dourado, Ratinho e Arinto, num mínimo de 75%. A Seara Nova pode ser utilizada só até 25%.

Finalmente o vinho. Este néctar é um vinho generoso (fortificado), cor de topázio, portanto as castas brancas são as mais valorizadas para o vinho de Carcavelos. Um vinho aveludado e persistente, mas delicado com sabores e aromas amendoados, notas de frutas secas, mel e especiarias que adquire um perfume acentuado com o envelhecimento em barricas de carvalho por 10 anos.

O corte é feito com aguardente vínica a 77°, obviamente muito alcoólica mas delicada e que manterá o adocicado do produto final. O vinho descansa por cerca de 9 meses em tanque de inox, nas barricas e depois em garrafa. Dá para sentir porque vale o esforço para salvar esta preciosidade da extinção? O bom é que todo este trabalho culminou no crescimento do terroir cultivado para 12 a 15 hectares. A colheita mais recente deve produzir 60.000 litros e os mercados de exportação retornaram,  incluindo Espanha e a antiga cliente, a Inglaterra. Só falta o Brasil.

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Eu não podia terminar sem agradecer ao Tiago por sua gentileza em nós receber sem agendamento, bem na época das vindimas com a típica cortesia e boa disposição dos portugueses. Valeu, Tiago. Saúde!

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Conheça Colares um vinho raro que triunfa na adversidade há séculos

Escondida atrás da Serra de Sintra, a apenas 40 minutos de Lisboa, está a valente Colares, uma pequena DOC portuguesa que contra todas as probabilidades, faz um vinho maravilhoso há séculos e revela seus segredos apenas a quem se atreve a desbravá-la.

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A Região Demarcada de Colares, limitada a oeste pelo Oceano Atlântico e a sul pela Serra de Sintra, inclui parte da união das freguesias de São João das Lampas e Terrugem e parte da união das freguesias de Sintra, todas do Conselho de Sintra.  Para começar, Sintra já é um passeio imperdível para quem visita Lisboa. É também chamada de cidade de contos de fadas, pois está repleta de palácios encantadores que parecem saídos direto de um dos livros de princesa da Disney e imensos parques naturais com bosques de vegetação exuberante. Esta cidadezinha, Patrimônio Mundial da UNESCO, é a prova de que o homem pode interferir na paisagem e realçar a natureza.

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Castelo da Pena em Sintra, visto de Colares
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A linda cidade de Sintra, Patrimônio Mundial da Unesco.

 

 

 

 

 

 

 

Colares é região demarcada desde 1908, a DOC mais ocidental da Europa continental e a menor região produtora de vinhos tranquilos de Portugal. No começo de sua história, possuía 1.818 hectares, 1.690 em chão de areia e 128 em solo rijo. O granito domina as áreas montanhosas e o terreno arenoso as áreas mais baixas. E foi graças aos seus terrenos arenosos, onde a filoxera não conseguia penetrar, que estas vinhas sobreviveram à violenta invasão desta praga que em 1865 iniciou a devastação de grande parte das regiões vinícolas portuguesas. Além disso, esta combinação de granito nas colinas e areia nas áreas baixas desenham uma paisagem espetacular.

Logo Colares alcançou fama nacional com seus vinhos de castas autóctones cheios de personalidade, reconhecidos por figurões da época em todo Portugal. Em 1866, Ferreira Lapa, professor catedrático do Instituto Superior de Agronomia, dizia “O Colares é um vinho que possue todos os requesitos (sic) e qualidades dos vinhos tintos de Medoc. É o vinho mais francês que possuímos”. Antonio Batalha Reis escreveu em 1873: “Os nossos Colares tintos têm muito do Bordéus fino, e pena é que cuidados especiais não elevem estes vinhos à altura que lhes compete”.

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No entanto, esta fama, aliada às sérias limitações à produção, provocaram problemas. Na virada do séc. XX,  a demanda era muito maior que a produção e alguns produtores mais ambiciosos começaram a acrescentar aguardente ao produto original que quando não era misturado, só era encontrado a preços exorbitantes. Como a lei do mercado é impiedosa, logo a demanda pelo produto caríssimo e muitas vezes falsificado cai e a região demarcada entra em crise. Uma DOC inteira estava em perigo até que em 19 de setembro de 1934, publicava-se o estatuto da Região de Colares como verdadeira carta-magna do vinho de Colares.

