A beleza tranquila de Melgaço e um Alvarinho muito diferente

Adoro o norte de Portugal. Além das raízes de parte da família, o Minho, região que faz fronteira com a Espanha, é terra de gente amável, de paisagens verdejantes e da magnífica Alvarinho. E foi ali, no distrito de Viana do Castelo, que fui buscar Melgaço, uma vila de cerca de 1.500 habitantes, limitada a norte e leste pela Espanha e a oeste por outra jóia do Minho, a vila de Monção. É claro que o GPS aprontou das suas e eu acabei numa estradinha minúscula. Na Espanha!

Parece que este é o melhor caminho mesmo, mas com os mapas velhos do GPS e já bem dentro da Espanha, não consegui ativar o Waze que funciona com operadora de Portugal para checar o caminho. Então o jeito foi ir em frente. Normalmente eu não gosto de dirigir, mas confesso que esta paisagem é tão bonita que eu até curti.

DSC09102

Lindas paisagens pontuadas pelos típicos espigueiros.

Foi assim que Melgaço se revelou: como uma verdadeira rainha da beleza minhota, desfilando numa espécie de palco, cercada por montanhas que deslumbram e que parecem formar uma platéia de onde se pode em troca, contemplar o charme ancestral da cidadezinha.

DSC09129

Cheguei por lá na hora do almoço e minha reunião só estava agendada para a tarde. Um momento tranquilo, numa vila já muito tranquila. Aproveitei para almoçar no parque, percorrer as ruelas e visitar os principais pontos turísticos. Veja só minhas companhias…

 

Hora do almoço + cidade pequena = tudo fechado. Gostaria de ter visitado o Solar do Alvarinho, mas não foi possível. É uma construção linda e vai ficar para a próxima com certeza. Veja por você mesmo: Solar do Alvarinho – Melgaço

DSC09127

Outra visita que vale a pena são as 2 igrejas. Tudo muito pertinho num percurso que você faz a pé. Bem rapidinho, mas deixe tempo para desfrutar da beleza exterior e interior.

Outro ponto de visita imperdível é o Castelo de Melgaço, principal ponto de defesa fronteiriça do Alto Minho no século XII, localizado quase às margens do rio Minho cujas ruínas vigiam até os dias de hoje a travessia para a Galícia.

 

Mas já era hora de interromper o passeio e trabalhar. Então, rumei para a Soalheiro.

DSC09139

A Quinta de Soalheiro está localizada bem pertinho do centro de Melgaço e também desfruta da beleza privilegiada da região, cercada por um conjunto de serras que além do visual fantástico, criam as condições de pluviosidade, temperatura e horas de sol necessárias à melhor maturação das uvas da casta Alvarinho. Este incrível terroir foi cuidadosamente composto pela natureza assim:

  • pluviosidade: regulada pelo Rio Minho que separa Portugal de Espanha.
  • temperatura: as colinas proporcionam as encostas que protegem e aquecem o vale, barrando o frio do norte ou do Oceano.

Esta peculiaridade se estende à cidade de Monção logo ali ao lado e o perfil do Alvarinho da sub-região de Monção e Melgaço é reconhecidamente diferente. Aqui, apesar das condições favoráveis ao desenvolvimento de todo o potencial da Alvarinho, o custo de produção é bastante alto e o quilo da uva custa em média o triplo do que se paga no resto da região, devido às características do relevo e ao tamanho das propriedade.

DSC09136

Mas voltando à Soalheiro, a quinta foi plantada em 1774 por João António Cerdeira que lançou em 1982, a primeira marca de Alvarinho de Melgaço, a Soalheiro. Hoje, uma área significativa das vinhas se encontra em produção biológica, promovendo a biodiversidade da fauna e flora local. É exclusivamente destas vinhas que nascem as uvas que vão dar origem ao Soalheiro Primeiras Vinhas e ao Soalheiro Reserva.

DSC09134

Uma característica interessante da Soalheiro é a maneira como utilizam a madeira em seus vinhos. Como exercício de degustação, é super legal perceber como um vinho branco, em especial feito de uva Alvarinho pode manter sua fruta e frescor e crescer com o uso da madeira. Este é um trabalho feito por poucos, pois qualquer equívoco pode arruinar o vinho e produzir algo parecido com “chá de madeira”. Na região do Minho existem apenas 3 ou 4 produtores que usam madeira com a devida maestria.

