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Uva de vinho de garrafão ou não? Você sabe a diferença? / Do you the distinction between indigenous and wine grapes?

Se você é brasileiro e gosta de vinho, deve ter ouvido que existem Vitis Viníferas, ou seja, uvas próprias para se fazer vinho e Vitis Americanas, uvas impróprias para fazer vinho e que quando produzem vinhos, eles são muito criticados e chamados de vinhos “suaves”, “de mesa” ou “de garrafão”. A alegação é que estas são uvas de mesa, ou seja, uvas que servem apenas para serem consumidas ao natural e não para vinificação. Mas, por que?

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O vinho produzido nos países de qualquer das Américas podem ter sido elaborados com uvas viníferas ou com uvas americanas que possuem este nome justamente porque não existem , naturalmente, no continente Europeu. Porém, a maior parte dos vinhos produzidos em todo o continente provém das vinhas européias, as Vitis Viníferas. A origem das V. Viníferas têm suas raízes no antigo Cáucaso (hoje a região onde ficam a Geórgia, Armênia, Azerbaijão) – acredite, por lá já se fazia vinho há 7.000 anos mais ou menos – e incluem os vinhos mais populares do mundo: Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Chardonnay, etc. Se quiser saber mais sobre este tema leia: Georgia, o berço do vinho.

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As uvas viníferas têm sido estudadas extensivamente. Elas são o que se pode chamar de elegantes e malvadas, pense O Diabo Veste Prada. Estas uvas são menores, têm sementes duras, suas peles são grossas e também oferecem maior conteúdo de suco vs. polpa. Além disso, elas são sensíveis, difíceis de transportar e quando você morde uma uva vinífera, ela se dissolve, deixando sementes amargas, resistentes e uma casca “chicletosa” na boca. Antipáticas…

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Uma doçura de Touriga Nacional.

O segredo delas é o seu alto teor de açúcar que deixa mãos e dedos pegajosos ao toque. As uvas viníferas, portanto, fazem vinhos melhores e se conservam muito mais tempo após a colheita. Assim, elas também têm uma maior variedade de sabores, que são mais delicados, mais ricos, com um aroma mais agradável, raramente ácido e nunca exalam o peculiar odor desagradável, rançoso e parecido com o aroma de cachorro molhado de muitas variedades americanas . O açúcar, ao fermentar, produz álcool e muitos compostos responsáveis pelos deliciosos aromas do vinho. Para sabe mais sobre aromas, você pode ler nossos artigos Que o álcool afeta muita coisa você já sabia, mas sabe como ele altera o sabor da sua bebida? e também Por que vinho tem aroma de abacaxi, canela ou madeira?

Os vinhos e seus deliciosos aromas.

A pouca utilização das Vitis Americanas na vinificação não se deve à falta de matéria-prima, pois todo o continente americano sempre esteve coberto de videiras. Tanto que em 985, um viking chamado Bjarni Herjolfsson avistou a América, depois que seu navio foi desviado do curso no caminho da Islândia para a Groenlândia. E em 1001, Leif Ericsson, o filho de Eric, o Vermelho, navegou para o oeste para encontrar esta nova terra. Leif e seus homens foram os primeiros europeus conhecidos a ter desembarcado na América. Eles passaram o inverno em um lugar que eles chamaram de “Vinland” (Wineland), justamente pela abundância de videiras no local.

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Os rolezinhos dos Vikings.

A compreensão das uvas de vinho nativas da América não é lá essas coisas. Elas são muito diferentes das viníferas em termos de como e onde crescem, que compostos aromáticos produzem e das técnicas de vinificação especiais devem ser praticadas a fim de que produzam vinhos mais complexos. Infelizmente, por razões comerciais, há pouco incentivo para estudá-las. Das centenas de variedades nativas que foram identificadas nos últimos 200 anos, pouquíssimas estão em cultivo.

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Diversidade de belas e suculentas uvas de mesa.

O que se sabe é que as uvas de mesa são mais bonitas e suculentas, pois são cultivadas de forma a tornarem-se mais desejáveis para o consumo ao natural. As mais modernas não têm nem sementes, têm polpa mais espessa e pele mais fina para fazer aquele delicioso ‘pop’ quando você as saboreia. Aliás, as uvas sem sementes são obviamente mais fáceis de comer, mas saiba que são menos saborosas do que as antigas variedades de uvas de mesa, semeadas.

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Um vistoso cacho de uva Niágara.

Alguns consumidores de vinho de mesa se queixam de uma adstringência desagradável em alguns vinhos de Vitis Viníferas, especialmente nos monovarietais e de que outros não têm caráter de sabor definido.  As uvas americanas, por outro lado, são mais refrescantes e o seu suco não fermentado faz uma bebida deliciosa, carregada de propriedades benéficas à saúde (resvetrarol) sem o prejuízo do álcool.

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Os benefícios do vinho tinto estão igualmente presentes no suco de uva.