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Porém, alguns anos antes, em 1931, havia sido fundada a Adega Regional de Colares, cujo papel foi fundamental na existência desta DOC para regulamentar e também apoiar os produtores locais. Esta é a mais antiga adega cooperativa de Portugal e reúne até hoje a maioria dos produtores da região demarcada de Colares. A utilização da DOC no rótulo implica na vinificação, pelo menos parcial pela Adega.

Outra característica muito especial de Colares é o modo bem diferente como foi feito o plantio destas vinhas: abriam-se valas que quase podemos chamar de trincheiras, pois têm profundidade de 3 a 8 metros na busca por terreno argiloso, já que sem ele a planta morre no verão por falta de humidade. Tradicionalmente, os experimentados trabalhadores que faziam este trabalho à mão devido à irregularidade do terreno se dividiam em 3 grupos. O 1° tirava a areia, o 2° afastava e o 3° ía cavando, portanto trabalhava nas piores condições de segurança e para se proteger, utilizavam cestos que colocavam na cabeça ao menor sinal de deslizamento para evitar a asfixia imediata e aguardar socorro. Barra pesada.


Colares, prioriza 2 castas, a tinto Ramisco e a branca Malvasia de Colares, ambas castas autóctones de pé franco.Como dizia Joaquim Rasteiro, ex-Ministro da Agricultura, em 1926: “A Ramisco é a casta característica e a que lhe dá um cunho distinto, mas o Ramisco criado nas areias movediças da dunas Atlânticas e absorvendo as contínuas massas de humidade que descem da serra. As cepas são rasteiras e descansam as varas na areia, sendo defendidas contra a violência dos ventos vindos do Oceano por abrigos de canas e mato.”

Além da proteção contra o vento, os cachos têm que ser protegidos contra o contato com o solo. Exatamente, com as vinhas rasteiras, as frutas entram em contato com a areia e podem se deteriorar. Cada cacho tem que ser levantado com uma pequena estaca para manter-se seco e são. O micro-clima aqui é muito peculiar. É bastante frio, a neblina raramente se levanta antes do meio-dia. Depois disto normalmente há sol quente até o fim da tarde quando o nevoeiro retorna novamente. O vento sopra constantemente. Incrivelmente, graças à proximidade de Sintra e Lisboa, esta região sofre uma agressiva especulação imobiliária, que aliada às dificuldades de cultivo e limitações de volume tem feito cada vez menos atraente a produção deste vinho.

Hoje, daqueles quase 2.000 hectares, só restam  12 a 15 hectares.  Você leu certo. Na verdade é bem difícil encontrar as escassas áreas de vinha da região. Você tem que se meter em pequenas estradas na região de Azenhas do Mar e espiar por entre estas proteções. Às vezes são macieiras, às vezes vinhas. Às vezes não há mais nada. As plantações estão simplesmente sendo abandonadas. Fui em 2013 e voltei em 2015. Muitas vinhas haviam tristemente desaparecido no areal ou sido tragadas pelo mato no mais puro abandono.

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A produção anual é pouco superior aos 20 mil litros e se resume a 4 produtores: a Adegas Beira Mar, a Adega Regional de Colares, a Adega Viúva Gomes e a Fundação Oriente. O engarrafador oficial é sempre a Adega Regional de Colares, que fornece a maioria do vinho.

Aproveite que você está por aqui e desfrute da bela da paisagem além de almoçar. A culinária regional é fantástica e obviamente baseada nos frutos do mar muito frescos.

Como sou fã destes vinhos e vou sempre que posso a Colares, já provei arroz de mariscos, polvo a lagareiro, os mexilhões e a peixada. Todos vão muito bem com o Malvasia de Colares. Um branco gastronômico, ácido, com frutos cítricos em nariz e em boca e uma mineralidade quase salgada que remete imediatamente ao seu terroir.

