Dia 1 – A emoção da chegada.

Nosso grupo de visita eno-gastronômico e histórico-cultural chegou. Um nome grande para coisas simples como devorar a tradicional comida portuguesa, beber seu delicioso vinho e conhecer tesouros antigos e escondidos que só mesmo os locais conhecem e compartilham com o carinho do povo da aldeia.

Para isso, recebemos nossos convidados com um delicioso almoço na Casa Aleixo no Porto e fomos direto ao Hotel Palácio do Bussaco para conhecer um pouco da história, ver de perto um dos mais belos monumentos deste país e brindar com um tradicional espumante da região a chegada de novos amigos.

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Depois, já em casa, foi hora de relaxar e conhecer o que atraiu todos até aqui: a adega do Há Pão.

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Final perfeito para um dia corrido, mas muito legal.

Laguna, uma aula de história a caminho dos vinhos de altitude.

Imagine a cena histórica: os governantes de Portugal e Espanha, as 2 grandes e audazes potências navegadoras do século XV, pedem ao Papa que divida o mundo e ele para acertar as brigas entre os 2, publica uma Bula papal em 1493. Mas Portugal tinha lá suas desconfianças de que iria perder um bom pedaço de terra para os espanhóis com este limite e convenceu-os a assinarem o Tratado de Tordesilhas em 1494. Resultado: Portugal dá de cara (aham …. sei) com o Brasil em 1500 e descobre (?) que a linha imaginária de 1,5 milhão de quilômetros de extensão, cortava o Brasil desde a Ilha de Marajó (PA) ao norte a Laguna (SC) ao sul. Portanto, as terras a leste do meridiano seriam portuguesas e os territórios a oeste pertenceriam aos espanhóis. Tudo bem que ninguém nunca respeitou estes limites, mas os livros de história e o marco estão aí para me ajudar a contar o conto.

Marco de Tordesilhas.

Marco de Tordesilhas em Laguna.

Localizada a 1 hora e meia de Florianópolis e dona de uma história e beleza muito peculiares, Laguna foi uma das primeiras cidades catarinenses, fundada em 1676 logo após Desterro (atual Florianópolis) em 1673 e São Francisco do Sul  (a primeira) em 1658. E a razão histórica você viu aí em cima. Laguna servia como posto avançado da coroa portuguesa, utilizada como ponto estratégico de apoio para a resistência à Espanha no sul do Brasil.

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O casario antigo é testemunha da importância e riqueza de Laguna no séc. XVIII.

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Seu fundador, Domingos de Brito Peixoto alcançou projeção na Guerra dos Farrapos em 1835, onde abraçou o ideal republicano e foi em Laguna que instituiu pela segunda vez, em território brasileiro, uma república, chamada de República Catarinense ou Juliana em 1839.

A ex-sede da República Catarinense.

A ex-sede da República Catarinense.

Os ares separatistas estavam soprando forte, junto com o minuano, vindos do Rio Grande do Sul, alimentados pelo descontentamento do governo com o imposto sobre o charque e a erva-mate. Só que não foi só isso que o vento trouxe de lá. Em 21 de julho de 1839 Giuseppe Garibaldi, tendo assumido o comando do “Seival” após naufragar perto dali, se abriga na Lagoa do Camacho e chega à foz do rio Tubarão, que fica ao ladinho de Laguna. Dia 22, ocorre a tomada de Laguna e no dia 24, a fundação da República Juliana.

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Nossa Senhora da Glória, propicia uma vista maravilhosa, além de um momento de reflexão diante desta beleza histórica.

Vista de Laguna.

Vista de Laguna.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Garibaldi foi então convidado para tomar um café na casa de pescadores da Barra de Laguna, recebeu a xícara das mãos de Ana Maria de Jesus Ribeiro, cidadã lagunense, casada em 30 de agosto de 1835, na Igreja Matriz de Laguna com Manoel Duarte de Aguiar, um sapateiro nascido na Barra da Lagoa ou em Ingleses, em Desterro (Floripa, lembra?). Garibaldi indaga quem era a moça e alguém responde que era “Aninha”, e ele, admirando-a chama-a de “Anita” (diminutivo de Ana na língua italiana). Ao sair da casa, toma suas mãos e sentencia, em italiano: “Tu tens que ser minha”. Dá pra ver que o garboso Capitão Garibaldi não perdia tempo seja na conquista de terras, como das gatinhas, né? Do destino do marido há várias versões, mas a mais corrente é que foi para o Rio Grande do Sul lutar contra os Farroupilhas.

Igreja onde Anita Garibaldi se casou com o primeiro marido, Manoel.

Igreja Santo Antonio dos Anjos, onde Anita Garibaldi se casou com o primeiro marido, Manoel.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aninha, agora conhecida por Anita Garibaldi, foi uma menina de origem humilde, sem nenhuma instrução que calçou seu primeiro sapato já moça. Porém, possuía uma tenacidade e um amor à liberdade só reservada aos grandes heróis. Admirada no Brasil e idolatrada na Itália, nasceu em 30 Agosto de 1821 vindo a falecer em 04 de agosto de 1849, muito jovem e muito doente. Uniu-se a um revolucionário, foi soldado, enfermeira, esposa e mãe. Em todos os papéis, sua batalha sempre foi travada em nome da liberdade e da justiça. Tornou-se a “Heroína dos Dois Mundos” pois lutou aqui e morreu lutando na Itália por seus ideais.

Anita era tão pobre que esta era a casa onde se arrumou para seu casamento.

Anita era tão pobre que esta era a casa (hoje museu) onde se arrumou para seu casamento.

