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Receita de Canelé Bordelais. E sim, tem tudo a ver com vinho.

Este docinho simples e simpático, típico da região vinhateira de Bordeaux, na França, seduz há séculos. Um pouquinho de história e a receita desta delícia estão bem aqui!

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A associação da canelé com o vinho é simples: os produtores de vinho adicionam claras de ovo ao mosto do vinho, num processo conhecido como clarificação, que retira o excesso de sedimentos do vinho e deixa-o mais suave. Há alternativas modernas ao processo, porém, as claras de ovos ainda são usadas por muitas vinícolas de pequeno porte.

Historicamente, as gemas de ovo oriundas deste processo viraram doces encantadores pelo mundo, e na França, mais especificamente em Bordeaux, foram utilizados para criar os primeiros canelés. Se você estiver em Bordeaux, as canelés são muito fáceis de achar e segundo o povo de lá mesmo, as da Baillardran são as melhores. Se não for o caso, segue a receita.

Nossa receita exige bem poucos ingredientes e eu acho até bem simples de fazer, para tanto sabor. Rende de 12 a 16 porções, dependendo do tamanho da sua forma.

2  detalhes importantes:
. As canelés devem ser preparadas de véspera.
. Deve-se usar a forma própria. Além da questão estética, eu notei que as que eu preparei nas formas de cupcake, ficaram parecidas com queijadinhas, murcharam mais e ficaram mais torradas e secas. A forma tradicional é de cobre, quase impossível de achar até na França. A minha, eu trouxe de lá, mas é de silicone. Ótima. Por aqui, eu já vi em boas casas do ramo.

Ingredientes:
. 1/2 litro de leite
. 2 ovos inteiros
. mais 2 gemas de ovo batidas
. 1/2 fava de baunilha ou 1/2 colher de chá de extrato de baunilha
. 3 colheres de sopa de rum
. 1 xícara de farinha de trigo
. 1 xícara de açúcar mascavo
. 2 colheres de sopa de manteiga
. Manteiga para untar a forma
. Açúcar branco para polvilhar a forma

Instruções:
No dia anterior:
. Ferva o leite com a baunilha e a manteiga. Retire o fogo, deixe esfriar só um pouco.
. À parte, misture a farinha com o açúcar, em seguida, adicione os ovos e as gemas de ovo à essa mistura.
. Depois, despeje esta mistura no leite morno.
. Misture tudo suavemente para obter uma mistura fluída e suave, tipo massa de panqueca. E se achar que errou: não, não errou, a massa fica quase líquida.
. Deixe esfriar e adicione o rum. Pode não usar rum? Pode, mas não é igual e não esqueça que o álcool evapora no forno.
. Leve à geladeira por 24 horas a 48 horas no máximo, a fim de hidratar bem a farinha de trigo.
Para assar as canelés:
. Pré-aqueça o forno a 250ºC.
. Unte a forma própria com manteiga e, em seguida, polvilhe com um pouco de açúcar.
. Despeje a massa apenas até estarem 3/4 cheios – NÃO mais. Parece inacreditável, mas elas crescem no forno e se você encher demais vai ser um rolo.
. Apoie a forma de silicone numa assadeira, e leve ao forno em temperatura alta por 5 minutos, em seguida, baixe a temperatura para 175ºC e continue a cozinhar por 1 hora mais ou menos.
. Os canelés estarão prontos quando sua adorável e quase crocante cobertura estiverem com uma leve crosta marrom, e eles ainda estiverem úmidos, quase como um pudim, por dentro, mas sem soltar sedimentos quando espetados com palito.
. Desenforme com cuidado enquanto ainda mornos.

As minhas ficaram ótimas em relação ao sabor e textura, mas preciso fazê-las mais uniformes, pois as cores estavam muito diferentes e entender também porque murcharam tanto. Diz a lenda que é porque não usei ovos frescos. Onde achar ovos frescos em São Paulo é que é o desafio…

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Você pode servir as canelés com chá ou café, ou desfrutá-las numa versão mais ousada, com vinho do Porto ou conhaque. Aliás é ótima para servir em festas, você prepara na véspera e só põe no forno na hora que for adequada. Bon appetit!