A tão comentada Ramisco é uma uva ácida e tânica, por isso o potencial de envelhecimento dos Ramisco de Colares que passam cerca de 4 anos em barrica ou tonéis antes de ser posto no mercado. Procure por exemplares com uns 10 anos para usufruir o melhor deste vinho. Prepare-se para belas frutas como ameixas, notas de fumo e couro tudo equilibrado com uma boa acidez e taninos presentes. E é claro, o balsâmico que caracteriza os vinhos mais antigos.

 

Diz  o Google que a Sociedade da Mesa importou vinhos de Colares em algum momento de 2013. Não sei se procede e no site não há informações, mas fica a dica.

E não perca a oportunidade de provar estes grandes vinhos se estiver perambulando por Portugal. Saúde!

Fonte: O Vinho de Colares – Edição da Adega Regional de Colares – 1938 (reimpressão do original)

Dentre tantas castas portuguesas da gema, justo uma Cabernet no Dão? Vem ver mais esta com a gente.

Existem 3 elementos principais na hora de se produzir um bom vinho:

  1. O terroir, o terreno onde a uva vai se desenvolver. Ele engloba o clima em geral, a temperatura, a humidade, o nível de insolação e o tipo de solo.
  2. O homem e o processo que ele vai utilizar para produzir seu vinho. Sua origem, a tradição de sua região como por exemplo a pisa a pé ou os vinhos de talha.
  3. A casta, a uva que se escolhe, com maior ou menor potência, resistência ou rendimento. Ela será sem dúvida a estrela do produto final.

Quando se fala de vinhos do Dão, eu sou fã número 1 da tradicional colheita manual, da pisa a pé e da elegância dos vinhos oriundos do solo granítico e das vinhas cercadas de pinheirais. E obviamente sou uma ferrenha defensora das 250 castas autóctones de Portugal. Aliás Portugal é o país que possui o maior número de castas autóctones sendo cultivadas no mundo. A Itália também tem muitas castas locais, mas usa comercialmente apenas uma dúzia delas. Porém, no último dia oficial das vindimas do Dão, acabamos vindima um lote inteiro de …. Cabernet Sauvignon. Sim senhor, a uva tinta mais facilmente encontrada no mundo inteiro.

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Mas como? Porque? Na verdade a explicação é muito simples. Natural como a maioria dos vinhos que têm sua origem arraigada na cultura e na história de um povo. O terreno que fomos vindimar pertenceu em algum momento a um representante do corpo diplomático português na França. Este senhor, encantado pelas castas do país decidiu trazer sua rainha para o cume lusitano. Deu nisto. Cabernet no pé da Serra da Estrela.

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A produção é artesanal, para poucos mesmo. Se eu troco por uma Touriga Nacional? Sim, por algumas. Por Jaen? Acho que não.  Mas essa é a riqueza do vinho, veja o vídeo, você vai viajar com a gente também.

Vindima de Cabernet no Dão

4 razões para você aprender mais sobre a vindima em Portugal.

A gente posta estes vídeos mostrando as vindimas que fazemos em Portugal por 2 razões bem fáceis de compreender:

  1. Mostrar nosso trabalho de promoção do turismo de aldeia, levando grupos para conhecer o que bate no coração de Portugal, a apenas cerca de 2 horas do Porto, mas num mundo completamente diferente.
  2. Explicar detalhadamente o processo de vindima: o trabalho nas filas, as tesouras, os balseiros, enfim cada passo que leva a uva da vinha à adega de forma didática, com as imagens reais.

No entanto, existem outras 2 razões para você assistir esse vídeo de 3 minutinhos:

  1. Perceber o que é a essência da vida de aldeia, o espírito de cooperação e colaboração. O verdadeiro significado da expressão a união faz a força.
  2. Compreender o trabalho existente por trás da colheita manual, pois este não é só um tipo de colheita, mas um trabalho minucioso, cansativo e fundamental para a qualidade do produto final

Agora vem com a gente reviver alguns dos momentos maravilhosos vividos em Roriz. https://youtu.be/ucEOHmMhjkY