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Lounge do Vinho a “nova” Expovins / Wine Lounge the “new” Expovinis

A partir deste ano, a ExpoVinis Brasil, que era considerada a principal feira do mercado de vinhos, destilados e acessórios da América Latina, não será mais realizada. Ela foi engolida pela Fispal Food Service – maior exposição do segmento de alimentação fora do lar do Brasil que acontece de 12 a 15 de junho, no Expo Center Norte, em São Paulo.

A Expovinis foi, provavelmente de modo muito adequado, renomeada Lounge do Vinho e segundo os organizadores “terá o objetivo de proporcionar aos empresários do setor as melhores opções de vinhos a serem comercializados em bares, restaurantes e pizzarias e que podem se tornar importante opção para complementar as vendas no cardápio e aumentar a margem de lucro dos estabelecimentos.”

Vamos lembrar que lounge é uma palavra em inglês, que pode significar sala de estar, sala de espera ou ante-sala. Um sala onde nada acontece. Um lounge bar, por sua vez, é um salão onde pessoas podem se encontrar, interagir de uma maneira relaxada e desfrutar de algumas bebidas. Parece muito com a Expovinis para esperar alguma mudança. Nem deveriam ter escolhido outro nome.

A Expovinis estava meio perdida, sem rumo certo, com pouca gente conseguindo realizar negócios e contactar os profissionais do setor, principais objetivos da feira. A maioria do público se comportava como numa feira destinada ao consumidor: perguntando pouco e bebendo muito. Até demais.

Parece razoável mover a Expovinis para uma feira maior e relacionada ao setor, mas neste caso, deveríamos falar sobra a APAS, a feira anual da Associção de Supermercados. Afinal é neste canal que ocorre a maior parte das vendas de vinho no Brasil. É onde se encontra as oportunidades de crescimento imediato. No entanto esta opção parece ter ficado fora do cardápio, pois as empresas organizadoras dos 2 eventos são diferentes e mais uma vez, o setor de vinho no Brasil, separado por interesses diferentes, incapaz de encontrar um denominador comum entre importadores e produtores nacionais, perderá oportunidades de crescimento que ficam como outras tantas, só nas promessas.

Tremenda furada.

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E a razão é simples: a venda de vinho em bares e restaurantes corresponde a menos de 25% no Brasil e até em vários países do mundo que têm uma tradição muito mais arraigada de consumir vinho durante as refeições. Isso ocorre porque os restaurantes cobram muito caro pelo vinho, tornado-o pouco atraente para o consumidor destes locais. E sem uma mudança radical destes empresários, é pouco provável que algo se modifique.

Muito importadores e produtores nacionais participaram de maneira expontânea na APAS, buscando obviamente a presença no principal canal de venda de vinhos e um público quase 2 vezes maior daquele que visita a Fispal. Porém isso aumenta custos de promoção, diminui o impacto e dilui resultados.

Segundo o site da Fispal, o consumo de vinho no Brasil aumentou 15,85% nos último três anos, o que qualquer profissional de marketing pode reconhecer como crescimento vegetativo, ou seja, junto com a população. Ainda conforme eles, até 2030, o Brasil será a quinta nação que mais consome vinho no mundo, o que também é um angulo “diferente” de interpretar os números, pois alguns dos grandes países do mundo (Rússia, China e Índia) possuem uma cultura e consumo de vinho ainda muito incipiente e com isso fica fácil ser o quinto no mundo, enquanto o consumo per capita, o que importa de verdade, segue ainda engatinhando em 1,8 litros há anos.

Acho melhor guardar o espumante e deixar a comemoração disso tudo para depois que tomarmos iniciativas estrategicamente melhor colocadas para um real desenvolvimento do vinho no Brasil.

 

Fonte:  Fispal Foodservice – Lounge do Vinho

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As of this year, ExpoVinis Brasil, which was considered the main Latin American wine fair will no longer be held. It was swallowed up by the Fispal Food Service – the largest exhibition of the foodservice segment in the country that will take place from June 12 to 15 at Expo Center Norte in São Paulo.

Expovinis was, probably very appropriately, renamed Wine Lounge and according to the organizers “will have the objective of providing the sector’s entrepreneurs with the best wine options to be marketed in bars, restaurants and pizzerias and that may become an important option for supplement the sales on the menu and increase the profit margin of the establishments. ”

Let’s remember that lounge is an English word, which can mean living room, waiting room or anteroom. A room where nothing happens. A lounge bar, in turn, is a lounge where people can meet, interact in a relaxed manner and enjoy a few drinks. It looks a lot like Expovinis to expect any kind of change.

Expovinis was a little off, no clear direction, attracting few people able to conduct business and contact the professionals of the sector, main objectives of the fair. Most of the public behaved like in a consumer fair: asking little and drinking a lot. More often that not, too much.

It seems reasonable to move Expovinis to a major sector-related fair, but in this case, we should talk about APAS, the annual trade fair of the Supermarket Association. After all, it is in this channel that most of the sales of wine in Brazil take place. It is where you find the opportunities for immediate growth. However, this option seems to have been left out of the menu because the organizers of the two events are different and once again the wine sector in Brazil, separated by different interests, unable to find a common denominator between importers and national producers, will lose growth opportunities that remain like so many others, only in the promises.