Vamos soprar as velhinhas, o Julgamento de Paris faz 40 anos e comemora em grande estilo.

Em 24 de maio de 1976, o mundo do vinho virou de ponta cabeça quando o Chardonnay 1973 do então desconhecido Chateau Montelena localizado no Napa Valley triunfou sobre vinhos da Borgonha e o Cabernet Sauvignon S.L.V. também 1973 da não menos desconhecida Stag’s Leap Wine Cellars superou os Bordeaux num julgamento em Paris realizado pela nata dos críticos especializados franceses.

Foto: internet.
Foto: internet.

Este ano comemora-se o 40º aniversário do hoje mundialmente famoso  Julgamento de Paris e o Napa Valley está em festa. O Chateau Montelena realizará um Open House em Calistoga no dia 24.05 com um painel de discussão das 13:30 – 14:30, porém das 9h30 às 16:00 haverá a degustação do Chardonnay 2013 e paira no ar a promessa de que pode haver algo mais saindo das antigas caves como surpresa para os visitantes.

Nunca escutou falar desta história? Então veja o filme que é legalzinho e traz o já saudoso Alan Rickmann.
Nunca escutou falar desta história? Então veja o filme que é legalzinho e traz o já saudoso Alan Rickmann.

Mas se você não aguenta esperar até maio, aproveite o festival de gastronomia local, eventos em vinícolas e as experiências únicas que só mesmo os americanos do Napa Valley sabem criar para este polo enoturístico de proporções continentais.

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Foto: internet.

De 16 a 20 de março serão 5 dias com 40 eventos num único festival que vai ficar na história e cujos lucros serão investidos em uma das melhores escolas de culinária do mundo, o  The Culinary Institute of America,

A idéia também é brindar o 40º aniversário do lendário 1976 Julgamento de Paris, e para isso juntou-se um time de estrelas como as vinícolas Chateau Montelena,  Stag’s Leap Wine Cellars, Spring Mountain Vineyard, Clos du Val Winery, chefs talentosos e os Master Sommeliers, Andrea Immer Robinson e Gilles de Chambure.

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Algumas dicas: mesmo que você se mova rápido para providenciar sua reserva para março, prepare-se para o frio, pois ainda é bem gelado por lá. Em maio o tempo é maravilhoso e o seu orçamento vai subir também de maneira esplendorosa. Quer um meio termo? Vem com a gente em Abril. Não é tão frio e os preços ainda estão acessíveis.

O orçamento está curto? Dá um pulo lá na SmartBuyWines e garante o seu que este é o meu. Cheers!

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Fonte: Judgment of Paris Anniversary – Open houseFlavor Napa Valley. Crédito foto destacada: internet.

Combine uma ilha paradisíaca na costa da palpitante Riviera Francesa com a austeridade da vida monástica dos Cistercienses e conheça um vinho para lá de especial.

No terceiro e último post sobre Cannes e alguns passeios alternativos ao jet set na região, vamos falar mais um pouco mais sobre as Ilhas Lérins. No primeiro post, contamos sobre Grasse: vinhos, conquistas e perfumes. Aprendendo tudo isso com Napoleão. No segundo, também falamos sobre Lérins, mas lembre-se, este arquipélago de 4 ilhas no Mediterrâneo bem na costa da Riviera Francesa, pertinho de Cannes, é composto por 2 ilhas menores, desabitadas:

  1. Îlot Saint-Ferréol
  2. Îlot de Tradelière

E por outras 2 maiores com muitas histórias e lendas. No segundo post falamos sobre uma delas,  A Ilha de Sainte-Marguerite. Romanos, piratas e o homem da máscara de ferro no meio de uma lição sobre ânforas. E agora vamos falar sobre a outra, a Ilha de Saint-Honorat.