No centro da cidade, a Doca é um local onde pequenas embarcações e iates ancoram. No passado também esteve ancorado nas Docas, o tal navio “Seival”, aquele conduzido por Giuseppe Garibaldi. Um lindo local onde se pode apreciar o pôr do sol e durante a noite a Lagoa Santo Antônio iluminada.

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A bela doca no centro de Laguna.

Outra maravilha da beleza natural de Laguna é a pesca com auxílio dos botos que já faz parte da cultura local e hoje atrai milhares de turistas para a cidade durante o ano todo. A técnica é a seguinte: nas águas onde a lagoa se encontra com o mar aberto, os botos cercam os cardumes, geralmente de tainhas, para levá-los até os pescadores à beira dos Molhes. Os pescadores de pé, em fila dentro d’água preparam suas tarrafas para o arremesso. Quando o boto surge conduzindo o cardume em direção à praia, os pescadores acompanham a perseguição. Tentando escapar, os peixes procuram lugares mais rasos, onde o boto não pode chegar. As tarrafas são então atiradas ao mar, quase simultaneamente.

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Observação dos botos no Molhe da barra. A quantidade realmente impressiona.

Os botos são uma espécie de golfinhos. Nascidos nesta região e em contato diário com o ser humano, acabam perdendo o medo e começam a trabalhar juntos. Não se sabe ao certo quando começou esta parceria, mas de acordo com a cultura local, já faz muito tempo. O espetáculo da pesca em parceria com os botos só existem em três lugares no mundo: na Austrália, África do Sul e em Laguna.

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Estima-se que há cerca de 40 botos nas lagoas da cidade e todos são reconhecidos pelos pescadores por seus respectivos nomes, colocados por eles mesmos. São eles: Tafarel e seu filhote Borrachinha, Canivete, Chinelo, Juscelino, Chega Mais, Galha Torta e outros.
Os botos nascem, crescem e desaparecem nas lagoas da cidade. A pesca com auxílio dos botos ocorre durante o ano todo, mas é nos meses de abril, maio e junho que se torna mais atraente, devido ao ciclo da tainha. Para assistir este espetáculo é só procurar o Molhe da Barra. A pesca da tainha é considerada uma forte atividade em Laguna e tornou-se um dos pratos mais procurados na região

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Restaurantes no Mar Grosso, ideais para se degustar a tradicional tainha.

Outro ponto de visita interessante em Laguna é a Fonte da Carioca, construída pelos escravos, em 1863, a Carioca até hoje abastece a população de água potável, cuja nascente, no alto do morro é protegida e fiscalizada constantemente. Ao processo de depuração natural uniu-se a filtração artificial com filtros de areia. A água da Fonte da Carioca, conforme crendice popular, tem poderes afrodisíacos, sendo que os visitantes que beberem desta água ficarão eternamente enamorados por Laguna e aqui sempre voltarão.

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A Fonte da Carioca, água pura e muitas lendas.

Após ter uma posição bem estabelecida no litoral, os portugueses sentem a necessidade de ocupação do interior e aparecem os caminhos tropeiros que levavam principalmente gado do Rio Grande do Sul a Sorocaba. Lages é fundada em 1771, ligada a Laguna pela estrada da Serra do Rio do Rastro. Mafra, Curitibanos, Campos Novos e São Joaquim são fundadas para dar pouso aos tropeiros e assim começa uma das novas fronteira do vinho: o Planalto Catarinense, esse é o nosso rumo, mas isso é assunto para outro post. Até mais!

Serra do Rio do Rastro. O caminho dos tropeiros.

Serra do Rio do Rastro. O caminho dos tropeiros. Vamos nessa com a gente?

Abriu uma garrafa de vinho e detestou? Faz molho com ele!

Muita gente se interessou pela dica de como aproveitar aquela garrafa de vinho que você abriu e que te surpreendeu. Negativamente. Então lá vai a dica de como reaproveitar vinho que não te agradou. Muita gente diz para só usar na comida o vinho que vamos tomar. No mundo ideal é assim. Na realidade em que uma garrafa de vinho bem “mais ou menos” custa 30 paus, a ordem é reaproveitar!

Não joga na pia não que os tempos não estão para isso. Coloque em forminhas de gelo e leve ao congelador. Quando você fizer uma carne e quiser dar um toque diferente, use o tal vinho. Pode despejar os cubinhos congelados mesmo que dá tudo certo.

Este pinotage estava desequilibrado. Muito ácido e muita madeira. Foi pro freezer para virar molho e ser feliz!

Este pinotage estava desequilibrado. Muito ácido e muita madeira. Foi pro freezer para virar molho e ser feliz!

Leve o vinho tinto ao fogo em uma panela alta dos lados.
Em seguida adicione cebola bem picadinha e ervas aromatizadas de sua escolha bem picadinhas (louro, alecrim, sálvia e/ou tomilho). Ou coloque só uma e faça um molho de vinho e alecrim para carne de porco, por exemplo.
Se desejar acrescente um toque de manteiga para dar brilho e sabor extra ao molho.
Deixe no fogo alto para engrossar até que o vinho incorpore e seja reduzido.
Só aí, no finalzinho, coloque sal e pimenta do reino a gosto.
Desligue o fogo, coe numa peneira e jogue sobre carnes assadas ou grelhadas.

Sugestão: Uma boa variação é refogar à parte alguns cogumelos de sua preferência cortadas em fatias em manteiga e misturá-los ao molho depois de coado.

Pronto seu vinho ganhou vida nova e uma nova chance de agradar.

