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O vinho da época de Jesus e uma discussão cheia de pecado

“Considera com indulgência os que bebem até a embriaguez. Lembra-te de que tens defeitos maiores.”
Omar Khayyám – 18.05.1048/04.12.1131. Matemático, astrónomo, filósofo e poeta iraniano. Um dos cientistas mais influentes da idade média.

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Há aproximadamente 1 mês, o Ministério da Cultura do Irã decidiu censurar o uso da palavra “vinho” e alguns nomes do que consideram ser “animais estrangeiros” de todos os livros publicados na República Islâmica. Segundo o comunicado, a idéia é proteger os iranianos do que o regime classifica como “ataque cultural” pelo Ocidente. É triste, mas não é a única iniciativa, a Turquia já enveredou por este caminho há algum tempo. Existem 2 contra-pontos nesta história.

O primeiro é que o Irã foi um dos primeiros e mais importantes produtores de vinho no Oriente Médio desde os primórdios da humanidade.

O segundo é que no final do ano passado, um grupo de cientistas da Universidade de Ariel, na Cisjordânia anunciou que está tentando recriar o vinho que se bebia há 2 mil anos, para “recuperar e poder sentir no próprio paladar o sabor, o aroma, a cor e a textura que sentiu Jesus Cristo em sua época.”

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O vinho e o cristianismo, lado a lado.

Para isso, o primeiro passo é a recuperação da Dabouki, a casta com a qual era elaborado o vinho da época. O processo ocorre através de transferência de material genético de sementes de uvas antigas para uvas israelenses atuais, algo tipo Jurassic Park, mas sem a parte do Tiranossauro RexA pesquisa inclui também a análise de tonéis feitos com barro, encontrados nas ruínas de diversos templos judaicos.

Esse grupo de cientistas já conseguiu produzir vinho a partir da uva Maaravi, uma variedade considerada extinta e que era cultivada no leste de Belém, por volta do ano 220 d.C. O objetivo dos produtores de vinho de Israel com estas “novas” variedades ancestrais é uma oportunidade para diferenciar seus produtos em um mercado global competitivo, onde eles têm pouca esperança de melhorar as variedades tradicionais (Cabernet, Chardonnay, etc) cultivadas em seu território.

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Vai uma uvinha de 2.000 anos, aí?

Todo este processo, no entanto, não é livre de polêmica, especialmente numa terra onde há tantos conflitos, pois os palestinos têm suas próprias reivindicações de propriedade sobre as uvas. Só não reivindicam com mais ênfase, por medo da retaliação por trabalhar com israelenses nos projetos de resgate e por ajudar a fazer vinho (álcool), o que é proibido pelo Islã.

À parte da discussão étnica e religiosa que deixo para pessoas mais capazes que eu, o que me chamou a atenção foi que obviamente enquanto um país renega sua relação com as raízes do vinho e outro tenta resgatá-la, existe um contexto recente sobre a discussão de perfil de sabores de vinho que uma destas iniciativas pode iluminar.

Numa degustação técnica moderna e de nível internacional, os profissionais falam de aromas, sabores e defeitos do vinho que são regidos por normas de organizações internacionais. Assim todos falamos a mesma língua. Isto é justo com os produtores e com os consumidores do vinho, pois como consequência os vinhos são comparados equitativamente em termos de qualidade. 

A WSET, por exemplo, é uma organização internacionalmente reconhecida no mundo do vinho e suas fichas de degustação são uma das mais utilizadas nos meios profissionais do vinho.

O ponto é que tudo isto foi feito para o vinho moderno e tradicional. O que chamamos de vinho “tradicional” hoje, exige uma certa manipulação do vinho pelo enólogo, ao contrário dos vinhos dos primórdios, ou os naturais da atualidade que se supõe, são bebidos exatamente como a natureza os fez. Além disso, suspeita-se que desde os gregos até a época de Jesus o consumo de vinho era feito com água do mar, especiarias e ervas. Como classificar vinhos desta natureza?