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A caminho da Ilha Saint-Honorat.

Saint-Honorat

A Ilha de Saint-Honorat leva o nome do fundador do Mosteiro de Lérins, datado 410, São Honorato. Honorat, natural da Gália, filho de uma família nobre, foi convertido e batizado novamente na adolescência. Atraído pelo ideal monástico, aposentou-se com seu irmão Venance em uma propriedade da família. Depois da morte do irmão, Honorat chega à ilha que hoje leva seu nome com alguns companheiros e só a deixou 20 anos depois para aceitar a sede episcopal.

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O mosteiro moderno é lindo demais.

Os séculos V e VI são chamados de “idade de ouro” de Lérins. Seus monges mais famosos tornam-se bispos de cidades importantes da França e contribuíram fortemente para a cristianização da Provença. A lenda diz que até São Patrick veio a Lérins para observar a vida monástica por alguns anos.

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Ruínas do monastério antigo.
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O antigo monastério era fortificado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um monastério fortificado foi construído entre os séculos XI e XIV, do qual hoje só restam ruínas à beira-mar. Ainda hoje vive aí uma comunidade de monges cistercienses, num mosteiro construído no século XIX.

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O novo monastério é lindo e fruto de muito trabalho da espartana vida monástica.

O transporte para a ilha leva uns 15 minutinhos em barco e você pode comprar sua passagem lá no cais de Cannes mesmo ou pelo link Navettes. Votre passeport Ile Saint-Honorat.

A dica em relação a alimentação permanece. Este é um passeio que leva quase um dia inteiro. Há 1 restaurante na ilha, além da lojinha, então vale levar lanche e bebida. Minha sugestão neste post é outro prato típico provençal, a pissaladière. Uma mistura surpreendentemente suave de cebolas caramelizadas, anchovas e azeitonas sobre uma massa de pizza crocante.

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A simplicidade da riqueza no sabor: cebolas, peixes secos e azeitonas. Os segredos do preparo.

Ora Et Labora

Mesmo que o dia de um monge gire ao redor de suas orações e todas suas atividades convirjam em direção a elas, a oração e o trabalho constituem a base da vida monástica. Quando você visita um monastério normalmente aprende sobre como os monges trabalham duro e em silêncio para sustentar não só a si como para ajudar as comunidades carentes próximas. É uma emoção a mais que o vinho e a cerveja proporcionam.

Portanto, os monges cistercienses de Saint-Honorat dividem o seu tempo entre a oração e a produção de vinho, mel, biscoitos, produtos de cuidados pessoais a base de óleo de lavanda e Lerina, um licor de ervas.

Visite a lojinha dentro do mosteiro, é uma maneira de ajudar os monges a se manterem.

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Mas se você não espera desta visita apenas conhecer o mosteiro e trazer umas lembrancinhas, não se preocupe. A ilha é um lugar excelente para se caminhar, desfrutar da natureza, tomar sol e relaxar. Porém, observe o silêncio e a discrição, aliás garanto que você vai se sentir inspirado a isto neste local que é pura paz e contemplação.

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Outra atividade disponível é fazer um retiro espiritual de até 1 semana (mínimo de 2 dias) com os monges. Eles têm quartos privativos, na base de € 50 a diária, mas você leva sua roupa de cama e banho, compartilha as refeições com eles e é esperado que ajude nas tarefas diárias do mosteiro. Detalhe: eles fazem voto de silêncio, assim não espere bater papo. O hotel fecha entre novembro e dezembro. Cheque as datas no link.

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Abbaye de Lérias

O terroir

Olha todo terroir diz que é único, mas imagina uma terra entre o azul-celeste da Baía de Cannes e as águas azul-turquesa do Mediterrâneo, rica em história, luz e oração com vinhas de 16 séculos de história.