Casa de Mouraz, mergulhe numa explosão da natureza do Dão em cada garrafa

No mês de junho tive a oportunidade de desvendar mais um segredo vinícola do Dão, a Casa de Mouraz, localizada em Mouraz, uma das mais antigas aldeias de Portugal, já que o país nasceu oficialmente no século XII e Mouraz existe desde o século X. Mouraz é parte do concelho de Tondela, meia hora distante de Viseu, o coração administrativo desta região. Fui recebida pelo António Lopes Ribeiro que é advogado por profissão, mas que largou o Direito para cuidar de uma editora em Lisboa e lá conheceu a Sara Dionísio com quem criou 2 parcerias: a da vida pessoal e a de adotar técnicas pioneiras na prática de agricultura biológica nas vinhas que pertencem à sua família há muitas gerações. Se você der uma olhadinha aí embaixo, vai ficar na cara porque.

Seja Bem-vindo!

Seja Bem-vindo!

A Casa é sua.

A Casa é sua.

 

 

 

 

 

Desde que começaram a cuidar das terras da família na década de 90, António e Sara decidiram mudar a maneira como as vinhas eram tratadas.  Munidos de dedicação, paciência e persistência que só os visionários possuem, trabalharam árduos 3 anos somente para a conversão da agricultura tradicional para a orgânica. Isso acontece porque com a utilização de químicos sintéticos, não se cura a origem da doença, apenas a controlamos, enquanto isso a terra enfraquece e “vicia” nestas substâncias, afetando seu sistema imunológico e perdendo sua energia natural. Aí toca estimular e esperar a natureza. Não sou médica, mas acredito que isso ocorra também conosco e com o uso continuo de certas medicações. Mas vamos juntos descobrindo mais sobre o assunto. Não esqueça que já abordamos o tema em Tudo o que Você Precisa Saber sobre Vinhos Orgânicos e Biodinâmicos

Alho selvagem, essencial para o equilíbrio da flora. Protege a vinha!

Alho selvagem, essencial para o equilíbrio da flora. Protege a vinha!

Os frutos desta dedicação não demoraram a aparecer e em 1996 a vinícola foi certificada pela Ecocert. As adubações dos solos são feitas com base em sementeiras de plantas, especialmente as leguminosas que fixam o azoto e adubos orgânicos. Os tratamentos baseiam-se na utilização de cobre, enxofre, algas marinhas, argila, infusões de plantas e outros produtos naturais. No final de 2006 iniciou-se também o trabalho em biodinâmica.

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A forração vegetal entre fileiras de vinhas tem o seu papel.

Repare que não há combate a "ervas daninhas".

Repare que não há combate a “ervas daninhas”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A propriedade da Casa de Mouraz, na verdade não é uma só, ela é composta por várias vinhas separadas, como uma linda colcha de retalhos de diferentes solos, altitudes e vegetação. Algumas vinhas velhas com mais de 80 anos e outras vinhas recém-plantadas dividem a paisagem com a floresta de pinheiros, carvalhos, castanheiros e sobreiros. Nos solos os granitos típicos do Dão e as argilas variam em altitudes entre os 140 e 400 metros. Na adega as vinificações são feitas do modo tradicional português, por vinhas e não por castas, com o objetivo de manter-se fiel à essência de cada terroir.

Penedos e pinheiros. Estamos no Dão!

Penedos e pinheiros.

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Estamos no Dão!

 

 

 

 

 

Esta é uma das bandeiras de António & Sara: a biodiversidade. Em sua colcha de solos, micro-climas e vegetação, eles cultivam castas como a tradicional Touriga Nacional, Alfrocheiro, Jaen, Água-Santa, Baga, Tinta-Roriz,  Malvasia-Fina, Bical, Cerceal-Branco e Encruzado. E como Portugal tem mais de 250 castas autóctones, todas ainda utilizadas e eu adoro brincar de bingo de castas, pelos vinhedos de Mouraz eu aprendi mais 2:

  1. Alvadurão também conhecida como Siria e;
  2. Esgana Cão também conhecida como Uva Cão;
  3. A elegante Touriga é conhecida como Tourigo na região entre as cidades de Mortágua e de Tondela e durante muitas décadas foi improdutiva por não se adaptar ao mercado. Hoje é a queridinha de Portugal. O mundo dá voltas até para as uvas, né?!
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A biodiversidade é tanta que até lagostim na piscina de água absolutamente pura, aparece para uma visitinha.

E a diversidade reflete-se na personalidade, complexidade e carácter único dos vinhos por eles produzidos. Esquece esta história de vinho orgânico com gosto esquisito. Aqui a pureza da natureza traz aromas e sabores elegantemente engarrafados para você. O respeito à natureza é uma convicção!

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Este é o António e o carinho que ele tem com seu vinhedo.

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Olha essa belezinha antiga ornada de beleza e frutos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 2009 a Casa de Mouraz passou a ser a única vinícola portuguesa a integrar o prestigiado grupo de produtores biodinâmicos La Renaissance dês Appellations, também conhecido, em inglês como Return to Terroir. Um grupo que propõe um sistema de avaliação que não está baseado em termos de “bio ” ou  “não bio”, mas em ações que permitem que uma denominação de origem se expresse naturalmente. Assim, com cada grupo de ação adotado, pode-se ir de 1 a 3 estrelas “verdes”,  o que incentiva o produtor a fazer o seu melhor e informa o consumidor sobre o que foi ou não efeito no vinhedo ou e adega.

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Agora me diga, esta é uma planta saudável ou não?

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Já pensou se tudo o que comêssemos fosse saudável e absolutamente natural assim?

