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Afinal para que mudar? / Why do we have to Change?

Durante uma transição de carreira eu conheci o mundo do vinho e imediatamente me apaixonei. E como toda apaixonada, meu amor não via limites, só oportunidades. Eram feiras e congressos, vinhos nacionais ou importados, viagens, palestras, blogs, posts, lojas, restaurantes, importadoras, representações, países, castas e métodos de vinificação distintos, enfim, um mundo sem fronteiras a explorar.

Meu encanto com todas estas opções vagarosamente, foi sendo cerceado pela realidade de uma micro-empresária no Brasil. O dilema entre o que eu queria fazer e o que eu podia fazer. O processo foi vagaroso porque sempre fui persistente (ahan teimosa) e focada em resultados (ahan super teimosa). Eu me esticava daqui, puxava dali e achava que ía conseguir conciliar inúmeros projetos, afinal, gerenciamento de projetos também era algo que eu mandava bem.

Porém eu estava acostumada com o mundo corporativo. Foram quase duas décadas trabalhando em estruturas que acomodavam inúmeros projetos, equipes diretas, indiretas etc. Agora era só eu. E estava na cara que eu não estava dando conta. Não quis aceitar. Afinal, pequenos empreendedores que querem ser grandes falam sempre de como trabalhavam muito. Só que tem um momento de dizer chega.

É terrível este momento. Doído demais. Porém necessário, convida a reflexão, à auto-avaliação e finalmente àquele abismo assustador: a mudança necessária. Porque tem a mudança desejada: você pinta a casa, muda a decoração, de romântica para gótica, pinta o cabelo preto de ruivo, sei lá, mas é fruto de sua criatividade, e não necessidade.

Enfim,  deste momento casulo, em que me fechei, me ausentei e refleti, a Eu Levo Vinho deu espaço para a Portugal com Alma. Neste processo, abri mão de muitas atividades com clientes queridos, mas eu precisava dar foco naquilo que durante uma rígida análise é evidentemente a minha maior paixão: Portugal.

O outro lado da moeda é que a Portugal com Alma já nasceu assim: amada, desejada e querida por quem a conheceu na barriga, ainda como a Eu Levo Vinho.

E como criança muito esperada nasceu espoleta, cheia de novidades, alegrias e com mais paixão ainda pela terra do meu coração. Novos roteiros, festas medievais, aldeias misteriosas, herança celta, roteiros de águas termais. Gente, muita coisa boa. E mais facilidades nos pagamentos!

O vinho não foi esquecido, claro que não. Nem as viagens por outros países. Vem mais posts por aí. No entanto, de hoje em diante, somos Portugal com Alma, porque para ser Portugal tem que ter muita alma e amor no coração.


During a career transition, I got to know the world of wine and immediately fell in love with it. Exactly like all other lovers, my passion saw no limits, only opportunities. It comprised all and everything: national and imported wines, fairs and congresses, trips, lectures, blogs, posts, shops, restaurants, importers, exporters, countries, varieties and different vinification methods. A world without limits to explore.

My infatuation was slowly being curtailed by the reality of a micro-businesswoman in Brazil. The dilemma between what I wanted to do and what I could do. The process was slow because I was always persistent (ahan stubborn) and focused on results (ahan super stubborn). I would stretch out from here, pull from there and think that I could reconcile countless projects, after all, project management was also something that I did well.

But I was used to the corporate world. Almost two decades working on structures that accommodated countless projects, direct and indirect teams, etc. However, it was just me now. And it was obvious that I couldn’t do it all. I did not want to accept it. After all, small entrepreneurs who want to grow to be the big guys always talk about how they worked sooo hard. But, there is a moment you got to say enough is enough.

This moment is terrible. Awful. But necessary. It invites reflection, self-evaluation, and finally that frightening abyss: the necessary change. Because you have the desired change: you refurbish your house, change the decoration, you change your look from romantic to gothic, dye your black hair red, whatever, but it is the result of your creativity, not a necessity.

Finally, after this cocooning period, in which I closed myself and reflected, Eu Levo Vinho gave space to Portugal com Alma.

In this process, I gave up many activities with dear clients, but I needed to focus on what is obviously my greatest passion: Portugal.

The other side of the coin is that Portugal com Alma was born this way: loved, wanted and loved by those who knew her as an embryo, Eu Levo Vinho.

And as a very expected child, Portugal com Alma was born full of energy, full of news, joy and with more passion for the country of my heart. New tours, medieval festivals, mysterious villages, Celtic heritage, thermal water fonts. Guys, lots of good stuff. And a plus: easier payment methods!

The wine was not forgotten, of course not. Neither the trips to other countries. More posts out to come soon. However, from now on, we are Portugal com Alma, because to be Portugal you have to have a lot of soul and love in your heart.

Receita de Canelé Bordelais. E sim, tem tudo a ver com vinho.

Este docinho simples e simpático, típico da região vinhateira de Bordeaux, na França, seduz há séculos. Um pouquinho de história e a receita desta delícia estão bem aqui!