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O solo é composto por rochas sedimentares, principalmente calcário e dolomita (que mantém o solo neutro). Na superfície, a rocha é coberta por uma espessura de 30 a 120 centímetros de argila vermelha. O clima, obviamente, é mediterrâneo: sol excepcional durante o dia e à noite o ar carregado de umidade. O sal depositado pela brisa do mar proporciona uma limpeza natural. Ao contrário da Ilha Sainte-Marguerite que dependeu da cisterna construída pelo romanos para captar água, a Ilha de Saint-Honorta conta com uma fonte natural de água doce que evita o estresse hídrico. A área de vinha são cerca de 8 hectares, localizados na parte central da ilha. As vinhas têm de 25 anos a 80 anos.

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O vinho

Existe vinho na ilha de Saint-Honorat desde a Idade Média, embora existia antes apenas para as necessidades da Eucaristia. Não foi até a década de 90 que a vinha foi reavivada profissionalmente com a descoberta de cinco micro-terroirs na ilha. O volume de produção é cerca de 40.000 garrafas.

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A pequena produção dos vinhos do Monastério podem ser encontrados no restaurante Tour l’Argent que dispensa apresentações e também foram servidos para os chefes de estado no último encontro do G20 e no júri do Festival de Cannes em 2011, 2014 e 2015.

Toda a produção tem nome de santo:

  1. Saint Césaire (Chardonnay)
  2. Saint Honorat (Syrah)
  3. Saint Cyprien (Viognier)
  4. Saint Sauveur (Syran de Vinhas Velhas)
  5. Saint-Lamber (Mourvedre)
  6. Saint Salonius (Pinot Noir)
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Eu provei o Syrah que é o mais em conta, mas maravilhoso. E você achava que vin de pays era sinal de falta de qualidade?

Mas prepare-se para ir ao purgatório ao pagar de 30 a 400 euros por uma garrafa de vinho, especialmente pelas estrelas da vinicola, o Pinot Noit e o Mourvedre.

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Esta pedra incrível foi achada assim na ilha de Saint Honorat que respira amor cristão e caridade.

Espero que tenham gostado. Voltamos logo com mais dicas de lugares e vinhos.

A Ilha de Sainte-Marguerite. Romanos, piratas e o homem da máscara de ferro no meio de uma lição sobre ânforas.

No segundo post sobre passeios alternativos para quem está em Cannes, na França, vamos falar sobre a encantadora ilha de Sainte-Marguerite.

A chegada à Ilha de Sainte Marguerite promete.
A chegada à Ilha de Sainte-Marguerite promete.

A ilha é pequena,  tem aproximadamente 3 km de comprimento (leste a oeste) e 900 m de diâmetro, ou seja, se você estiver no pique, pode percorrê-la inteira num passeio de um dia. Aliás essa é a primeira dica. Saia cedo e bem animado para ter tempo e energia para explorar tudo que a ilha oferece.

A ilha é bem sinalizada, assim pode-se caminhar com tranquilidade.
A ilha é bem sinalizada, assim pode-se caminhar com tranquilidade.

A viagem

Daí vem a segunda dica. A ilha tem um par de restaurantes e uma barraquinha que vende alimentos e bebidas, mas eu recomendo que na França, faça como os franceses. Compre seu lanche e sua bebida no continente, coloque na mochilinha e aproveite o melhor do pic-nic ao ar livre. Meu preferido é o ‘pan bagnat’. Essa delicinha é basicamente um sanduíche da tradicional salada Niçoise, ou seja, leva atum e ovo cozido. Compre em qualquer banquinha na beira da praia que deve dar tudo certo.

Pan bagnat, sanduba de salada Niçoise.

Chegar na ilha é simples. Você tem que ir até o cais de Cannes, procurar o guichê correspondente (ou mesmo por internet que é até mais barato) e comprar a sua passagem no barco que leva uns 15 minutinhos para chegar à ilha. No link você acha também os horários, mas cuidado que os horários dos barcos variam de acordo com a época do ano. Custa uns € 15 por pessoa.

