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Festas Medievais em Portugal / Medieval Festivals in Portugal

Sendo brasileira, mesmo tendo oportunidade de ir para o exterior algumas vezes, nunca uma festa medieval me chamou a atenção. Porém, um belo dia, estava com um grupo muito animado (como são todos os nossos grupos) participando de uma vindima e decidimos ir a um mercado medieval. Foi amor, não, não, foi paixão à primeira vista. Depois disto, as festas medievais se tornaram um vício.

Achei que como todos os vícios, era muito pessoal, então em 2017, indo novamente a Portugal com minha filha e meus sogros, resolvi testar a minha teoria. Comprovado: festas medievais são viciantes para todos, em qualquer idade. A atmosfera, a música, a ambientação, o clima, tudo é elaborado para transportar cada um dos participantes através de um encantador túnel do tempo. Fazem com que a gente se sinta carregado pela história.

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Por isso, em 2018, resolvemos abrir o percurso de Festas Medievais em Portugal aos nosso amigos e clientes. Partiremos da cidade do Lisboa, indo até Montalegre na fronteira Norte de Portugal, ou seja, vamos percorrer o Centro-Norte de Portugal, visitando algumas das cidades mais antigas do país e curtindo festas medievais.

Visitaremos Tomar, famosa por sua Festa Templária. A cidade é vigiada por uma fortificação defensiva datada de 1160, que protegia o acesso à Coimbra, então capital do reino. Duas décadas mais tarde, o califa Abu Yusuf Ya’qub al-Mansur atacou Tomar que resistiu durante 6 dias defendida pelos Templários. Nesta ocasião, os mouros forçaram a porta do Sul e a defesa dos Templários foi tão violenta que a tal porta ficou conhecida como Porta do Sangue. O Castelo fica ao ladinho do Convento de Cristo cuja construção começou na mesma época, 1160.

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Já o Aqueduto dos Pegões que foi construído com a finalidade de abastecer de água o Convento de Cristo teve sua construção iniciada em 1593. A impressionante estrutura conta com 6 km de comprimento, altura máxima de 30 metros e 58 arcos de volta inteira.

Ali pertinho fica o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, mais conhecido como Mosteiro da Batalha que foi construído em 1386 pelo rei D. João I de Portugal como agradecimento à Virgem Maria pela vitória contra os castelhanos na batalha de Aljubarrota. Este mosteiro foi construído ao longo de 2 séculos até cerca de 1563, durante o reinado de 7 reis de Portugal! No Mosteiro da Batalha estão sepultados vários reis e rainhas de Portugal.

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Seguindo viagem, parada no Palácio do Bussaco, na Mata Nacional do Buçaco (é assim mesmo, se escreve diferente…). O edifício do atual hotel, um dos mais bonitos do mundo, é de estilo neomanuelino e está decorado com painéis de azulejos alusivos à Epopeia dos Descobrimentos portugueses.

Já bem ao norte, paramos em Chaves, a romana Aqua Flavea. À época da invasão romana da Península Ibérica, os romanos instalaram-se no vale do rio Tâmega, onde hoje se ergue esta cidade e construíram fortificações, aproveitando alguns dos castros existentes. Tal era a importância desse núcleo urbano, que foi elevado à categoria de município no ano 79 d.C. quando dominava Tito Flávio Vespasiano. Daqui advém o nome Aquae Flaviae da atual cidade de Chaves, bem como o seu gentílico: flaviense.

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Pausa no Parque Natural de Pedras Salgadas cujas águas foram descobertas pelos locais logo cedo, especialmente dos que sofriam dos males do aparelho digestivo.

Uma bela caminhada até o mosteiro de Santa Maria das Júnias que remonta a um eremitério pré-românico, do século IX, no concelho de Montalegre. Encontra-se num vale estreito, afastado de tudo, abrigava monges pastores beneditinos, fato que acentuou o carácter humilde e ascético daqueles moradores. Justo ao lado do mosteiro está a bela Cascata de Pitões das Júnias, uma queda de águas que devido aos desníveis do terreno se desenvolve por vários patamares, sendo que o primeiro tem cerca de 30 metros de altura.