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A associação da canelé com o vinho é simples: os produtores de vinho adicionam claras de ovo ao mosto do vinho, num processo conhecido como clarificação, que retira o excesso de sedimentos do vinho e deixa-o mais suave. Há alternativas modernas ao processo, porém, as claras de ovos ainda são usadas por muitas vinícolas de pequeno porte.

Historicamente, as gemas de ovo oriundas deste processo viraram doces encantadores pelo mundo, e na França, mais especificamente em Bordeaux, foram utilizados para criar os primeiros canelés. Se você estiver em Bordeaux, as canelés são muito fáceis de achar e segundo o povo de lá mesmo, as da Baillardran são as melhores. Se não for o caso, segue a receita.

Nossa receita exige bem poucos ingredientes e eu acho até bem simples de fazer, para tanto sabor. Rende de 12 a 16 porções, dependendo do tamanho da sua forma.

2  detalhes importantes:
. As canelés devem ser preparadas de véspera.
. Deve-se usar a forma própria. Além da questão estética, eu notei que as que eu preparei nas formas de cupcake, ficaram parecidas com queijadinhas, murcharam mais e ficaram mais torradas e secas. A forma tradicional é de cobre, quase impossível de achar até na França. A minha, eu trouxe de lá, mas é de silicone. Ótima. Por aqui, eu já vi em boas casas do ramo.

Ingredientes:
. 1/2 litro de leite
. 2 ovos inteiros
. mais 2 gemas de ovo batidas
. 1/2 fava de baunilha ou 1/2 colher de chá de extrato de baunilha
. 3 colheres de sopa de rum
. 1 xícara de farinha de trigo
. 1 xícara de açúcar mascavo
. 2 colheres de sopa de manteiga
. Manteiga para untar a forma
. Açúcar branco para polvilhar a forma

Instruções:
No dia anterior:
. Ferva o leite com a baunilha e a manteiga. Retire o fogo, deixe esfriar só um pouco.
. À parte, misture a farinha com o açúcar, em seguida, adicione os ovos e as gemas de ovo à essa mistura.
. Depois, despeje esta mistura no leite morno.
. Misture tudo suavemente para obter uma mistura fluída e suave, tipo massa de panqueca. E se achar que errou: não, não errou, a massa fica quase líquida.
. Deixe esfriar e adicione o rum. Pode não usar rum? Pode, mas não é igual e não esqueça que o álcool evapora no forno.
. Leve à geladeira por 24 horas a 48 horas no máximo, a fim de hidratar bem a farinha de trigo.
Para assar as canelés:
. Pré-aqueça o forno a 250ºC.
. Unte a forma própria com manteiga e, em seguida, polvilhe com um pouco de açúcar.
. Despeje a massa apenas até estarem 3/4 cheios – NÃO mais. Parece inacreditável, mas elas crescem no forno e se você encher demais vai ser um rolo.
. Apoie a forma de silicone numa assadeira, e leve ao forno em temperatura alta por 5 minutos, em seguida, baixe a temperatura para 175ºC e continue a cozinhar por 1 hora mais ou menos.
. Os canelés estarão prontos quando sua adorável e quase crocante cobertura estiverem com uma leve crosta marrom, e eles ainda estiverem úmidos, quase como um pudim, por dentro, mas sem soltar sedimentos quando espetados com palito.
. Desenforme com cuidado enquanto ainda mornos.

As minhas ficaram ótimas em relação ao sabor e textura, mas preciso fazê-las mais uniformes, pois as cores estavam muito diferentes e entender também porque murcharam tanto. Diz a lenda que é porque não usei ovos frescos. Onde achar ovos frescos em São Paulo é que é o desafio…

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Você pode servir as canelés com chá ou café, ou desfrutá-las numa versão mais ousada, com vinho do Porto ou conhaque. Aliás é ótima para servir em festas, você prepara na véspera e só põe no forno na hora que for adequada. Bon appetit!

2 histórias se cruzam por um instante e 4 séculos: Solar de Mateus e Mateus Rosé

Portugal tem muitas marcas de vinhos populares ao redor do mundo, por exemplo, Casal Mendes, Periquita, Calamares, Casal Garcia e o Mateus Rosé, para mencionar alguns. Curiosamente, o Mateus Rosé não é muito popular por aqui, porém foi a primeira marca portuguesa de vinho apreciada mundialmente, estando presente em 125 países, há várias décadas.

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A história do Mateus Rosé começa em 1942, quando Fernando Van Zeller Guedes, o fundador da gigante de vinhos portuguesa, Sogrape, criou um conceito distinto, apresentado numa garrafa inovadora. A garrafa foi inspirada nos cantis usados pelos soldados na Primeira Guerra Mundial. O tal vinho era diferente: cor-de-rosa, adocicado, refrescante e com uma efervescência ligeira. O rótulo foi uma homenagem ao grandioso património histórico português.

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Antiga garrafa de Mateus à venda no eBay.