DSC09131

Outros 2 vinhos que você não pode perder são os espumantes Rosé (feito com Alvarilhão e Touriga Nacional) e o de Alvarinho.

DSC09130

Acho que são importados pela Mistral, e lembrando sempre que este blog é independente, convido vocês a conhecerem os vinhos da Soalheiro que vão proporcionar uma experiência fantástica e bem distinta quando você pensar em vinhos verde. Saúde!

DSC09138

 

O vinho da época de Jesus e uma discussão cheia de pecado

“Considera com indulgência os que bebem até a embriaguez. Lembra-te de que tens defeitos maiores.”
Omar Khayyám – 18.05.1048/04.12.1131. Matemático, astrónomo, filósofo e poeta iraniano. Um dos cientistas mais influentes da idade média.

studysm

Há aproximadamente 1 mês, o Ministério da Cultura do Irã decidiu censurar o uso da palavra “vinho” e alguns nomes do que consideram ser “animais estrangeiros” de todos os livros publicados na República Islâmica. Segundo o comunicado, a idéia é proteger os iranianos do que o regime classifica como “ataque cultural” pelo Ocidente. É triste, mas não é a única iniciativa, a Turquia já enveredou por este caminho há algum tempo. Existem 2 contra-pontos nesta história.

O primeiro é que o Irã foi um dos primeiros e mais importantes produtores de vinho no Oriente Médio desde os primórdios da humanidade.

O segundo é que no final do ano passado, um grupo de cientistas da Universidade de Ariel, na Cisjordânia anunciou que está tentando recriar o vinho que se bebia há 2 mil anos, para “recuperar e poder sentir no próprio paladar o sabor, o aroma, a cor e a textura que sentiu Jesus Cristo em sua época.”

DSC_3628_Fotor_Fotor
O vinho e o cristianismo, lado a lado.

Para isso, o primeiro passo é a recuperação da Dabouki, a casta com a qual era elaborado o vinho da época. O processo ocorre através de transferência de material genético de sementes de uvas antigas para uvas israelenses atuais, algo tipo Jurassic Park, mas sem a parte do Tiranossauro RexA pesquisa inclui também a análise de tonéis feitos com barro, encontrados nas ruínas de diversos templos judaicos.

Esse grupo de cientistas já conseguiu produzir vinho a partir da uva Maaravi, uma variedade considerada extinta e que era cultivada no leste de Belém, por volta do ano 220 d.C. O objetivo dos produtores de vinho de Israel com estas “novas” variedades ancestrais é uma oportunidade para diferenciar seus produtos em um mercado global competitivo, onde eles têm pouca esperança de melhorar as variedades tradicionais (Cabernet, Chardonnay, etc) cultivadas em seu território.

DSC_3636_Fotor
Vai uma uvinha de 2.000 anos, aí?

Todo este processo, no entanto, não é livre de polêmica, especialmente numa terra onde há tantos conflitos, pois os palestinos têm suas próprias reivindicações de propriedade sobre as uvas. Só não reivindicam com mais ênfase, por medo da retaliação por trabalhar com israelenses nos projetos de resgate e por ajudar a fazer vinho (álcool), o que é proibido pelo Islã.

À parte da discussão étnica e religiosa que deixo para pessoas mais capazes que eu, o que me chamou a atenção foi que obviamente enquanto um país renega sua relação com as raízes do vinho e outro tenta resgatá-la, existe um contexto recente sobre a discussão de perfil de sabores de vinho que uma destas iniciativas pode iluminar.

Numa degustação técnica moderna e de nível internacional, os profissionais falam de aromas, sabores e defeitos do vinho que são regidos por normas de organizações internacionais. Assim todos falamos a mesma língua. Isto é justo com os produtores e com os consumidores do vinho, pois como consequência os vinhos são comparados equitativamente em termos de qualidade. 

A WSET, por exemplo, é uma organização internacionalmente reconhecida no mundo do vinho e suas fichas de degustação são uma das mais utilizadas nos meios profissionais do vinho.

O ponto é que tudo isto foi feito para o vinho moderno e tradicional. O que chamamos de vinho “tradicional” hoje, exige uma certa manipulação do vinho pelo enólogo, ao contrário dos vinhos dos primórdios, ou os naturais da atualidade que se supõe, são bebidos exatamente como a natureza os fez. Além disso, suspeita-se que desde os gregos até a época de Jesus o consumo de vinho era feito com água do mar, especiarias e ervas. Como classificar vinhos desta natureza?