O vinho pode ser tradicional, orgânico, biodinâmico ou natural, sobre os quais já conversamos em nossa matéria: Tudo o que você precisa saber sobre vinhos orgânicos e biodinâmicos para ampliar seu leque de opçõesmas todos são julgados sob as mesmas regras, independente de gosto pessoal. Um profissional do vinho obedece a fichas técnicas bastante precisas (como as acima) para julgar um vinho. Suas preferências pessoais, ele deixa em sua adega. E para ser muito imparcial, normalmente ele não vê o rótulo enquanto faz suas anotações. Assim tanto faz da onde, de quem, de que ou de quando é o vinho.

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Que o vinho nosso de cada dia seja sempre abençoado!

 

Este certamente será um tema para ocupar a cabecinha dos profissionais do vinho no futuro, enquanto surgem ou até ressurgem vinhos que não estão enquadrados no esquema tradicional de avaliação mas cujos produtores e consumidores merecem o respeito devido a todos os demais. Pense nisto quando você degustar sua próxima taça e observe que quem usa o termo degusta, também cospe, não engole. Analisa detalhada e pausadamente, anota suas impressões numa ficha e arquiva. Como um profissional. Do contrário você está só tomando vinho. O que diga-se de passagem, é ótimo! Mas diferente.

Portanto nada impede de seguir mais um conselho do sábio Omar:

“Ah, encha a taça: de que vale repetir
Que o tempo passa rápido sob nossos pés:
Não nascido no amanhã, e falecido ontem,
Por que angustiar-se frente a eles, se o hoje pode ser doce?”
Omar Khayyám

Mais informação: Seu History

New York Times

Iran bans use of the word wine in books

Tudo o que você precisa saber sobre vinhos orgânicos e biodinâmicos para ampliar seu leque de opções

Hoje nós vamos explicar direitinho para você o que são 2 tendências mundiais que vêm ganhando cada vez mais força: a dos vinhos orgânicos e biodinâmicos. Não podemos nunca esquecer a origem agrícola deste produto que muitas vezes é elitizado e glamurizado nas prateleiras de supermercados e empórios, tão longe das terras e vinhas que lhe deram vida. Portanto para entender estes vinhos, vamos primeiro falar de agricultura.

Buscando melhorar a produtividade da atividade agrícola e abastecer uma sociedade que se tornava cada vez mais urbana e industrial, os fertilizantes artificiais foram criados durante o século 18, justamente a época da Revolução Industrial e do êxodo rural. Inicialmente tinham como base os superfosfatos  e em seguida, o amoníaco. Estes fertilizantes eram baratos, poderosos e fáceis de transportar. Porém, a utilização deles ganhou terreno na década de 1940, no pós guerra, conhecida como a “era do pesticida”. Estas novas técnicas agrícolas traziam benefícios no curto prazo, mas provocavam efeitos secundários graves a longo prazo, como por exemplo:

  • a compactação e a erosão do solo;
  • o declínio na fertilidade do solo;
  • os danos à saúde devido a produtos químicos tóxicos que entram no abastecimento alimentar.

E não demorou para alguns agricultores perceberem a degeneração de suas plantações e a perda de fecundidade de suas terras e recorrerem a um cara chamado Rudolf Steiner. Este cientista austríaco tinha vários interesses, entre eles a agricultura. Junto deste grupo de agricultores, ele buscou novas técnicas de plantio e em 1924 apresentou um ciclo de conferências destinadas a cientistas, veterinários e agricultores e estabeleceu a base da agricultura biodinâmica.

Outra iniciativa ocorreu entre o final dos anos 1930 e início dos anos 1940 através de Sir Albert Howard e de sua esposa, Gabrielle Howard, ambos botânicos, que desenvolveram a agricultura orgânica. Os Howards foram influenciados por suas experiências com os métodos tradicionais de cultivo na Índia, pela biodinâmica e pela sua educação científica formal. Sir Albert Howard é considerado o “pai da agricultura biológica” porque ele foi o primeiro a aplicar o conhecimento científico nestes métodos tradicionais e mais naturais.

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A joaninha é o símbolo da agricultura orgânica, também chamada de biológica. Fique de olho!