What a fail.

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And the reason is simple: the sale of wine in bars and restaurants corresponds to less than 25% in Brazil and even in several countries of the world that have a much more deeply rooted tradition of consuming wine during meals. This is because restaurants charge too much for the wine, making it unattractive to the consumer of these places. And without a radical change of these entrepreneurs, it is unlikely that something will change.

Many importers and national producers participated spontaneously in the APAS, obviously looking for presence in the main wine sales channel and a public almost two times bigger than the one that visits Fispal. However, this increases promotion costs, decreases impact and results.

According to Fispal’s website, wine consumption in Brazil increased by 15.85% in the last 3 years, which any marketer can recognize as population growth. Still according to them, by 2030, Brazil will be the 5th most consuming wine in the world, which is also a “different” angle of interpreting numbers, since some of the great countries of the world (Russia, China and India) have a culture and consumption of wine still very incipient and thus it is easy to be the 5th in the world, while consumption per capita, which really matters, has been crawling around a mere 1.8 liters for years.

I think it is better to keep the sparkling wine in the fridge and celebrate after we take initiatives strategically better placed for a real development of wine in Brazil.

 

Fonte:  Fispal Foodservice – Lounge do Vinho

Vinexpo vs. Expovinis – só pondo o dedo na ferida ela pode sarar.

Este ano tive a oportunidade de participar de 2 importantes eventos do vinho, um bem próximo ao outro e a comparação foi inevitável.

A proposta das duas feiras é exatamente a mesma: criar oportunidades de descobrir novos produtos, expandir portfolios, fazer negócios, discutir tendências de mercado e proporcionar networking. E fazem isso de maneiras distintas, pois têm algumas diferenças importantes:

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Destes dados já se apreende que a Expovinis é uma feira menor, mais jovem e realizada num país em desenvolvimento com cultura de vinho ainda em formação enquanto a Vinexpo já está bastante consolidada num dos berços mundiais do vinho localizados numa grande potência européia.

Essas são diferenças que a gente tem que respeitar, então eu nem vou entrar no mérito de qualidade de transporte público entre as duas cidades, qualidade das instalações entre os dois ambientes de exposição (banheiros,  como exemplo) e acesso a internet, só para começar, pois isto implica em responsabilidade pública sobre as quais temos nenhuma ou muito pouca influência. Vamos propor uma reflexão sobre o que nós como comunidade de profissionais do vinho podemos fazer para melhorar a Expovinis, pois vejo a cada ano um número crescente de pessoas insatisfeitas com a mesma, enquanto a feira encolhe tristemente.

Podemos começar por exemplo falando de gastronomia. Os profissionais do vinho sabem que a grande maioria dos vinhos é feita para se consumir com comida. Não só pelas características organolépticas do vinho, mas também pelo risco que pode apresentar à saúde, o hábito do consumo de álcool a qualquer momento do dia em qualquer quantidade. Os sommeliers são incentivados a buscar constantemente harmonizações para os vinhos que degustam e seu trabalho é basicamente propor vinhos que combinem com os pratos escolhidos por seus clientes.

A Expovinis tem 4 pontos de venda de comida na feira toda. Detalhe que a feira começa exatamente às 13, horário da refeição mais importante dos brasileiros: o almoço. Creia-me a relação qualidade-preço dos 4 pontos de venda é de chorar. Vai de coxinha de lanchonete de rodoviária a pizza de cadeia internacional pingando óleo.

A Vinexpo oferece quase 50 restaurantes e food trucks. De ostras a hamburguer, sushi, comida basca, thai e claro, francesa. Tem comida para todo lado, de todo tipo e de todo preço. E todo mundo oferece vinho a copo ao preço de refrigerante.

Área de alimentação conta com restaurantes e food trucks.
Área de alimentação conta com restaurantes e food trucks.

Será que podemos ampliar a oferta de alimentação? Trazer foodtrucks que estão tão na moda para participar do evento? Que adotem os vinhos do evento e harmonizem com seus cardápios para enriquecer a experiência. A Expo Center Norte não permite? Então não é o lugar certo para esta feira. Por mais esta razão.

Será que as grandes companhias de alimentos não estão dispostas a patrocinar aulas de harmonização atrevidas em cook shows ao vivo para chamar a atenção da importância da comida para o vinho, a exemplo do que fez a Gault-Millaut com sucesso estrondoso na Vinexpo? Isso também chama a atenção da importância do profissional de vinho para a área de restauração e valoriza a imagem do mesmo.

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Aula de harmonização com cook show.

Beber vinho é muito legal, mas para aprender mesmo, como profissionais, temos que estudar regiões produtoras e seus produtores, entender condições, propostas e conceitos. Só balançar copinho e despachar aromas e sabores não é tudo para quem realmente trabalha com o tema. Por isso, é importante um ciclo de palestras pertinentes à complementação profissional do sommelier brasileiro, seja o de restaurante, o consultor de vinhos em loja ou importadora.