A Ponte da Mizarela (ponte do diabo) localiza-se sobre o rio Rabagão, implantada no fundo de um desfiladeiro escarpado, sendo sustentada por um único arco com cerca de 13 metros de vão. Foi erguida na Idade Média e reconstruída no início do século XIX.  Fonte de algumas lendas arrepiantes, a verdade é que a construção é muito bonita e surpreende seus visitantes.

Outro edifício histórco: o Palácio ou Solar de Mateus que foi mandado construir na primeira metade do século XVIII pelo 3º Morgado de Mateus, António José Botelho Mourão. A casa foi sempre administrada pela família Sousa Botelho. O Palácio é constituído pela casa principal, pelos jardins, adega e capela. No interior da casa encontra-se uma biblioteca com 6000 volumes, onde se destaca a célebre edição ilustrada dos Lusíadas de Luís de Camões de 1816!

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E então um pouco mais de água: Vidago é conhecida pelas suas águas gasocarbónicas, especialmente as da nascente n.º 1, são de uma alcalinidade superior a qualquer água portuguesa, excedem também em alcalinidade a de Vichy. Na Europa só há outra estância, onde se dão injecções de água viva: Uriage (França). Há quem diga que Vidago foi uma estância termal no tempo dos Romanos, que ali iam fazer as suas curas e tanto bebiam como lavavam os seus corpos nas santas águas, para curar os seus males.

Na sequência, uma cidade que eu gosto muito: Bragança. Os celtas batizaram a cidade, fundada no século II a.C., com o nome de Brigância, que se foi latinizando até passar a ser “Bragança”. Este nome é a origem do gentílico mais comum: brigantino. Aqui vamos conhecer os caretos. Acredita-se que a tradição dos Caretos tenha raízes célticas, de um período pré-romano. Um ancestral do Carnaval.

Finalmente, Montalegre e a festa das bruxas que se realiza apenas às sextas-feiras 13. Quem lá vai, procura descobrir e viver o imaginário de um território cujo isolamento ajudou a preservar uma identidade muito própria e tradições diretamente ligadas à herança celta, ao sobrenatural e à ideia de que as bruxas, chamadas “mulheres de virtude” teriam poderes curativos.

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A festa mostra a luta entre o bem e o mal, diante de uma multidão que lota o espaço entre o castelo e o palco. As mal compreendidas bruxas, exiladas durante séculos numa dimensão oculta são libertadas por …. um padre em busca do conhecimento ancestral destas guardiãs da sabedoria popular. Mais não conto porque chega de spoilers.

Pegando o caminho de volta, paramos em Óbidos, uma típica vila da Idade Média. Foi recuperada dos Mouros em 1148 e fez parte do dote de inúmeras rainhas de Portugal. Foi de Óbidos que nasceu o concelho de Caldas da Rainha, anteriormente chamado de Caldas de Óbidos (o nome mudou devido às temporadas que aí passou a rainha D. Leonor).

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São 10 dias com muita história, lendas e diversão para a família. Vem com a gente, vem!


Medieval festivals never particularly caught my attention. However, one fine day, I was with a very lively group (as all our groups are) harvesting in a winemaking tour and decided to go to a medieval market. It was love, no, no, it was passion at first sight. After this, the medieval festivals became an addiction.

I thought that like all the addictions, it was very personal, so in 2017, going again to Portugal with my daughter and my in-laws, I decided to test my theory. It was clear: Medieval feasts are addictive to everyone, at any age. The atmosphere, the music, the ambience, everything is designed to transport visitors through a charming time tunnel. We are swept off our feet by history.

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Therefore, in 2018, we decided to open the Medieval Festivals in Portugal to our friends and clients. We will depart the city of Lisbon, going to Montalegre on the northern border of Portugal, that is, we will cross the Center-North of Portugal, visiting some of the oldest cities in the country and enjoying medieval festivals.

We will visit Tomar, famous for its Templar Festival. The city is guarded by a defensive fortification dating from 1160, which protected the access to Coimbra, which as the capital of the kingdom at the time. Two decades later, the caliph Abu Yusuf Ya’qub al-Mansur attacked Tomar which resisted for 6 days defended by the Templars. On this occasion, the Moors forced the southern door and the defence of the Templars was so violent that the door is now known as the Bloody Door. The Castle is located near the Convent of Christ which construction began also by 1160.