O vinho pode ser tradicional, orgânico, biodinâmico ou natural, sobre os quais já conversamos em nossa matéria: Tudo o que você precisa saber sobre vinhos orgânicos e biodinâmicos para ampliar seu leque de opçõesmas todos são julgados sob as mesmas regras, independente de gosto pessoal. Um profissional do vinho obedece a fichas técnicas bastante precisas (como as acima) para julgar um vinho. Suas preferências pessoais, ele deixa em sua adega. E para ser muito imparcial, normalmente ele não vê o rótulo enquanto faz suas anotações. Assim tanto faz da onde, de quem, de que ou de quando é o vinho.

DSC_3648_Fotor.jpg
Que o vinho nosso de cada dia seja sempre abençoado!

Este certamente será um tema para ocupar a cabecinha dos profissionais do vinho no futuro, enquanto surgem ou até ressurgem vinhos que não estão enquadrados no esquema tradicional de avaliação mas cujos produtores e consumidores merecem o respeito devido a todos os demais. Pense nisto quando você degustar sua próxima taça e observe que quem usa o termo degusta, também cospe, não engole. Analisa detalhada e pausadamente, anota suas impressões numa ficha e arquiva. Como um profissional. Do contrário você está só tomando vinho. O que diga-se de passagem, é ótimo! Mas diferente.

Portanto nada impede de seguir mais um conselho do sábio Omar:

“Ah, encha a taça: de que vale repetir
Que o tempo passa rápido sob nossos pés:
Não nascido no amanhã, e falecido ontem,
Por que angustiar-se frente a eles, se o hoje pode ser doce?”
Omar Khayyám

Mais informação: Seu History

New York Times

Iran bans use of the word wine in books

Casa de Darei, a Magia do Tempo no Coração do Dão

A primeira abordagem: desbravando o inverno do Dão.

Janeiro pode ser uma época complicada para visitar vinícolas no hemisfério norte. As videiras estão no seu soninho anual e quem trabalha muito na vinha o ano todo além do enoturismo no verão, aproveita para tirar alguns dias de folga. O nevoeiro matinal, a chuva e o frio também não ajudam.

DSC06808

O Dão no inverno.

Mas como sou determinada, ano passado estava em Portugal a trabalho e parti com minha fiel GPS (a Mafalda) pelas estradinhas sinuosas. No fim, ela sinalizou que havia chegado ao meu destino e só vi um muro! Enfim, decidi explorar, enveredei por uma estradinha de terra e a única coisa que encontrei foram olhares céticos de algumas vacas. E um lamaçal. O carro atolou, consegui voltar, procurei uma via alternativa e não achei o que buscava, o Solar de Darei. Mas achei o rio Dão. Como tenho uma promessa de pôr os pés nos principais rios de Portugal, tentei fazê-lo. BBBrrrrrrrrrr. O vento e o frio mal deixavam eu me aproximar da água. Mas molhei a mão e fui embora, esperando retornar um dia.

DSC07031

Olhar de “Não te conheço, mas acho que não gosto de você”.

DSC07029

Momento em que você confia no GPS. Desconfiando…

 

DSC06940

Mãozinha no Rio Dão porque pezinho, nem pensar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como dizem por aí: a terceira é a vencedora!

Finalmente, em junho deste ano, eu tive oportunidade de conhecer esta propriedade muito especial e seus vinhos vigorosos. E a surpresa foi maior que a esperada.

O Solar

Este casarão centenário comprado em 1997 pela família Ruivo, foi inteiramente restaurado usando materiais similares ao da época. Tudo reproduzido metodicamente, num trabalho que durou 7 anos e envolveu praticamente todos os membros da família.

DSC09331

Casarão principal do Solar de Darei.

DSC09330

Casa de hóspedes.

 

 

 

 

 

Porém o mais legal é que eles não fizeram tudo isso só para a família. Darei é hoje um aconchegante e charmoso hotel rural. Você pode se hospedar num dos quartos da propriedade principal ou alugar a casa de hóspedes.

DSC09367

Charme, conforto numa viagem no tempo.

DSC09363

O casarão é cercado por paisagens deslumbrantes.

DSC09362

Um convite para relaxar e contemplar….

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Além da hospitalidade portuguesa, em Darei você também pode desfrutar da boa gastronomia lusitana, tudo dentro de um clima muito rústico e ao mesmo tempo elegante. Cada cantinho da casa tem algo especial.