Durante a Expovinis, a grande maioria das palestras foi proposta pela ViniPortugal, em uma iniciativa única e louvável, mas ainda assim pequena.

Onde estavam Chile e Argentina? Os 2 maiores exportadores de vinho para ao Brasil. Recebem isenções de impostos e contribuem como ao crescimento do vinho no Brasil? Será que a Wines of Argentina & a Wines of Chile poderiam manifestar seu interesse no mercado brasileiro com uma presença maior: aulas sobre seus terroirs e degustações guiadas de seus produtores?

E a Vinhos do Brasil? Não seria uma boa oportunidade de apresentar regiões novas e consolidar as tradicionais para os profissionais? Propor degustações guiadas com profissionais reconhecidos?

As salas de treinamento sempre pequenas, apertadas, mal aparelhadas e desconfortáveis não podem ser melhoradas? Está claro que não são suficiente. A improvisação não funciona. A fila de pessoas frustradas na porta porque não conseguiram participar de palestras e workshops e a existência de debates pouco ou não divulgados denuncia a área de melhoria e a necessidade do público.

Salas amplas para acolher os muito interessados e bem equipadas com som e visual.
Salas amplas para acolher os muitos interessados e bem equipadas com som e visual.

O último ponto ao qual convido um reflexão é nosso postura como profissionais. Existe uma diferença muito grande entre um sommelier fora e no Brasil. A responsabilidade é sempre a mesma, zelar por uma seleção adequada (que harmonize com o cardápio, com o conceito da casa, variada, equilibrada e sobretudo rentável) de vinhos para uma loja ou restaurante.

O problema está na valorização da profissão. Lá fora um profissional em início de carreira ganha cerca de USD 4,000 por mês, aqui cerca de USD 400. Obviamente o impacto disto na formação é enorme. Fora do Brasil um curso de formação tem mais de 300 horas. Aqui é a metade disso ou menos. E a profissão tem uma formação cara: é estudar muito, viajar, ler e beber. Parece divertido, e é. Mas requer empenho, disciplina e investimento tanto quanto qualquer outra profissão ou até mais.

Credito a esta falta de valorização uma postura que beira ocasionalmente a falta de profissionalismo. Testemunhei várias cenas lamentáveis na Expovinis de pessoas alteradas, bêbadas ou simplesmente passando mal publicamente. Na Vinexpo não vi absolutamente nada. E há uma pequena diferença: lá há vários pontos de degustação livre. Você pega  sua taça, se serve do vinho que quiser. Os dados do produtor constam da ficha técnica, incluindo o stand dele e você pode consultá-lo posteriormente caso haja interesse. As cuspideiras estavam lá por toda parte e eram amplamente utilizadas. Havia também higienizadores de copos disponíveis em locais estratégicos. Não tem que lavar a tacinha no banheiro.

Degustação livre de rosés.
Degustação livre de rosés.
Degustação livre de rosés com enomatic.
Degustação livre de rosés com enomatic.

 

 

 

 

 

Voltando ao poder aquisitivo do sommelier brasileiro e o custo e necessidade de formação, tenho que dizer que a Vinexpo custa zero para os profissionais da área. Nada mesmo. A Expovinis em teoria não custa nada, até que você entra e te pedem R$ 50 pela taça. Se não, não dá para degustar a não ser em circunstâncias especiais como palestras, degustações orientadas, todas aqueles que estão sempre lotadas, lembra?

Estas três áreas de oportunidade podem impulsionar o ponto crítico da Expovinis que é abrir mais frentes para concretização de negócios, reclamação frequente entre todos os que deixaram de frequentar a feira, seja como expositor, seja como visitante.  Na Vinexpo, a gastronomia, as palestras e a correta postura profissional ocupam os que querem aprender e liberam o expositor para tratar com aqueles que realmente querem comprar seu produto. Ele não fica enrolado num pequeno stand cercado por dezenas de pessoas com copos estendidos aos quais não terá oportunidade nem de explicar seu terroir, método, conceito e produto, menos ainda de negociar. O clima é totalmente distinto.

Ambiente de negócio.
Ambiente de negócio.

Essa foi a marca principal: deu para perceber o vinho como negócio, com profissionalismo, aberto, franco e participativo. O vinho no Brasil precisa se abrir, ser discutido ser conversado. A elite que domina o setor hoje tem que reconhecer que o modelão atual não tem funcionado. A economia fechada do Brasil nunca vai correr a favor do mercado do vinho que embarcou faz tempo no mesmo formato, com grande atraso em seu  desenvolvimento. Tá aí os eternos 2 litros per capita de consumo que não me deixam mentir enquanto outros países crescem de 20% a 30% nos últimos anos. Há que existir um ar de negócio sério para mudar o estado de estagnação atual.

A empresa que promove a Expovinis é francesa, improvável que ignore tudo o que está descrito aqui. Provavelmente maiores e melhores que eu já tentaram coisas diferentes para mudar esta situação. Porém a idéia deste post é ser mais uma voz, mais idéias, mais vontade, pois só com uma mobilização é que se vai trazer a mudança desejada. Concorda? Ou não? Este espaço é democrático e está sempre aberto.

E vem mais post por aí.