A agricultura orgânica utiliza fertilizantes e pesticidas (que incluem herbicidas, inseticidas e fungicidas), se forem considerados naturais (tais como farinha de ossos de animais ou piretrina das flores), mas exclui ou limita o uso de:

  • fertilizantes sintéticos;
  • pesticidas petroquímicos;
  • reguladores de crescimento de plantas, tais como hormônios;
  • uso de antibióticos na criação de animais,
  • organismos geneticamente modificados (este item é um pouco polêmico, pois alguns acreditam que os OGMs podem apresentar vantagens);
  • lodo de esgoto humano

por razões de sustentabilidade, transparência, independência, saúde e segurança.

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Muitas organizações certificam as plantações e a produção de vinhos para garantirem ao consumidor final a adequação do produto às suas regras.

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A agricultura biológica é uma forma de agricultura que se baseia em técnicas como:

  • a rotação de culturas;
  • adubação verde;
  • compostagem e;
  • controle biológico de pragas.
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As regras para a produção de vinho orgânico são claras.

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A diferença entre a agricultura orgânica ou biológica e a biodinâmica é que, além de basicamente adotar todas as regras da agricultura orgânica, a biodinâmica trabalha também com o conhecimento do ciclo cósmico, pois para os agricultores biodinâmicos, o reino vegetal não se emancipou das forças cósmicas, sendo um reflexo do que se passa no Cosmo. É um pouco mais filosófica e mais complicada que a orgânica porém se baseia nesta em seus preceitos básicos.

O aumento da conscientização ambiental na população em geral, especialmente na Europa,  transformou o movimento orgânico originalmente centrado na oferta para uma estratégia orientada pela demanda. A prática de preços premium e de subsídios do governo também atraíram produtores.

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Mas calcula-se que a partir de 2011, aproximadamente 37 milhões de hectares em todo o mundo foram cultivados organicamente, o que representa apenas cerca de 0,9% da superfície agrícola total mundial. Ou seja ainda há muito o que fazer e muitas cabeças a mudar para que a agricultura orgânica seja padrão, não exceção.

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O vinho orgânico é feito de uvas cultivadas de acordo a práticas da agricultura orgânica, ou seja, produzidas sem pesticidas sintetizados quimicamente, sem fertilizantes químicos e sem herbicidas. Além disso existem limitações no uso do que vai na vinha, a proibição de certos processos de vinificação e a redução dos níveis de sulfito autorizados.

Vinhos sem sulfito
O vinho orgânico utiliza menos sulfito, um conservante, na sua produção, e alguns vinhos são produzidos totalmente sem sulfito.

E nas vinhas, a situação não é diferente. A videira é uma planta bastante delicada e sensível às pragas, especialmente as advindas da humidade. Por isso, não é de espantar que, por exemplo, os vinhedos franceses representem menos de 4% das terras dedicadas à agricultura, mas usem 14% dos pesticidas. (Fonte: INRA 2010)

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Degustação livre de vinhos orgânicos na Vinexpo. É só chegar, degustar e tem material de apoio também.

Agora vamos aos vinhos cuja variedade impressionou.

Um rosé do Domaine des Carabiniers da região de Tavel apresentou-se muito frutado, mas levemente cozido o que lhe tirou um pouco do frescor.

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Este Sancerre da Le Tournebride apresentou-se cítrico, fresco, aromático com notas florais lembrando jasmim.

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O outro Domanie des Carabiniers da região de Lirac mostrou-se herbáceo e fresco.

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O Château Fougas é um vinho poderoso cheio de frutas vermelhas, taninos afinados e muito frescor. Este declara ser um vinho orgânico no rótulo.

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O Château La Roque é um vinho interessante com frutas vermelhas e notas de menta. Leva a designação biologique que significa orgânico no rótulo.

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Um delicioso Merlot do Domaine Émile Grelier que também leva a designação de orgânico no rótulo.

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O branquinho da Vignoble des 2 Lunes é floral, delicado e um pouco açucarado.

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Foi possível ver que os vinhos orgânicos além de cuidarem melhor do planeta, apresentam uma variedade muito interessante. Nos próximos posts nós vamos continuar a contar para vocês sobre vinícolas que praticam a agricultura orgânica e produzem vinhos imperdíveis.