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Pegões Aqueduct was built to supply water to the Convent of Christ. Its construction started in 1593. The impressive structure is 6 km long with a maximum height of 30 meters and 58 arches.

Nearby is the Monastery of Santa Maria da Vitoria, better known as the Monastery of Batalha was built in 1386 by King João I of Portugal as an offering to the Virgin Mary for the victory against the Castilians in the battle of Aljubarrota. This monastery was built over 2 centuries until around 1563, during the reign of 7 kings of Portugal! In the Monastery of Batalha are buried several kings and queens of Portugal.

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Next stop: the Bussaco Palace, in the Buçaco National Forest (that’s the way it is written, in different spellings …). The building of the current hotel, one of the most beautiful in the world, is neomanuelino style and decorated with panels of tiles alluding to the epic of the Portuguese Discoveries.

Towards the north, we will stop at Chaves, the Roman Aqua Flavea. At the time of the Roman invasion of the Iberian Peninsula, the Romans settled in the valley of the river Tâmega, where today stands this city and built fortifications, in order to take advantage of some of the existing castro. Such was the importance of this urban nucleus that it was elevated to the category of municipality in 79 C.E. when it ruled by Tito Flávio Vespasiano. That is the origin of the name Aquae Flaviae of the present city of Chaves, as well as the designation of their citizens: flavienses.

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Pause in the Natural Park of Pedras Salgadas. These waters were discovered by the locals in the early days, especially by those who suffered from digestion issues.

A beautiful walk to the monastery of Santa Maria das Júnias which dates back to a 9th-century pre-Roman hermitage in the Montalegre county. It is located in a narrow valley, away from everything, sheltering Benedictine shepherd monks, a fact that accentuated the humble and ascetic character of their inhabitants. Just next to the monastery is the beautiful Cascatas de Pitões das Júnias, a waterfall that due to the unevenness of the terrain cascades by several levels, the first one being about 30 meters high.

The Bridge of the Mizarela (Devil’s Bridge) is located on the river Rabagão, set in the bottom of a steep ravine and being supported by a single arc about 13 meters of span. It was erected in the Middle Ages and rebuilt in the early 19th century. Source of some creepy legends, the truth is that the bridge is beautiful and surprises its visitors.

Another historic building: the Palace or Manor of Mateus that was built in the first half of the 18th century by the 3rd Morgado de Mateus, António José Botelho Mourão. The house was always managed by the Sousa Botelho family. The Palace consists of the main house, gardens, wine cellar and a chapel. Inside the house, there is a library with 6000 volumes. Its highlight is the famously illustrated edition of Lusíadas by Luís de Camões from 1816!

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And then a little more water: Vidago is known for its gas-rich waters, especially those of spring number 1. Their alkalinity being superior to any Portuguese water also exceeds the alkalinity of Vichy. In Europe, there is only another resort, where there are injections of living water: Uriage (France). Some say that I Vidago was a spa in the time of the Romans, who went there to look for their healing powers.

Next, a city that I like very much: Bragança. The Celts named the city Brigantia when they founded it in the second century C.E. The name later became “Bragança.”  It is said that the local tradition of Caretos has Celtic roots, from a pre-Roman period. An ancestor of Brazilian Carnaval.

Finally, Montalegre and the festival of the witches that takes place only on Fridays 13. Whoever visits the region during this time, seeks to discover and live the imaginary of a territory so isolated that it preserved its very own identity and traditions directly linked to the Celtic heritage. The supernatural and the idea that witches, called “women of virtue” would have curative powers. The party shows the struggle between good and evil, in front of a crowd that occupies the space between the castle and the stage. The misunderstood witches, exiled for centuries in a hidden dimension are liberated by … a priest in search of the ancestral knowledge of these guardians of the popular wisdom. We do not tell anymore to avoid spoilers.

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On the way back to Lisbon, our last stop in Óbidos, a typical village of the Middle Ages. It was recovered from the Moors in 1148 and was part of the dowry of countless queens of Portugal. It was from Óbidos that the county of Caldas da Rainha was named, previously called Caldas de Óbidos (the name changed due to the seasons that the queen D. Leonor spent there).