Trans Côte d’Azur

O passeio de barco é maravilhoso.
O passeio de barco é maravilhoso.

Os primeiros habitantes

Dona de uma natureza exuberante que os franceses exploram cuidadosamente através de caminhadas e esportes aquáticos como esqui e parapente, a ilha atraiu muita gente a fim de problema, pois está posicionada estrategicamente na costa francesa. Por isso a ilha de Sainte-Marguerite  já era habitada durante a época dos romanos, quando era conhecida pelo nome Lero.

Esperando por quem está procurando problema.
Esperando por quem está procurando problema.
De olho nos arruaceiros!
De olho nos arruaceiros!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Além disso, como a ilha era um porto de apoio na rota comercial entre a Itália e a Espanha, piratas invadiram as ilhas em 1180, depois vieram os genoveses em 1400 e os espanhóis em 1524.

Por um segundo achei que os piratas haviam voltado. Ufa!
Por um segundo achei que os piratas haviam voltado. Ufa!

A ilha foi renomeada provavelmente nos tempos medievais por cruzados, que construíram por lá a capela de Sainte-Marguerite. Segundo a lenda, Sainte-Marguerite seria irmã de Saint-Honorat (que dá nome à ilha vizinha) e levou uma comunidade de freiras para esta ilha que assim recebeu o nome dela.

Beleza.
Beleza.
Muita beleza.
Muita beleza.

 

 

 

 

 

Em 1612, a propriedade da ilha passou dos monges de Saint-Honorat para o duque de Chevreuse. Pouco depois, iniciou-se a construção do Fort Royal.

Entrada do Fort Royal.
Entrada do Fort Royal.

A vila de Sainte-Marguerite

A ilha conta com uma mini vilinha que se desenvolveu durante o século 18, graças ao poder de compra dos soldados estacionados por lá. Hoje a vila de Sainte-Marguerite é composta por cerca de vinte edifícios. A maioria destes são o lar de pescadores, mas há também um pequeno estaleiro e um par de restaurantes. O hotel da ilha foi fechado no verão de 2005.

Sem palavras.
Há poucas áreas de praia com areia, mas dá para tomar um sozinho tranquilamente.

O Fort Royal

Durante a Guerra dos Trinta Anos, os espanhóis ocuparam a ilha de 1635 a 1637 e iniciaram a construção do Forte. Após os espanhóis serem derrotados, o exército francês completou a  fortificação da área. A prisão foi adicionada em 1637 e funcionou até o século 20. O Fort Royal foi considerado monumento histórico em 1927 e perdeu o seu valor militar em 1944, sendo adquirido pela cidade de Cannes em 1995.

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A fortaleza foi o lar de um número de prisioneiros famosos, o mais conhecido foi o  chamado Homem da Máscara de Ferro que morreu na Bastilha em 1703, pois o carcereiro encarregado dele tinha que levá-lo junto a cada transferência! Foi preso com o nome de Dauger e enterrado com o nome de Marchioly. Corria o boato que ele era um irmão ilegítimo do então rei Luiz XIV. O certo é que este prisioneiro ficou detido 34 anos, 16 dos quais no Fort Royal. Não tinha permissão para falar com ninguém e nem para tirar a máscara. Quando em público, era acompanhado de 2 guardas com instruções de matá-lo caso tentasse tirar a máscara. Depois da sua morte sua cela foi lixada e caiada e todos os seus pertences foram incinerados, incluindo a máscara de ferro (alguns dizem que era de veludo negro) que foi derretida. Eu, hein!

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Cela do homem da máscara de ferro.
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Privada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Obviamente os alemães não podiam ficar de fora desta e sua passagem pela ilha está registrada na presença de casa-matas e abrigos para canhões datando da Segunda Guerra.