Sabe-se também que as uvas de mesa têm menos acidez e menos açúcar do que as uvas viníferas. As uvas de mesa padrão têm um nível Brix de 17-19, enquanto as uvas viníferas têm um nível mais perto de 24-26 Brix na colheita. Brix é a escala utilizada para medir a porcentagem de açúcar em um líquido, algo muito importante no processo de fermentação do suco de uva para vinho.

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Refratrômetro medindo nível de açúcar.

A poda das videiras de mesa e das viníferas é igualmente importante, pois menos uvas equivale a sabores mais concentrados, ou seja, é igual a melhor vinho. Uma videira excessivamente vigorosa vai produzir um montão de uvas de qualidade fraca. Uma videira de menor vigor produzirá menos uvas muito mais concentradas. Uma única  videira de uvas de mesa como a Cowart Muscadine (Vitis rotundifolia) pode produzir 7 -14 kg. Uma Zinfandel (Vitis vinifera) produz cerca de 4-6 kg de uvas por videira. Taí a razão porque o vinho de uva de mesa é bem mais barato.

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Vitis vinífera bem podadinha para concentrar aromas e sabores.

Os agrônomos tentam unir por hibridização o lado bom da Vitis Vinífera com melhor das Vitis Americanas, buscando variedades fortes, saborosas e aromáticas como por exemplo a Goethe, mencionada em Aposto que desta uva você nunca ouviu falar. No entanto, apesar dos esforços dos produtores, poucos destes híbridos têm valor comercial. Como a gente já viu, a natureza, até agora tem feito um trabalho melhor. Mas isto todo mundo sabe, né?

Fonte: The Domestication of American Grapes  by Professor U. P. HEDRICK e Table Grapes x Wine Grape


If you are Brazilian and you enjoy wine, you must have heard that there is a Vitis vinifera (wine grape), grapes suitable for making wine and a Vitis Americana (indigenous grapes), grapes unfit for winemaking.

Wines produced with indigenous grapes are much criticized and called “soft” or “table” wines. The claim is that these are table grapes, only used for consumption in natura and not for winemaking.
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Most of the wines produced in America come from wine grapes, Vitis Vinifera. The origin of V. Vinifera has its roots in the ancient Caucasus (where Georgia, Armenia, Azerbaijan are) – wine was produced in this region 7,000 years ago or more – and include the most popular wine grape varieties: Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Chardonnay, etc. If you want to learn more about this, read: Georgia, the cradle of wine.
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Wine grapes have been thoroughly investigated. They are what you can call elegant and evil, think The Devil Wears Prada. These grapes are smaller, have hard seeds, their skins are thick and offer higher content of juice. In addition, they are sensitive, difficult to transport and when you bite a grape, it dissolves, leaving bitter, hardy seeds and a “chewing” ladle in the mouth.
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Their secret is a high sugar content that leaves hands and fingers sticky to the touch. Fermented sugar produces alcohol and many compounds responsible for the delicious aromas of a wine.
Wine grapes produce better wines and last for much longer after harvest. They have a greater variety of flavours, more delicate, richer, with a pleasant, acidic aroma. Rarely or never smelling unpleasantly like mould or a wet dog as many indigenous grape varieties do. To learn more about aromas, you can read our articles: You knew alcohol affects a lot, but do you realize how it changes the feel of your drink? And still Why wine has the aroma of pineapple, cinnamon or wood?
The little use of American Vitis in the production of wine is not due to the lack of raw material because the whole American continent was always covered with vines. So much so that in 985, a Viking named Bjarni Herjolfsson sighted America, after his ship was diverted from the course on the way from Iceland to Greenland. In 1001, Leif Ericsson, the son of Eric the Red, sailed west to find this new land. Leif and his men were the first known Europeans to land in America. They spent the winter in a place they called “Vinland” (Wineland), precisely because of the abundance of vines.
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Research on indigenous grapes native to America is not particularly developed. They are noticeably different from wine grapes in how and where they grow, what aromatic compounds they produce, and special winemaking techniques practised to produce more complex wines.  Unfortunately, for commercial reasons, there is little incentive to study them. Few of the hundreds of native varieties that have been identified in the last 200 years are grown.
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The diversity of exquisite and juicy table grapes.
Table grapes are graceful and juicy because they are grown to become desirable for natural consumption. Modern ones have no seeds, thicker flesh and thinner skin to make that delicious ‘pop’ when you eat them. For the rest, seedless grapes are obviously easier to eat but are less palatable than the old varieties of seeded table grapes.
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A colourful bunch of Niagara Grape.
Indigenous grape wine consumers complain of an unpleasant astringency in Vitis Vinifera wines, especially in monovarietals, and that others do not show a definite flavor quality.  Indigenous American grapes, on the other hand, are more refreshing and their unfermented juice makes a delicious drink, loaded with health valuable properties (resvetrarol) without the alcohol.
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The benefits of red wine are present in grape juice.
It is known American native grapes are less acid and less sugary than wine grapes. The standard indigenous grape presents a Brix level of 17-19, while the wine grape is closer to 24-26 Brix in the harvest. Brix is the scale used to measure the percentage of sugar in a liquid, essential in the fermentation process of wine grape juice.
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Refractometer measuring sugar level.
The pruning of native vines and grapes is equally important, as fewer grapes are equivalent to more concentrated flavours, to better wine. An overly vigorous vine will produce a heap of grapes of poor quality. A less vigorous vine will produce less concentrated grapes. A single native grapevine such as the Cowart Muscadine (Vitis rotundifolia) can produce 7 -14 kg. A Zinfandel (Vitis vinifera) produces around 4-6 kg of grapes per vine. That’s why table grape wine is much cheaper.
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Vitis vinifera well trimmed to concentrate aromas and flavours.
Agronomists try to hybridize the good side of Vitis Vinífera with the best of Vitis Americana, searching for strong, tasty and aromatic varieties such as Goethe, mentioned in I bet you never listened of this grape. However, despite the efforts of producers, few of these hybrids are of commercial value. As we saw, nature so far has done a better job. But everybody knows that, right?
Source:  The Domestication of American Grapes  by Professor U. P. HEDRICK e Table Grapes x Wine Grape