DSC09361

Repare na moldura desta porta!

DSC09350

Porém as vestes da confraria revelam a verdadeira vocação do patriarca da família.

DSC09349

 

 

 

É nas verdadeiras relíquias espalhadas pelo solar, que o transformam quase que num pequeno museu que vemos a verdadeira vocação de Darei e de seus proprietários: o vinho. Autêntico vinho do Dão.

DSC09358 DSC09357
DSC09347

 

 

 

O Lagar de Darei

Por isso seguimos pelo assoalho de madeira, buscando o piso de pedra que vai nos indicar a proximidade da adega para por fim descobrir o segredo do vinho de Darei.

DSC09340

Atrás destas grossas paredes de pedras a magia acontece.

DSC09337

 

 

 

 

 

Aqui, a pisa é a tradicional portuguesa. A pé, no lagar de pedra, por mais ou menos 10 dias com temperatura controlada por cerca de 22 graus, buscando a melhor extração de aromas e sabores deste terroir que vamos em breve explorar.

DSC09335

O lagar de Darei.

DSC09343

Os tesouros da casa ….

 

 

 

 

 

 

 

As vinhas

Neste apego de preservar o melhor do passado, utilizando a ciência do presente, o cultivo das vinhas de Darei segue orientação orgânica, assunto sobre o qual temos falado muito. Um exemplo se vê na manutenção das vinhas: as ervas são parte do vinhedo, têm seu papel de forração. Ocasionalmente, são cortadas e servem de alimentos ovelhas criadas por ali perto.

DSC09318 DSC09317

 

 

 

 

O solo de granito arenoso, típico desta região, o vento e a insolação protegem da humidade do rio e da vasta vegetação, criando um microclima que de certa forma ajuda na proteção contra doenças.

Aliás a falta de humidade é tanta, especialmente de maio a julho que Darei desenvolveu um estudo com a Universidade de Viseu para monitorar a humidade do solo e assim regulam a rega para não atrasar a colheita.

DSC09325 DSC09324

 

 

 

 

Mas vamos aos vinhos

Desde já me desculpo por alguns rótulo que não estão atualizados. A vinícola os estava trocando na época da visita e eu preferi manter as fotos originais. Um detalhe interessante: o recorte que se vê nos rótulos é a silhueta do Rio Dão. Muito bacana!

1. Branco Private Selection 2012
Um corte de Encruzado, Malvasia Fina, Cerceal, Bical, Verdelho e Arinto. Fermentação feita em balseiros grandes de madeira, cerca de 40% do vinho, depois cerca de 10% do vinho estagia 2 meses em carvalho francês novo. O vinho revela, assim, aromas florais com um toque de madeira. Na boca, frutas brancas, complexo, mineral e uma boa acidez fazem deste um vinho muito gastronômico.
DSC09353

2. Reserva 2011
Elaborado com Touriga Nacional, Jaen, Tinta Roriz e Alfrocheiro. Aromas de fruta preta madura. Na boca acrescenta toques de cacau e especiarias.

DSC09355

3. Sem Abrigo 2011
Também elaborado com Touriga Nacional, Jaen, Tinta Roriz e Alfrocheiro. Sem estágio em madeira, com pisa a pé em lagar e envelhecido por 18 meses em cuba de cimento. Frutas vermelhas e toques herbáceos bem equilibrados.

DSC09354

4. José 2004
Mesmo corte dos anteriores, pois assim se trabalham as casta aqui. Deste não tenho fotos do rótulo, pois é uma recente homenagem ao patriarca da Casa de Darei e ao 15 anos da primeira vindima. Aromas de fruta vermelha madura, notas de cacau, especiarias e um balsâmico fresco muito interessante. Mostra a capacidade de envelhecimento dos vinhos do Dão e sua inegável elegância.

E nos despedimos de vocês, deixando convite para que venham ao Solar de Darei, desfrutem desta casa histórica e conheçam esta jóia do Dão, bem como seus vinhos.

DSC09370

A cozinha restaurada à perfeição.

DSC09371

Uma pausa no tempo cria este ambiente rústico e aconchegante.