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These are 10 days with lots of history, legends and fun for the whole family. Come with us!

2 histórias se cruzam por um instante e 4 séculos: Solar de Mateus e Mateus Rosé

Portugal tem muitas marcas de vinhos populares ao redor do mundo, por exemplo, Casal Mendes, Periquita, Calamares, Casal Garcia e o Mateus Rosé, para mencionar alguns. Curiosamente, o Mateus Rosé não é muito popular por aqui, porém foi a primeira marca portuguesa de vinho apreciada mundialmente, estando presente em 125 países, há várias décadas.

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A história do Mateus Rosé começa em 1942, quando Fernando Van Zeller Guedes, o fundador da gigante de vinhos portuguesa, Sogrape, criou um conceito distinto, apresentado numa garrafa inovadora. A garrafa foi inspirada nos cantis usados pelos soldados na Primeira Guerra Mundial. O tal vinho era diferente: cor-de-rosa, adocicado, refrescante e com uma efervescência ligeira. O rótulo foi uma homenagem ao grandioso património histórico português.

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Antiga garrafa de Mateus à venda no eBay.

O vinho especialmente concebido para os mercados norte-americano e do norte da Europa, cresceu rapidamente nas décadas de 1950 e 1960 e, no final da década de 80, junto com a versão de branco, representou quase 40% da exportação total de vinho de mesa de Portugal.

No início dos anos 70, Mateus Rosé era o vinho mais popular do mundo. A Rainha Elizabeth está até hoje entre suas fiéis consumidoras. Diz a lenda que a Rainha ficou insatisfeita com a selecção de vinhos oferecida em uma festa privada no Hotel Savoy em Londres no início dos anos 60 e pediu ao maitre que lhe trouxesse Mateus.

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Jimmy Hendrix curtindo um Mateus.

Hoje, o vinho perdeu um pouco de sua popularidade internacional, mas mesmo assim milhares  de estrangeiros (70% dos 80.000 visitantes anuais) buscam o edifício que corre o mundo no rótulo do Mateus Rosé. O Palácio ou Solar de Mateus está situado na freguesia de Mateus, concelho de Vila Real, Distrito de Vila Real e foi construído na primeira metade do século XVIII pelo 3º Morgado de Mateus, António José Botelho Mourão para substituir a casa da família, já existente no local, desde o início do século XVII.

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Um Solar para chamar de seu.

Segundo especialistas, a construção da casa, ou pelo menos de sua fachada central e decoração, é atribuída ao artista, decorador e arquiteto italiano Nicolau Nasoni (Toscana, 2 de Junho de 1691 – Porto, 30 de Agosto de 1773), considerado um dos mais significativos arquitetos da cidade do Porto durante o século XVIII.

A fachada do palácio se destaca pela dupla escadaria que conduz à porta principal, sobre a qual aparece o escudo familiar flanqueado por duas estátuas. No interior,  pode-se visitar uma biblioteca que abriga livros do século XVI, valiosos móveis, porcelanas e quadros e um pequeno museu onde se encontra 1 edição de “Os Lusíadas” de Luís de Camões, da qual só se produziram 200 exemplares. Parte da casa é fechada à visitação, pois ainda é habitada pela família.

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O palácio encontra-se rodeado por um lindo jardim cravado de belas estátuas. Chama a atenção, uma escultura de 1981, de João Cutileiro – Dorme no Lago. E muitas vinhas. Porém, o vinho rosado das garrafinhas bojudas não é feito aqui. O Palácio produz um vinho sim, mas o Porto Quinta da Costa das Aguaneiras. Exatamente, tudo que os 2 têm em comum é a fachada da mansão no rótulo mundialmente famoso e nada mais.

Em 1911, o Palácio de Mateus foi classificado como Monumento Nacional. Acima de tudo, a Casa de Mateus é hoje uma fundação privada, criada para proteger e divulgar o patrimônio histórico e fomentar a atividade cultural.

E mesmo que estas 2 histórias se cruzem por um momento muito mais breve do que eu poderia esperar, recomendo tanto a visita ao Palácio quanto uma boa garrafa de Mateus.

Fonte: Vinho Mateus Rosé e Casa de Mateus