Casa mata. Aqui os soldados se refugiavam em caso de invasão da ilha para esperar reforços.
Casa-mata. Aqui os soldados se refugiavam em caso de invasão da ilha para esperar reforços.
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Esta fornalha era usada para aquecer as bolas de canhões que atingindo os navios acabavam por incendiá-los.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 cemitérios

Parece um pouco soturno, mas são pequenos e meio fora do caminho, se não estiver a fim, passe batido.

Um cemitério para os soldados franceses que morreram na ilha após o fim da Guerra da Criméia, pois foram levados à ilha por um período de convalescença.

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E ao lado dele, um cemitério para os soldados norte-africanos que tombaram ao lado dos aliados durante a Segunda Guerra Mundial.

Cada marcação é uma sepultura.
Cada marcação é uma sepultura.

O Museu do Mar

Visita que vale muito a pena. Instalado em uma antiga cisterna romana, o museu apresenta achados arqueológicos da região. São frutos de escavações na ilha e resgates do mar ao redor com itens recuperados de naufrágios romanos de 1 AC e naufrágios sarracenos do século 10. Os naufrágios são também interessantes para aprender como os antigos faziam o comércio e viviam.

Copos encontrados em naufrágio do fim no século 1 AC
Copos encontrados em naufrágio do fim no século 1 AC

A cisterna romana funcionava assim: a água era captada no teto de um templo, por exemplo, enchia estas salas e depois era distribuída pela cidade como vemos abaixo.

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Hoje o museu fica onde antes estava a água no esquema acima.

Outra especialidade dos romanos era a navegação. Evitavam navegar no Mediterrâneo no período que chamavam de ‘mare clausum’ devido às tempestades repentinas e aproveitavam de março a novembro para cruzar as rotas comerciais.

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O navio partia assim. Com várias ânforas no porão bem arrumadinhas.
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E depois do naufrágio terminavam assim.

 

 

 

 

 

 

 

Até a Revolução Industrial, o comércio percorria principalmente rotas marítimas,  pois o transporte por terra era muito caro e ineficiente. Em média, os barcos que cruzavam o Mediterrâneo levavam 100 toneladas de produtos. A viagem de Espanha a Roma durava cerca de 7 dias e passava pela ilha de Sainte-Marguerite. O comércio envolvia basicamente trigo, vinho e azeite.

Assim ficavam acomodadas as ânforas no porão do navio.
Assim ficavam acomodadas as ânforas no porão do navio.

O vinho era o que percorria mais rotas, pois a Grécia, Itália, França e Espanha trocavam seus produtos com frequência.

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Ânfora de vinho da Itália. Fim do século 1 AC.
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Ânfora de vinho da Grécia. Século 2 – 3 AC.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ânfora de vinho da França. Segunda metade do século 1 DC.
Ânfora de vinho da França. Segunda metade do século 1 DC.
Ânfora de vinho da Tunísia. Século 1 DC.
Ânfora de vinho da Tunísia. Século 1 DC.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ânfora de conserva do sul da Espanha. Século 3 DC. Repare no gargalo mais largo.
Ânfora de conserva do sul da Espanha. Século 3 DC. Repare no gargalo mais largo.

O dia foi mesmo incrível, mas acima de tudo, adorei ver a quantidade de jovens estudantes passeando pelas ruínas, brincando nos monumentos, respirando e vivendo a história de seu país. Há um pequeno albergue para que possam dormir na ilha. Muito legal mesmo.

Aqui fica o refeitório e o dormitório para os estudantes.
Aqui fica o refeitório e o dormitório para os estudantes.

Visite a ilha seja por sua beleza natural ou pela sua riqueza patrimonial, mas se você estiver no mesmo nível do bilionário indiano Vijay Mallya, compre um pedacinho de terra por lá para chamar de seu. Ele adquiriu em 2010 a propriedade conhecida como “Le Grand Jardin” ou “O Grande Jardim” e pagou entre € 37.000.000 e € 43.000.000. Repare na quantidade de zeros, não bastasse o valor estar euros….

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Vem passear com a gente, vem.

Não perca nosso próximo post sobre mais um bom passeio para fazer se visitar Cannes.