Casa de Mouraz, mergulhe numa explosão da natureza do Dão em cada garrafa

No mês de junho tive a oportunidade de desvendar mais um segredo vinícola do Dão, a Casa de Mouraz, localizada em Mouraz, uma das mais antigas aldeias de Portugal, já que o país nasceu oficialmente no século XII e Mouraz existe desde o século X. Mouraz é parte do concelho de Tondela, meia hora distante de Viseu, o coração administrativo desta região. Fui recebida pelo António Lopes Ribeiro que é advogado por profissão, mas que largou o Direito para cuidar de uma editora em Lisboa e lá conheceu a Sara Dionísio com quem criou 2 parcerias: a da vida pessoal e a de adotar técnicas pioneiras na prática de agricultura biológica nas vinhas que pertencem à sua família há muitas gerações. Se você der uma olhadinha aí embaixo, vai ficar na cara porque.

Seja Bem-vindo!

Seja Bem-vindo!

A Casa é sua.

A Casa é sua.

 

 

 

 

 

Desde que começaram a cuidar das terras da família na década de 90, António e Sara decidiram mudar a maneira como as vinhas eram tratadas.  Munidos de dedicação, paciência e persistência que só os visionários possuem, trabalharam árduos 3 anos somente para a conversão da agricultura tradicional para a orgânica. Isso acontece porque com a utilização de químicos sintéticos, não se cura a origem da doença, apenas a controlamos, enquanto isso a terra enfraquece e “vicia” nestas substâncias, afetando seu sistema imunológico e perdendo sua energia natural. Aí toca estimular e esperar a natureza. Não sou médica, mas acredito que isso ocorra também conosco e com o uso continuo de certas medicações. Mas vamos juntos descobrindo mais sobre o assunto. Não esqueça que já abordamos o tema em Tudo o que Você Precisa Saber sobre Vinhos Orgânicos e Biodinâmicos

Alho selvagem, essencial para o equilíbrio da flora. Protege a vinha!

Alho selvagem, essencial para o equilíbrio da flora. Protege a vinha!

Os frutos desta dedicação não demoraram a aparecer e em 1996 a vinícola foi certificada pela Ecocert. As adubações dos solos são feitas com base em sementeiras de plantas, especialmente as leguminosas que fixam o azoto e adubos orgânicos. Os tratamentos baseiam-se na utilização de cobre, enxofre, algas marinhas, argila, infusões de plantas e outros produtos naturais. No final de 2006 iniciou-se também o trabalho em biodinâmica.

DSC09387

A forração vegetal entre fileiras de vinhas tem o seu papel.

Repare que não há combate a "ervas daninhas".

Repare que não há combate a “ervas daninhas”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A propriedade da Casa de Mouraz, na verdade não é uma só, ela é composta por várias vinhas separadas, como uma linda colcha de retalhos de diferentes solos, altitudes e vegetação. Algumas vinhas velhas com mais de 80 anos e outras vinhas recém-plantadas dividem a paisagem com a floresta de pinheiros, carvalhos, castanheiros e sobreiros. Nos solos os granitos típicos do Dão e as argilas variam em altitudes entre os 140 e 400 metros. Na adega as vinificações são feitas do modo tradicional português, por vinhas e não por castas, com o objetivo de manter-se fiel à essência de cada terroir.

Penedos e pinheiros. Estamos no Dão!

Penedos e pinheiros.

DSC09399

Estamos no Dão!

 

 

 

 

 

Esta é uma das bandeiras de António & Sara: a biodiversidade. Em sua colcha de solos, micro-climas e vegetação, eles cultivam castas como a tradicional Touriga Nacional, Alfrocheiro, Jaen, Água-Santa, Baga, Tinta-Roriz,  Malvasia-Fina, Bical, Cerceal-Branco e Encruzado. E como Portugal tem mais de 250 castas autóctones, todas ainda utilizadas e eu adoro brincar de bingo de castas, pelos vinhedos de Mouraz eu aprendi mais 2:

  1. Alvadurão também conhecida como Siria e;
  2. Esgana Cão também conhecida como Uva Cão;
  3. A elegante Touriga é conhecida como Tourigo na região entre as cidades de Mortágua e de Tondela e durante muitas décadas foi improdutiva por não se adaptar ao mercado. Hoje é a queridinha de Portugal. O mundo dá voltas até para as uvas, né?!

DSC09408

A biodiversidade é tanta que até lagostim na piscina de água absolutamente pura, aparece para uma visitinha.

E a diversidade reflete-se na personalidade, complexidade e carácter único dos vinhos por eles produzidos. Esquece esta história de vinho orgânico com gosto esquisito. Aqui a pureza da natureza traz aromas e sabores elegantemente engarrafados para você. O respeito à natureza é uma convicção!