O primeiro vinho cult do mundo, um escravo rebelde e nossa última história de 2016.

Quem acompanha a gente no Instagram, deve ter notado o nosso interesse pela série Spartacus. Spartacus foi um trácio (a Trácia ficava mais ou menos onde hoje é a Turquia) e de aliado dos romanos ele rapidamente se transformou em escravo deles, gladiador e líder da maior revolta de escravos durante o Império Romano (mais ou menos no ano 73 a.C.).

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A série, que eu assisti no Netflix,  é muito interessante para quem gosta de história, pois mostra vários elementos da vida romana na época. Um deles, é claro, é o vinho. Todo mundo sabe que os gregos trouxeram as videiras para a Itália e gostaram tanto do vinho resultante que chamaram esta terra de Enotria (terra das vinhas). Não demorou para que os romanos também adorassem seu vinho e o consumissem frequentemente.

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Os romanos achavam que deviam “popularizar” o consumo de vinho. Por isso, incentivavam o populacho a consumi-lo. Por exemplo, os escravos bebiam a  lora, feita com a imersão do mosto das uvas prensadas 2 vezes em água por um dia e então prensada uma terceira vez. O exército romano bebia a posca, uma mistura de água e um vinho quase tão ácido como o vinagre que fazia parte de sua ração, já que possuía níveis de álcool mais baixos. Não era à toa que o vinho era misturado à água do mar, mel, especiarias e ervas. O vinho do povão era feito com uvas tintas, pois a nobreza romana bebia vinho branco. E adorava o vinho de Falerno.

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O vinho de Falerno era produzido com uvas Aglianico (e possivelmente Greco também ) nas colinas do Monte Falernus, perto da fronteira do Lácio e da Campânia, onde se tornou o vinho mais famoso produzido na Roma antiga. Considerado o primeiro “vinho cult”, foi frequentemente mencionado na literatura romana, mas desde então desapareceu. Havia 3 vinhedos (ou denominações) reconhecidos pelos romanos: Caucinian Falernian das vinhas nas encostas mais altas do Monte Falernus; Faustian Falernian, o mais famoso, da terra nas inclinações centrais que correspondem às áreas montanhosas atuais da cidade de Falciano del Massico e Carinola di Casanova, propriedade de Fausto, filho do ditador romano Sila.

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O Falerno era um vinho branco com um índice relativamente alto do álcool, possivelmente  15%, por isso frequentemente pegava fogo se aproximada à chama de uma vela. O vinho era produzido a partir de uvas colhidas tardiamente após um breve congelamento ou uma série de geadas, era envelhecido por 15 a 20 anos em ânforas de argila e por isso possuía uma cor âmbar quase castanho escuro. Havia 3 variedades: Seco (Latino austerum), doce (Dulce) e leve (Tenue).

A qualidade e preço diferente para os vinhos romanos fica clara nesta antiga inscrição encontrada numa parede em ruínas de um bar em Pompéia.

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Invicto Castrense que seus 3 deuses sejam favoráveis e assim também seja para o leitor.

Viva Edoné! Boa saúde para o leitor.

Edoné diz:

Aqui você bebe por 1. Mas se você me der 2, você vai beber vinhos melhores e se você me der 4, eu vou fazer você beber um Falerno.

Vida longa a Castrense.

Exatamente, para os romanos, o vinho nobre era o branco. Muita gente tem reservas com este tipo de vinho, mas eu proponho que em nosso verão de 42 graus, você se abra e prove o vinho branco, seja o tranquilo, o espumante e inclusive o vinho verde português. Atreva-se a combiná-lo com nosso pratos de fim de ano: salmão, bacalhau, pernil, peru e claro o nosso tradicional churrasco do dia 1º. Tudo depende do grau de doçura e açúcar para combinar bem.

Provavelmente este será nosso último post em 2016, já que estamos na praia curtindo a preguiça de final de ano. Um maravilhoso 2017 com mais histórias e vinhos!

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