Grasse: vinhos, conquistas e perfumes. Aprendendo tudo isso com Napoleão.

Vamos encontrar nosso ilustre guia em um momento iluminado de sua vida. Em dezembro de 1804 o ambicioso Napoleão é coroado imperador aos 35 anos de idade. Após inúmeras campanhas militares e vitórias em batalhas importantes por todo o continente europeu, ele havia atingido o maior de seus objetivos.

Pintura retrato de Napoleão na perfumaria Galimard.
Pintura retrato de Napoleão na perfumaria Galimard.

No entanto, como dizem por aí, não há mal que nunca termine nem bem que dure para sempre, e em março de 1814, o imperador que já havia sido derrotado na Rússia em 1812 e na Alemanha em 1813, não pode impedir os russos e os austríacos de invadirem a França e se apoderarem de Paris.

Desesperado por uma ofensiva e por negociar com os aliados, Napoleão abdica no dia 11 de abril enquanto Luis XVIII vem recuperar a coroa da França. Mas tudo o que ele consegue é terminar isolado, com uma parte de sua tropa na Ilha de Elba cuja soberania lhe foi concedida.

No dia 26 de fevereiro de 1815, Napoleão escapa de seu exílio na Ilha de Elba onde ele viveu por mais de 10 meses. Separado da família e sabendo que muitos franceses estão insatisfeitos com Luis XVIII, ele tinha outra razão importante para esta reconquista: ele precisa dos 2 milhões de francos anuais que o rei prometeu lhe enviar para manter sua guarda e nunca mandou. É o começo da reconquista para o governo dos 100 dias.

Ás 5 da manhã do dia 1. de março, Napoleão desembarca na margem do Vallauris na enseada do golfo Juan, Cannes. Hoje a cidade é palco de badalação de estrelas da música e do cinema, passarela de magnatas das mais diversas nacionalidades cujas fortunas têm origem distintas, porém antigamente era um agitado porto de entrada para França, junto à vizinha Marselha, rota movimentada por comerciantes e piratas. Vai ver nem mudou tanto assim.

Vista de Cannes. Hoje palco de badalação de estrelas da música e do cinema, antigamente era um movimentado porto de entrada para França, junto com Marseille.
Vista de Cannes.

Após esperarem em vão pela ajuda da guarnição de Antibes, pois os 25 entusiasmados soldados que entraram gritando ‘Viva Napoleão’ na cidade, acabaram presos, tomados por loucos, a tropa partiu pelo “Grand Chemin des Alpes” rota difícil, mas direta que permitiria evitar os defensores do rei no vale do Rhône e viajar mais depressa que as notícias da volta do imperador. Nesta primeira noite, dormem nas areias brancas e limpas do que um dia será a Croisette.

Hoje a Croisette conta com alguns dos melhores hotéis do mundo como por exemplo o Ritz Carlton. Na época Napoleão dormiu na areia mesmo.
Hoje a Croisette conta com alguns dos melhores hotéis do mundo como por exemplo o Ritz-Carlton. Na época Napoleão dormiu na areia mesmo.

A escolha por dormir na areias de Croisette é simples. Chegando em silêncio, na calada da noite, a tropa preferiu se manter longe da cidade antiga de Cannes. O belo Suquet.

O relógio do Suquet marca a parte alta (a única, na verdade) de Cannes.
O relógio do Suquet marca a parte alta (a única, na verdade) de Cannes.
As ruelas estreitas da cidade antiga escondem história e contrastam com a badalação da Cannes "nova".
As ruelas estreitas da cidade antiga escondem história e contrastam com a badalação da Cannes “nova”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No dia 2 de março a tropa se levanta junto com o sol e se põe em marcha, chegando a Grasse ainda pela manhã.

As marcas da passagem de Napoleão estão por todo o lado.
As marcas da passagem de Napoleão estão por todo o lado.

A pequena e simpática cidade de Grasse é conhecida por sua tradição na produção de perfumes.