DSC09391

Este é o António e o carinho que ele tem com seu vinhedo.

DSC09390

Olha essa belezinha antiga ornada de beleza e frutos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 2009 a Casa de Mouraz passou a ser a única vinícola portuguesa a integrar o prestigiado grupo de produtores biodinâmicos La Renaissance dês Appellations, também conhecido, em inglês como Return to Terroir. Um grupo que propõe um sistema de avaliação que não está baseado em termos de “bio ” ou  “não bio”, mas em ações que permitem que uma denominação de origem se expresse naturalmente. Assim, com cada grupo de ação adotado, pode-se ir de 1 a 3 estrelas “verdes”,  o que incentiva o produtor a fazer o seu melhor e informa o consumidor sobre o que foi ou não efeito no vinhedo ou e adega.

DSC09385

Agora me diga, esta é uma planta saudável ou não?

DSC09384

Já pensou se tudo o que comêssemos fosse saudável e absolutamente natural assim?

Hoje, encontramos os vinhos da Casa de Mouraz não só em Portugal, mas em mais 18 países como Inglaterra, Alemanha, Brasil, EUA e até nas feras da produção de vinhos França e Espanha.

Banquinho estratégico perto das vinhas e do rio que banha a propriedade. Propício para um momento com a natureza.

Banquinho estratégico perto das vinhas e do rio que banha a propriedade. Propício para um momento a sós com a natureza.

Não é a toa que em 2014, a Casa de Mouraz foi eleita 1 das 12 vinícolas nas quais ficar de olho pela revista americana Wine & Spirits 12 Wineries to Watch.

E como sempre, depois do nosso papo, vamos aos vinhos.

Um tanto inquieto, o António decidiu que após o pioneirismo em sua terra Natal, ele devia se aventurar pelos tradicionalíssimos Douro & Alentejo e pela região do Minho para fazer vinho verde orgânico.

DSC09375

Os vinhos do Douro e Alentejo.

DSC09374

A linha Caruma, também do Dão.

 

 

 

 

 

  • Air

Um Loureiro (80%) com toques de Arinto (10%) e Trajadura (10%), fermentação natural a temperaturas muito baixas.  Nesta mini vertical, degustei as safras de 2014, 2013 e 2011.

O 2014 mostrou-se leve, com um pouco de açúcar residual e muito frescor;

Já o 2013 é mais untuoso e menos ácido.

O 2011 era logicamente mais evoluído, com deliciosos aromas de mel e boca com notas peroladas. Ainda mais untuoso que o 2013.

DSC09376

  • Casa de Mouraz 2013

Um floral delicado com notas de flor de laranjeira. É um incrível corte de 9 castas. No rótulo porque na garrafa são 15, mas onde todas se unem para um  delicioso frescor frutado e muito equilibrado.

DSC09377

  • Casa de Mouraz 2012

Também um incrível corte das mesmas 15 castas, mas se mostrou mais cítrico e fresco.

DSC09378

  • Casa de Mouraz Encruzado 2013

Novamente me impactou o frescor que aliás é uma característica deste produtor, fruto da altitude do terroir. Vinho muito gastronómico, untuoso e mineral.

DSC09379

  • Casa de Mouraz Rosé 2014

Ao contrário dos tradicionais claretes produzidos com 85% de uva tinta e 15% de uva branca este Rosé leva só castas tintas e é produzido através de sangria, conferindo-lhe personalidade, um bom corpo, acidez importante com notas de morangos e cerejas delicadas. Amei de paixão.

DSC09380

  • Casa de Mouraz 2010

Um fantástico corte de castas: Touriga-Nacional, Tinta-Roriz, Alfrocheiro, Jaen, Água-Santa, Tinta-Pinheira e Baga.  Vindas de parcelas com características diferentes. Manja? Não? Então prova. 15% passa em carvalho francês por 8 meses.

DSC09381

  • Casa de Mouraz Elfa 2010

Museu  a céu aberto. Vinha velha, castas misturadas como manda a boa tradição. 30 castas como Baga, Jaen, Tinta-Pinheira, Alvarelhão, Alfrocheiro e muitas outras, com excepção de Touriga-Nacional (quase inexistente nesta vinha). Milagre!. Tudo vinificado junto misturado. Vinho autêntico e elegante. Sem barrica, faz um estágio de 2 anos em cuba de inox. Harmoniza com fungi.