Hoje, encontramos os vinhos da Casa de Mouraz não só em Portugal, mas em mais 18 países como Inglaterra, Alemanha, Brasil, EUA e até nas feras da produção de vinhos França e Espanha.

Banquinho estratégico perto das vinhas e do rio que banha a propriedade. Propício para um momento com a natureza.

Banquinho estratégico perto das vinhas e do rio que banha a propriedade. Propício para um momento a sós com a natureza.

Não é a toa que em 2014, a Casa de Mouraz foi eleita 1 das 12 vinícolas nas quais ficar de olho pela revista americana Wine & Spirits 12 Wineries to Watch.

E como sempre, depois do nosso papo, vamos aos vinhos.

Um tanto inquieto, o António decidiu que após o pioneirismo em sua terra Natal, ele devia se aventurar pelos tradicionalíssimos Douro & Alentejo e pela região do Minho para fazer vinho verde orgânico.

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Os vinhos do Douro e Alentejo.

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A linha Caruma, também do Dão.

 

 

 

 

 

  • Air

Um Loureiro (80%) com toques de Arinto (10%) e Trajadura (10%), fermentação natural a temperaturas muito baixas.  Nesta mini vertical, degustei as safras de 2014, 2013 e 2011.

O 2014 mostrou-se leve, com um pouco de açúcar residual e muito frescor;

Já o 2013 é mais untuoso e menos ácido.

O 2011 era logicamente mais evoluído, com deliciosos aromas de mel e boca com notas peroladas. Ainda mais untuoso que o 2013.

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  • Casa de Mouraz 2013

Um floral delicado com notas de flor de laranjeira. É um incrível corte de 9 castas. No rótulo porque na garrafa são 15, mas onde todas se unem para um  delicioso frescor frutado e muito equilibrado.

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  • Casa de Mouraz 2012

Também um incrível corte das mesmas 15 castas, mas se mostrou mais cítrico e fresco.

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  • Casa de Mouraz Encruzado 2013

Novamente me impactou o frescor que aliás é uma característica deste produtor, fruto da altitude do terroir. Vinho muito gastronómico, untuoso e mineral.

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  • Casa de Mouraz Rosé 2014

Ao contrário dos tradicionais claretes produzidos com 85% de uva tinta e 15% de uva branca este Rosé leva só castas tintas e é produzido através de sangria, conferindo-lhe personalidade, um bom corpo, acidez importante com notas de morangos e cerejas delicadas. Amei de paixão.

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  • Casa de Mouraz 2010

Um fantástico corte de castas: Touriga-Nacional, Tinta-Roriz, Alfrocheiro, Jaen, Água-Santa, Tinta-Pinheira e Baga.  Vindas de parcelas com características diferentes. Manja? Não? Então prova. 15% passa em carvalho francês por 8 meses.

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  • Casa de Mouraz Elfa 2010

Museu  a céu aberto. Vinha velha, castas misturadas como manda a boa tradição. 30 castas como Baga, Jaen, Tinta-Pinheira, Alvarelhão, Alfrocheiro e muitas outras, com excepção de Touriga-Nacional (quase inexistente nesta vinha). Milagre!. Tudo vinificado junto misturado. Vinho autêntico e elegante. Sem barrica, faz um estágio de 2 anos em cuba de inox. Harmoniza com fungi.

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  • Casa Mouraz Private Selection 2011

Touriga-Nacional (70%) e castas misturadas de uma vinha velha, como Jaen, Baga, Água Santa, Alfrocheiro, Trincadeira e outras (30%). A fermentação sem engaço decorreu em inox, seguindo-se uma maceração longa. 50% do vinho estagiou em barricas de carvalho francês durante cerca de 1 ano. Presença nacional de Touriga Nacional.

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Lembrando sempre que este blog é independente, deixo vocês com 5 convites:

  1. Visite Tondela que é uma cidade muito fofa no pé da majestosa Serra do Caramulo.DSC00901
  2. Estando lá compre uma bonita Bilha do Segredo e aproveite para tirar um barato de seus amigos, como se pode ver no vídeo.
  3. Conheça a Casa de Mouraz que além de interessante é um terroir deslumbrante.
    Ciclovia que acompanha os vinhedos.

    Ciclovia que acompanha os vinhedos.

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  4. Enquanto estiver por Tondela, não deixe de visitar o Restaurante 3 Pipos. Comida típica portuguesa de comer de joelhos. Chegue apostando nos bolinhos de bacalhau ou nas moelas e depois sofra para decidir-se entre polvo frito com migas ou o cabrito. Ou peça tudo, se acabe de tanto comer e peque pela gula.

 

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Polvo frito com migas.

Moelas.

Moelas.

Cabrito.

Cabrito.

 

 

Aqui no Brasil, a Casa de Mouraz é representada pela Azavini e importada/distribuída pela Vinhos do Mundo. Entre em contato e pergunte pelo seu.

Ahhhh, em São Paulo, você pode provar o seu Casa de Mouraz na Enoteca Saint Vin Saint, especializada em vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais.

Saiba bem as regras de harmonização. Só para quebrar todas elas!

A palavra sommelier é oriunda da Idade Média, vem da língua francesa e se referia ao encarregado do transporte de suprimentos por animais de carga.

Hoje, este cara cuja profissão tem nome difícil, normalmente trabalha em restaurantes “finos” e se especializa em todos os aspectos do serviço do vinho, bem como na harmonização dos vinhos ofertados com a comida do estabelecimento.  Sendo assim, este profissional segue usualmente algumas regras de harmonização bastante manjadas. É o bom e velho peixe e frango com vinho branco e carne com vinho tinto.