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Nos perfumes, assim como nos vinhos, os aromas se completam e se combinam para formar um todo que deve possuir equilíbrio para ser perfeito.

Quem já visitou a Provença pode testemunhar que a paixão francesa pelos aromas vai muito além das extensas plantações de lavanda. Isso vem desde Luís XIV, o rei Sol que preconizava uma França símbolo do luxo, do bom-gosto e da sofisticação.

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Um mascate perfumista com todos os seus apetrechos.

Fazer perfume é um pouco como fazer vinho, pois envolve os sentidos da visão e do olfato também. Os aromas se completam e se combinam formando um todo. Os perfumes mais complexos e equilibrados são os que normalmente agradam mais. As 2 artes também evocam sedução e paixão física através da excitação destes mesmos sentidos.

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Laboratório da Galimard.

Em Grasse, você vai encontrar 3 perfumarias muito legais que você pode visitar gratuitamente. A Moulinard, a Galimard e a Fragonard. Parece piada, mas os nomes são assim mesmo. A Galimard é bacana porque tem um museu que explica a fabricação dos perfumes passo a passo. A Moulinard é a mais simplezinha de todas, não tem muito para ver. Além disso topei fazer um curso de perfumista de 1 hora que na realidade era misturar 1 base com 3 aromas em 5 minutos. Por 30 euros, valor que paga alguns perfumes bem legais. Fuja desta! Há outras opções dos tais cursos, vale procurar e se informar bem para evitar desapontamentos. A Fragonard tem um museu muito completo e cheio de curiosidades sobre o mundo do perfume e a família. Vale a visita.

Aliás se você está mesmo louco para conhecer sobre perfumes, recomendo o Dênis Pagani. Ainda não tive oportunidade de fazer o curso dele aqui no Brasil, em São Paulo mesmo, mas é super recomendado.

A Galimard é bacana porque tem um museu que explica a fabricação dos perfumes passo a passo.
A Galimard é bacana porque tem um museu que explica a fabricação dos perfumes passo a passo.

 

 

 

 

 

 

 

 

A Moulinard é a mais simplezinha de todas. Além disso topei fazer um curso de perfumista de 1 hora que na realidade era misturar 1 base com 3 aromas em 5 minutos. Por 30 euros. Fuja desta!
A Moulinard é a mais simplezinha de todas. Não caia no conto do curso!

 

 

 

 

 

 

 

 

A Fragonard tem um museu muito completo e cheio de curiosidades sobre o mundo do perfume. Vale a visita.
A Fragonard tem um museu muito completo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas voltando à vida do nosso guia e sua peripécias, dia 7 de março, Napoleão chega a Grenoble. Lá o ‘aventureiro’ torna-se ‘príncipe’. É o fim de um período importante do retorno que parece ser triunfal. Este caminho percorrido ficou conhecido como a Rota de Napoleão.

A rota de Napoleão é bem sinalizada e vale a viagem.
A rota de Napoleão é bem sinalizada e vale a viagem.

De Grenoble, ele se dirige a Paris para 100 dias de poder que vão culminar na derrota final em Waterloo e em seu exílio, agora na Ilha de Santa Helena, até sua morte em 1821 aos 51 anos.

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A essência de Napoleão. Apesar da polêmica em torno de sua sangrenta ambição que trouxe tantas guerras à Europa, ainda muito admirado pelos franceses e por militares do mundo todo.
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A Galimard produz o perfume em homenagem a Napoleão que leva o ano do fim de seu império (1815) e não o de sua passagem pela cidade (1814).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gostou da dica? Então quando estiver pela Provença, não inclua Cannes no seu roteiro pela badalação, mas por sua rica história.

Acompanhe nosso posts porque vamos dar mais dicas sobre visitas imperdíveis para você que vai à Provença.

Bibliografia: Route Napoleon – Guides Gallimard e Napoleão Uma Biografia Literária – Alexandre Dumas.