DSC09382

 

  • Casa Mouraz Private Selection 2011

Touriga-Nacional (70%) e castas misturadas de uma vinha velha, como Jaen, Baga, Água Santa, Alfrocheiro, Trincadeira e outras (30%). A fermentação sem engaço decorreu em inox, seguindo-se uma maceração longa. 50% do vinho estagiou em barricas de carvalho francês durante cerca de 1 ano. Presença nacional de Touriga Nacional.

DSC09383

Lembrando sempre que este blog é independente, deixo vocês com 5 convites:

  1. Visite Tondela que é uma cidade muito fofa no pé da majestosa Serra do Caramulo.DSC00901
  2. Estando lá compre uma bonita Bilha do Segredo e aproveite para tirar um barato de seus amigos, como se pode ver no vídeo.
  3. Conheça a Casa de Mouraz que além de interessante é um terroir deslumbrante.

    Ciclovia que acompanha os vinhedos.

    Ciclovia que acompanha os vinhedos.

    DSC09406

  4. Enquanto estiver por Tondela, não deixe de visitar o Restaurante 3 Pipos. Comida típica portuguesa de comer de joelhos. Chegue apostando nos bolinhos de bacalhau ou nas moelas e depois sofra para decidir-se entre polvo frito com migas ou o cabrito. Ou peça tudo, se acabe de tanto comer e peque pela gula.

 

IMG_6753

Polvo frito com migas.

Moelas.

Moelas.

Cabrito.

Cabrito.

 

 

Aqui no Brasil, a Casa de Mouraz é representada pela Azavini e importada/distribuída pela Vinhos do Mundo. Entre em contato e pergunte pelo seu.

Ahhhh, em São Paulo, você pode provar o seu Casa de Mouraz na Enoteca Saint Vin Saint, especializada em vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais.

Tudo o que você precisa saber sobre vinhos orgânicos e biodinâmicos para ampliar seu leque de opções

Hoje nós vamos explicar direitinho para você o que são 2 tendências mundiais que vêm ganhando cada vez mais força: a dos vinhos orgânicos e biodinâmicos. Não podemos nunca esquecer a origem agrícola deste produto que muitas vezes é elitizado e glamurizado nas prateleiras de supermercados e empórios, tão longe das terras e vinhas que lhe deram vida. Portanto para entender estes vinhos, vamos primeiro falar de agricultura.

Buscando melhorar a produtividade da atividade agrícola e abastecer uma sociedade que se tornava cada vez mais urbana e industrial, os fertilizantes artificiais foram criados durante o século 18, justamente a época da Revolução Industrial e do êxodo rural. Inicialmente tinham como base os superfosfatos  e em seguida, o amoníaco. Estes fertilizantes eram baratos, poderosos e fáceis de transportar. Porém, a utilização deles ganhou terreno na década de 1940, no pós guerra, conhecida como a “era do pesticida”. Estas novas técnicas agrícolas traziam benefícios no curto prazo, mas provocavam efeitos secundários graves a longo prazo, como por exemplo:

  • a compactação e a erosão do solo;
  • o declínio na fertilidade do solo;
  • os danos à saúde devido a produtos químicos tóxicos que entram no abastecimento alimentar.

E não demorou para alguns agricultores perceberem a degeneração de suas plantações e a perda de fecundidade de suas terras e recorrerem a um cara chamado Rudolf Steiner. Este cientista austríaco tinha vários interesses, entre eles a agricultura. Junto deste grupo de agricultores, ele buscou novas técnicas de plantio e em 1924 apresentou um ciclo de conferências destinadas a cientistas, veterinários e agricultores e estabeleceu a base da agricultura biodinâmica.

Outra iniciativa ocorreu entre o final dos anos 1930 e início dos anos 1940 através de Sir Albert Howard e de sua esposa, Gabrielle Howard, ambos botânicos, que desenvolveram a agricultura orgânica. Os Howards foram influenciados por suas experiências com os métodos tradicionais de cultivo na Índia, pela biodinâmica e pela sua educação científica formal. Sir Albert Howard é considerado o “pai da agricultura biológica” porque ele foi o primeiro a aplicar o conhecimento científico nestes métodos tradicionais e mais naturais.

DSC09702
A joaninha é o símbolo da agricultura orgânica, também chamada de biológica. Fique de olho!