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Um dos sommeliers no evento da Gault et Millau.

Agora, o pessoal fera da Gault et Millau, uma revista especializada em gastronomia, restaurantes, bares, vinhos e outras delícias, todas francesas, dedicou seu espaço na Vinexpo para propor harmonizações incomuns e bastante impactantes. Não preciso nem dizer que a somatória de chefs renomados, comida deliciosa e o maior evento de vinhos do mundo foi sucesso garantido. As sessões estavam sempre lotadas, mas eu consegui assistir a 2 apresentações.

http://www.gaultmillau.fr

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Estrutura bacana para este evento inovador.

Uma foi a do Chef Jean-Luc Rocha que trabalha no restaurante do Château Cordeillan-Bages, um hotel e restaurante cravado no coração de Bordeaux, membro do Relais & Châteaux, localizado em Paullilac, mais precisamente.

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http://www.jmcazes.com/en/chateau-cordeillan-bages

O sommelier neste caso escolheu 2 vinhos. 2 Chateneuf du Pape muito típicos, com madeira, frutas, especiarias, geléia e aquele componente animal que faz a alegria de muita gente.

Os 2 eram belíssimos exemplares do Domaine des Sénéchaux, que apesar de ser uma propriedade no Rhône, pertence ao mesmo grupo dono do Château. O detalhe interessante estava na safra: um 2007 e um 2011. A 2007 é considerada uma safra perfeita devido ao stress hídrico e a excelente concentração de aromas e sabores devidas a ela. Já o 2011 com muita presença aromática se apresentou jovem demais.

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Agora pasme. A sugestão do chef Jean-Luc Rocha para harmonizar com estes 2 vinhos foi um…. ravioli de camarão pistola. Exatamente. Camarão com vinho tinto. O prato está aí: um ravioli gigante, recheado com a carne de camarão, acompanhado pelo bichinho apenas cozido e por um tempurá de folhas de parreira (juro, é uma delícia) e banhado por um molho escuro, encorpado, que casou perfeitamente com o vinho.

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O prato foi um show e ficou melhor com a safra 2007, aliás porque o vinho em si estava mais “pronto”, mais equilibrado.

O legal destes desafios é que eles vão além das cores (brancos vs. vermelhos) e das regras tradicionais que muita gente, inclusive profissionais, segue porque são as mais conhecidas e também as mais seguras. Eles exploram a essência da harmonização, ou seja, a filosofia que o vinho e a comida só se complementam e completam absolutamente quando um realça outro, sem se sobreporem. Desta maneira, levamos em consideração a intensidade do prato: comidas gordurosas e substanciosas combinam com vinhos robustos, pratos menos robustos combinam com vinhos meio encorpados e comidas leves, com vinhos leves. E isso vai muito além do tipo de proteína. Depende de temperos, acompanhamentos e especialmente de molhos.

A outra performance foi a da chef Beatriz Gonzalez, uma mexicana radicada em Paris há 15 anos, hoje dona do restaurante Neva e considerada uma estrela em ascensão por lá, tarefa nada fácil no cravejado céu gastronômico de Paris.

Os vinhos escolhidos foram o Gran Ababol, um espanhol longo, 100% verdejo, muito complexo, cujos 20 meses de envelhecimento em madeira dão notas de especiarias às flores e frutas. O outro, um Les Anthenors Clairette de Jean-Luc Colombo, um francês da Provença muito jovem, mineral e frutado com uma breve passagem em madeira (9 meses).

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O contraponto entre 2 brancos: um espanhol com quase 2 anos de madeira e um jovem francês.

O prato da chef Beatriz consistia num pequeno festim de inspiração mexicana: lingueirões servidos com toques profundos de acidez nos molhos, o contraponto do doce do tomate e da manga mais alguns toques de picância no vinagrete.

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Neste caso, a complexidade do verdejo envelhecido foi demais para este prato com uma vibrante profusão de sabores agudos. Eram como 2 músicas lindas tocadas por exímias orquestras ao mesmo tempo, uma ao lado da outra, no volume máximo. Não rolou. O branco mais leve e frutado com seu delicado toque de madeira combinou perfeitamente com a acidez e a pimenta. Levantou o prato, o realçou….

Achei este exercício muito legal. E recomendo! Pode parecer complicado à primeira vista, mas use a criatividade, a experiência que você vai adquirindo com os diferentes vinhos que degusta e desfrute com seus pratos preferidos. E principalmente, não tenha medo. Não existem erros, só aprendizados. O que você acha de se surpreender com a harmonização de sabores distintos?

Conta para nós!

Vinexpo vs. Expovinis – só pondo o dedo na ferida ela pode sarar.

Este ano tive a oportunidade de participar de 2 importantes eventos do vinho, um bem próximo ao outro e a comparação foi inevitável.

A proposta das duas feiras é exatamente a mesma: criar oportunidades de descobrir novos produtos, expandir portfolios, fazer negócios, discutir tendências de mercado e proporcionar networking. E fazem isso de maneiras distintas, pois têm algumas diferenças importantes:

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Destes dados já se apreende que a Expovinis é uma feira menor, mais jovem e realizada num país em desenvolvimento com cultura de vinho ainda em formação enquanto a Vinexpo já está bastante consolidada num dos berços mundiais do vinho localizados numa grande potência européia.

Essas são diferenças que a gente tem que respeitar, então eu nem vou entrar no mérito de qualidade de transporte público entre as duas cidades, qualidade das instalações entre os dois ambientes de exposição (banheiros,  como exemplo) e acesso a internet, só para começar, pois isto implica em responsabilidade pública sobre as quais temos nenhuma ou muito pouca influência. Vamos propor uma reflexão sobre o que nós como comunidade de profissionais do vinho podemos fazer para melhorar a Expovinis, pois vejo a cada ano um número crescente de pessoas insatisfeitas com a mesma, enquanto a feira encolhe tristemente.

Podemos começar por exemplo falando de gastronomia. Os profissionais do vinho sabem que a grande maioria dos vinhos é feita para se consumir com comida. Não só pelas características organolépticas do vinho, mas também pelo risco que pode apresentar à saúde, o hábito do consumo de álcool a qualquer momento do dia em qualquer quantidade. Os sommeliers são incentivados a buscar constantemente harmonizações para os vinhos que degustam e seu trabalho é basicamente propor vinhos que combinem com os pratos escolhidos por seus clientes.

A Expovinis tem 4 pontos de venda de comida na feira toda. Detalhe que a feira começa exatamente às 13, horário da refeição mais importante dos brasileiros: o almoço. Creia-me a relação qualidade-preço dos 4 pontos de venda é de chorar. Vai de coxinha de lanchonete de rodoviária a pizza de cadeia internacional pingando óleo.

A Vinexpo oferece quase 50 restaurantes e food trucks. De ostras a hamburguer, sushi, comida basca, thai e claro, francesa. Tem comida para todo lado, de todo tipo e de todo preço. E todo mundo oferece vinho a copo ao preço de refrigerante.

Área de alimentação conta com restaurantes e food trucks.
Área de alimentação conta com restaurantes e food trucks.

Será que podemos ampliar a oferta de alimentação? Trazer foodtrucks que estão tão na moda para participar do evento? Que adotem os vinhos do evento e harmonizem com seus cardápios para enriquecer a experiência. A Expo Center Norte não permite? Então não é o lugar certo para esta feira. Por mais esta razão.

Será que as grandes companhias de alimentos não estão dispostas a patrocinar aulas de harmonização atrevidas em cook shows ao vivo para chamar a atenção da importância da comida para o vinho, a exemplo do que fez a Gault-Millaut com sucesso estrondoso na Vinexpo? Isso também chama a atenção da importância do profissional de vinho para a área de restauração e valoriza a imagem do mesmo.

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Aula de harmonização com cook show.

Beber vinho é muito legal, mas para aprender mesmo, como profissionais, temos que estudar regiões produtoras e seus produtores, entender condições, propostas e conceitos. Só balançar copinho e despachar aromas e sabores não é tudo para quem realmente trabalha com o tema. Por isso, é importante um ciclo de palestras pertinentes à complementação profissional do sommelier brasileiro, seja o de restaurante, o consultor de vinhos em loja ou importadora.

Durante a Expovinis, a grande maioria das palestras foi proposta pela ViniPortugal, em uma iniciativa única e louvável, mas ainda assim pequena.

Onde estavam Chile e Argentina? Os 2 maiores exportadores de vinho para ao Brasil. Recebem isenções de impostos e contribuem como ao crescimento do vinho no Brasil? Será que a Wines of Argentina & a Wines of Chile poderiam manifestar seu interesse no mercado brasileiro com uma presença maior: aulas sobre seus terroirs e degustações guiadas de seus produtores?

E a Vinhos do Brasil? Não seria uma boa oportunidade de apresentar regiões novas e consolidar as tradicionais para os profissionais? Propor degustações guiadas com profissionais reconhecidos?

As salas de treinamento sempre pequenas, apertadas, mal aparelhadas e desconfortáveis não podem ser melhoradas? Está claro que não são suficiente. A improvisação não funciona. A fila de pessoas frustradas na porta porque não conseguiram participar de palestras e workshops e a existência de debates pouco ou não divulgados denuncia a área de melhoria e a necessidade do público.

Salas amplas para acolher os muito interessados e bem equipadas com som e visual.
Salas amplas para acolher os muitos interessados e bem equipadas com som e visual.

O último ponto ao qual convido um reflexão é nosso postura como profissionais. Existe uma diferença muito grande entre um sommelier fora e no Brasil. A responsabilidade é sempre a mesma, zelar por uma seleção adequada (que harmonize com o cardápio, com o conceito da casa, variada, equilibrada e sobretudo rentável) de vinhos para uma loja ou restaurante.

O problema está na valorização da profissão. Lá fora um profissional em início de carreira ganha cerca de USD 4,000 por mês, aqui cerca de USD 400. Obviamente o impacto disto na formação é enorme. Fora do Brasil um curso de formação tem mais de 300 horas. Aqui é a metade disso ou menos. E a profissão tem uma formação cara: é estudar muito, viajar, ler e beber. Parece divertido, e é. Mas requer empenho, disciplina e investimento tanto quanto qualquer outra profissão ou até mais.

Credito a esta falta de valorização uma postura que beira ocasionalmente a falta de profissionalismo. Testemunhei várias cenas lamentáveis na Expovinis de pessoas alteradas, bêbadas ou simplesmente passando mal publicamente. Na Vinexpo não vi absolutamente nada. E há uma pequena diferença: lá há vários pontos de degustação livre. Você pega  sua taça, se serve do vinho que quiser. Os dados do produtor constam da ficha técnica, incluindo o stand dele e você pode consultá-lo posteriormente caso haja interesse. As cuspideiras estavam lá por toda parte e eram amplamente utilizadas. Havia também higienizadores de copos disponíveis em locais estratégicos. Não tem que lavar a tacinha no banheiro.

Degustação livre de rosés.
Degustação livre de rosés.
Degustação livre de rosés com enomatic.
Degustação livre de rosés com enomatic.