A agricultura orgânica utiliza fertilizantes e pesticidas (que incluem herbicidas, inseticidas e fungicidas), se forem considerados naturais (tais como farinha de ossos de animais ou piretrina das flores), mas exclui ou limita o uso de:

  • fertilizantes sintéticos;
  • pesticidas petroquímicos;
  • reguladores de crescimento de plantas, tais como hormônios;
  • uso de antibióticos na criação de animais,
  • organismos geneticamente modificados (este item é um pouco polêmico, pois alguns acreditam que os OGMs podem apresentar vantagens);
  • lodo de esgoto humano

por razões de sustentabilidade, transparência, independência, saúde e segurança.

DSC09766
Muitas organizações certificam as plantações e a produção de vinhos para garantirem ao consumidor final a adequação do produto às suas regras.
DSC09767

A agricultura biológica é uma forma de agricultura que se baseia em técnicas como:

  • a rotação de culturas;
  • adubação verde;
  • compostagem e;
  • controle biológico de pragas.
DSC09753
As regras para a produção de vinho orgânico são claras.
DSC09749

A diferença entre a agricultura orgânica ou biológica e a biodinâmica é que, além de basicamente adotar todas as regras da agricultura orgânica, a biodinâmica trabalha também com o conhecimento do ciclo cósmico, pois para os agricultores biodinâmicos, o reino vegetal não se emancipou das forças cósmicas, sendo um reflexo do que se passa no Cosmo. É um pouco mais filosófica e mais complicada que a orgânica porém se baseia nesta em seus preceitos básicos.

O aumento da conscientização ambiental na população em geral, especialmente na Europa,  transformou o movimento orgânico originalmente centrado na oferta para uma estratégia orientada pela demanda. A prática de preços premium e de subsídios do governo também atraíram produtores.

DSC09606
DSC09475

Mas calcula-se que a partir de 2011, aproximadamente 37 milhões de hectares em todo o mundo foram cultivados organicamente, o que representa apenas cerca de 0,9% da superfície agrícola total mundial. Ou seja ainda há muito o que fazer e muitas cabeças a mudar para que a agricultura orgânica seja padrão, não exceção.

DSC09701

O vinho orgânico é feito de uvas cultivadas de acordo a práticas da agricultura orgânica, ou seja, produzidas sem pesticidas sintetizados quimicamente, sem fertilizantes químicos e sem herbicidas. Além disso existem limitações no uso do que vai na vinha, a proibição de certos processos de vinificação e a redução dos níveis de sulfito autorizados.

Vinhos sem sulfito
O vinho orgânico utiliza menos sulfito, um conservante, na sua produção, e alguns vinhos são produzidos totalmente sem sulfito.

E nas vinhas, a situação não é diferente. A videira é uma planta bastante delicada e sensível às pragas, especialmente as advindas da humidade. Por isso, não é de espantar que, por exemplo, os vinhedos franceses representem menos de 4% das terras dedicadas à agricultura, mas usem 14% dos pesticidas. (Fonte: INRA 2010)

DSC09763
Degustação livre de vinhos orgânicos na Vinexpo. É só chegar, degustar e tem material de apoio também.

Agora vamos aos vinhos cuja variedade impressionou.

Um rosé do Domaine des Carabiniers da região de Tavel apresentou-se muito frutado, mas levemente cozido o que lhe tirou um pouco do frescor.

IMG_5654

Este Sancerre da Le Tournebride apresentou-se cítrico, fresco, aromático com notas florais lembrando jasmim.

IMG_5655

O outro Domanie des Carabiniers da região de Lirac mostrou-se herbáceo e fresco.

IMG_5656

O Château Fougas é um vinho poderoso cheio de frutas vermelhas, taninos afinados e muito frescor. Este declara ser um vinho orgânico no rótulo.

IMG_5657

O Château La Roque é um vinho interessante com frutas vermelhas e notas de menta. Leva a designação biologique que significa orgânico no rótulo.

IMG_5658

Um delicioso Merlot do Domaine Émile Grelier que também leva a designação de orgânico no rótulo.

IMG_5659

O branquinho da Vignoble des 2 Lunes é floral, delicado e um pouco açucarado.

IMG_5661

Foi possível ver que os vinhos orgânicos além de cuidarem melhor do planeta, apresentam uma variedade muito interessante. Nos próximos posts nós vamos continuar a contar para vocês sobre vinícolas que praticam a agricultura orgânica e produzem vinhos imperdíveis.