Voltando ao poder aquisitivo do sommelier brasileiro e o custo e necessidade de formação, tenho que dizer que a Vinexpo custa zero para os profissionais da área. Nada mesmo. A Expovinis em teoria não custa nada, até que você entra e te pedem R$ 50 pela taça. Se não, não dá para degustar a não ser em circunstâncias especiais como palestras, degustações orientadas, todas aqueles que estão sempre lotadas, lembra?

Estas três áreas de oportunidade podem impulsionar o ponto crítico da Expovinis que é abrir mais frentes para concretização de negócios, reclamação frequente entre todos os que deixaram de frequentar a feira, seja como expositor, seja como visitante.  Na Vinexpo, a gastronomia, as palestras e a correta postura profissional ocupam os que querem aprender e liberam o expositor para tratar com aqueles que realmente querem comprar seu produto. Ele não fica enrolado num pequeno stand cercado por dezenas de pessoas com copos estendidos aos quais não terá oportunidade nem de explicar seu terroir, método, conceito e produto, menos ainda de negociar. O clima é totalmente distinto.

Ambiente de negócio.
Ambiente de negócio.

Essa foi a marca principal: deu para perceber o vinho como negócio, com profissionalismo, aberto, franco e participativo. O vinho no Brasil precisa se abrir, ser discutido ser conversado. A elite que domina o setor hoje tem que reconhecer que o modelão atual não tem funcionado. A economia fechada do Brasil nunca vai correr a favor do mercado do vinho que embarcou faz tempo no mesmo formato, com grande atraso em seu  desenvolvimento. Tá aí os eternos 2 litros per capita de consumo que não me deixam mentir enquanto outros países crescem de 20% a 30% nos últimos anos. Há que existir um ar de negócio sério para mudar o estado de estagnação atual.

A empresa que promove a Expovinis é francesa, improvável que ignore tudo o que está descrito aqui. Provavelmente maiores e melhores que eu já tentaram coisas diferentes para mudar esta situação. Porém a idéia deste post é ser mais uma voz, mais idéias, mais vontade, pois só com uma mobilização é que se vai trazer a mudança desejada. Concorda? Ou não? Este espaço é democrático e está sempre aberto.

E vem mais post por aí.

Vinexpo – 4 coisas que aprendi e muitas dicas para você!

Este ano, a minha agenda coincidiu de eu estar na Europa justamente na data (de 14 a 18 de junho) da realização da Vinexpo, a maior feira de vinhos do mundo.

Depois de algumas contas (a França é cara e os preços de tudo nestas épocas de eventos sobem em qualquer canto do mundo) e reflexão, afinal, é uma oportunidade única, resolvi ir para Bordeaux, a cidade que respira e transpira vinho há séculos e ver para crer. Cliquei direto numa companhia aérea low cost (maravilhas que por aqui não existem) e comprei uma passagem por € 60. Isso mesmo, Porto a Bordeaux, ou seja 1.000 km, por este preço. Mais ou menos a distância entre São Paulo e Brasília.

Metrô em Bordeaux.

Metrô em Bordeaux.

Do aeroporto, fui direto para o hotel que honestamente, era muito, muito simples, e que a € 63 me pareceu caríssimo. Mas era o que deu para pagar e encontrar. Localizado em Pessac, significava 1 hora e meia de viagem até o Parc de Expositions de Bordeaux, do outro lado da cidade de Bordeaux. Mas o sistema de transporte público é fantástico: limpo, rápido, moderno, simples de entender e pontual.

No dia seguinte, pulei cedo da cama e tomei rumo ao Parc de Expositions. Chegando lá, a primeira sensação é de deslumbramento com o conjunto de prédios, a beleza do lago, o brilho das tendas e o colorido das flores.

Vista do lago e da feira. O lado esquerdo. O lado direito da ponte tem outro tanto...

Vista do lago e da feira. O lado esquerdo. O lado direito da ponte tem outro tanto…

Os países participantes.

Os países participantes.

Edificío de entrada.

Edificío de entrada.

Lista de expositores.

Lista de expositores.

Mapa da feira.

Mapa da feira.

A proposta da Vinexpo é a de qualquer feira: criar oportunidades de descobrir novos produtos, expandir portfolios, fazer negócios, discutir tendências de mercado e proporcionar networking. Nada disso é novidade. A novidade está na excelência em fazê-lo. E esta foi a primeira coisa que me dei conta ao ver uma feira de vinhos de verdade.

O maior pau de selfie que você já viu? Não, checagem de segurança.

O maior pau de selfie que você já viu? Não, checagem de segurança.

Cuspideira ostentação.

Cuspideira ostentação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os números já impressionam: são 2.350 expositores de 42 países e 48.000 visitantes de 120 países percorrendo corredores e mais corredores (haja sola de sapato e fôlego. É uma maratona.) recheados de vinhos, destilados, gastronomia e até uma livraria, fantástica diga-se de passagem, dedicada ao tema.

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A livraria e suas mil tentações.

A gastronomia estava presente nos quase 50 restaurantes e food trucks instalados por lá: Nos trucks se podia saborear uma porção de ostras a € 6 ou um hamburguer gourmet (realmente top) a € 12. Tinha também comida thai e outros sandubas, nesta faixa de preço. Já os menus nos restaurantes iam de € 30 a … € 130 e a comida era a mais variada possível, desde californiana, passando por oriental e basca até, óbvio, a clássica francesa. Agora a fofoca. Se você é como eu, vai comprar ou trazer um sanduba e comer na beira do lago, se você é nível A, vai para um dos restaurantes atopetados de gente, se você é A+ vai almoçar num dos stands com convite VIP, mas se você é A+*, vão te buscar de helicóptero para te levar a um chateau para um almoço inesquecível. Mas tem comida para todo lado, de todo tipo e de todo preço. Comida e vinho. A segunda lição que parece pueril, mas que a gente às vezes não dá a devida importância.

Vamos almoçar lá no meu chateau?

Vamos almoçar lá no meu chateaux?

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Almoço na beira do lago mesmo.

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O cook show acompanhado de harmonizações desafiadoras proposta pela Gault-Millau.

Os vinhos, nem sei por onde começar. A América do Sul bem correspondida por lindos stands de potências do mundo do vinho como Argentina e Chile, mas também por Brasil e Uruguai. Os Estados Unidos levaram seus vinhos através da Wines of California que nunca nos brindou com sua presença por estas bandas. E a Europa massivamente representada por Portugal, Espanha, Itália, Alemanha e com certeza França em todo seu esplendor. Mas também tinha África do Sul, Marrocos, China, Tunísia, Líbano e Georgia. E digo outra: muitas das degustações lá são livres; você entra num espaço do stand, pega sua taça e se serve de vinhos a vontade. Há também higienizadores de copos. Além disso havia 3 espaços livres de degustação: vinhos rosés, espumantes e doces. As cuspideiras estavam lá por toda parte para evitar excessos. Eu não vi nenhum. Nada. Zero. Na hora do almoço, via muita gente bebendo vinho e para ser honesta, depois das 17 (a feira fecha as 18:30) o ruído estava mais alto, a risada mais solta e a galera mais animadinha. Sintomas de ….vinho! Terceira lição: o comportamento profissional não impede o desfrutar da bebida, basta saber quando e como. Será que nós sabemos?

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Brasil

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Argentina

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Chile

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Califórnia

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Portugal

Itália

Itália

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Espanha

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Alemanha

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Líbano

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Croácia

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Grécia

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Georgia

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Um dos exemplos de degustação livre, enomatic e todos os dados do vinho.

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Outra maneira, vinhos de uma país, taças disponíveis e as garrafas com os dados dos produtores caso você queira mais detalhes.

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Higienizador de taças a todos vapor.

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Degustação livre de rosés da Provence. Um show a parte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas o mais legal mesmo é o amplo espaço de debates, quase 100 palestras no total dedicadas a tendências, tipos de vinhos, países e até vinho e artes (música, pintura e arquitetura). Quase tudo tem tradução simultânea com aparelhos modernos nas amplas e confortáveis salas de aula. Na esmagadora maioria dos casos a entrada é livre e mesmo sem agendar, eu consegui entrar em todas as que queria. O único problema é escolher entre duas que ocorrem simultaneamente. E a quarta lição: vinho não é só bebericar. É estudar países, terroir, produtores, consumidores e tendências. Balançar copinho e despachar aromas e sabores não é tudo para quem realmente trabalha com o tema.

O centro de palestras, workshops e debates.

O centro de palestras, workshops e debates.

Dentro destes debates, foram discutidos alguns fato relevantes:

  • 2014 foi um ano marcado por otimismo cauteloso e tendências de mercado desbaratadas.
  • A mais recente pesquisa da IWSR / Vinexpo anotou um crescimento no consumo global de vinho de 2,7% entre 2009 e 2013. Para o período de 2014 a 2018 o estudo prevê uma aceleração do crescimento global. Em 2018 o consumo global o consumo global está estimado em 32,78 bilhões de garrafas.
  • Para os destilados o desafio para os próximo anos vai ser muito importante. O consumo global alcançou 3.069 milhões de caixas de garrafa de 9 litros em 2013 com um crescimento de 19,1% comparado a 2009. Entre 2014 e 2018 espera-se que o consumo cresça novamente, mas de maneira mais lenta, a 3%.
  • Países com altas taxas de crescimento incluem os EUA, então não foi coincidência que este país tenha sido a nação convidada de honra na Vinexpo. Muitas conferência e degustações foram dedicadas aos EUA, cujo consumo de vinho cresceu 23,3 % entre 2009 e 2013, acompanhado pelo aumento na exigência de qualidade. Estima-se que cresçam 11% entre 2014 – 2018.

Assim se sabe quem o convidado de honra.

Assim se sabe quem é o convidado de honra.

A gente percebe aqui o vinho como negócio, com profissionalismo, aberto, franco e participativo. Não vi ninguém do Brasil por lá a não ser um crítico especializado que não se comunica por mídias sociais e uma equipe de um site de venda de vinhos. Também não vi um comentário de ninguém sobre o evento. Parece que não existe.

Na minha opinião, é uma experiência única, e recomendo que se você tiver a oportunidade, visite a feira alguma vez na vida. Vale muito a pena.

Essa procurando distribuidor....

E esta procurando distribuidor….

Momento descontração. Feira cansa....

Momento descontração. Feira cansa….

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E vem mais post por aí com mais detalhes de tudo que eu aprendi. Espero que as dicas acima ajudem você a entender a feira e a se planejar se quiser dar uma volta por lá. A Vinexpo 2016 vai ser em Hong Kong. Prova de quem é o segundo maior influenciador neste negócio, após os americanos: os chineses.

Os chineses vem pra negócio.

Os chineses vêm pra negócio.

Ahhh, quase me esqueci de dizer que a Vinexpo é INTEIRAMENTE GRÁTIS para profissionais: € 0.

Números: Vinexpo Daily (o jornalzinho diário da feira) de 15.06.2015