O vinho especialmente concebido para os mercados norte-americano e do norte da Europa, cresceu rapidamente nas décadas de 1950 e 1960 e, no final da década de 80, junto com a versão de branco, representou quase 40% da exportação total de vinho de mesa de Portugal.

No início dos anos 70, Mateus Rosé era o vinho mais popular do mundo. A Rainha Elizabeth está até hoje entre suas fiéis consumidoras. Diz a lenda que a Rainha ficou insatisfeita com a selecção de vinhos oferecida em uma festa privada no Hotel Savoy em Londres no início dos anos 60 e pediu ao maitre que lhe trouxesse Mateus.

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Jimmy Hendrix curtindo um Mateus.

Hoje, o vinho perdeu um pouco de sua popularidade internacional, mas mesmo assim milhares  de estrangeiros (70% dos 80.000 visitantes anuais) buscam o edifício que corre o mundo no rótulo do Mateus Rosé. O Palácio ou Solar de Mateus está situado na freguesia de Mateus, concelho de Vila Real, Distrito de Vila Real e foi construído na primeira metade do século XVIII pelo 3º Morgado de Mateus, António José Botelho Mourão para substituir a casa da família, já existente no local, desde o início do século XVII.

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Um Solar para chamar de seu.

Segundo especialistas, a construção da casa, ou pelo menos de sua fachada central e decoração, é atribuída ao artista, decorador e arquiteto italiano Nicolau Nasoni (Toscana, 2 de Junho de 1691 – Porto, 30 de Agosto de 1773), considerado um dos mais significativos arquitetos da cidade do Porto durante o século XVIII.

A fachada do palácio se destaca pela dupla escadaria que conduz à porta principal, sobre a qual aparece o escudo familiar flanqueado por duas estátuas. No interior,  pode-se visitar uma biblioteca que abriga livros do século XVI, valiosos móveis, porcelanas e quadros e um pequeno museu onde se encontra 1 edição de “Os Lusíadas” de Luís de Camões, da qual só se produziram 200 exemplares. Parte da casa é fechada à visitação, pois ainda é habitada pela família.

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O palácio encontra-se rodeado por um lindo jardim cravado de belas estátuas. Chama a atenção, uma escultura de 1981, de João Cutileiro – Dorme no Lago. E muitas vinhas. Porém, o vinho rosado das garrafinhas bojudas não é feito aqui. O Palácio produz um vinho sim, mas o Porto Quinta da Costa das Aguaneiras. Exatamente, tudo que os 2 têm em comum é a fachada da mansão no rótulo mundialmente famoso e nada mais.

Em 1911, o Palácio de Mateus foi classificado como Monumento Nacional. Acima de tudo, a Casa de Mateus é hoje uma fundação privada, criada para proteger e divulgar o patrimônio histórico e fomentar a atividade cultural.

E mesmo que estas 2 histórias se cruzem por um momento muito mais breve do que eu poderia esperar, recomendo tanto a visita ao Palácio quanto uma boa garrafa de Mateus.

Fonte: Vinho Mateus Rosé e Casa de Mateus

Por que vinho tem aroma de abacaxi, canela ou madeira? Alguém colocou tudo isto lá? Descubra aqui o segredo para esta pergunta que não quer calar.

Existem bem mais de 100 compostos aromáticos individuais no vinho que interagem uns com os outros para criar milhares de aromas potenciais. Ainda assim, apesar do que você possa ter ouvido, não importa se você é um super provador ou aquele tipo de cara que gira a taça e cheira em desespero sem sentir absolutamente nada, quase todo mundo pode melhorar o seu olfato, aprendendo a identificar diferentes aromas no vinho. Isso soa complicado, mas se resume simplesmente a praticar e prestar muita atenção – e é claro que anotar umas dicas do Master Sommelier Matt Stamp, não vai fazer mal para ninguém.

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Aroma pra caramba!

Se você já detectou aromas distintos no vinho, provavelmente você está a caminho de aprender a identificar diferentes classes de aromas. Por exemplo, você pode ter encontrado uma nota de pimentão verde, grama recém cortada ou até mesmo cheiro de gasolina. Por mais complexa que seja a ciência dos aromas, existem algumas classes  de compostos muito conhecidos, referidos como compostos de impacto, que são prevalentes em certos vinhos. Estes compostos de impacto são como indicadores muito relevantes, apontando para um varietal e não outro, o que significa que aprender a identificá-los pode desbloquear habilidades sobrenaturais de degustação tipo o Masters da vida. Da próxima vez que você provar um vinho, tente identificar o seguinte:

1.Pirazinas (metoxipirazina)
Aromas de pimentão, grama cortada fresca, pimentão verde, aspargos, ervilha e terra.
Vinhos: Cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec, Carménère, Sauvignon Blanc e Cabernet Franc.
As pirazinas são mais associadas com variedades de Bordeaux. Em vinhos tintos, é muitas vezes um toque mais difícil de sentir e às vezes pode ser associada com aroma de chocolate amargo. A maioria dos enófilos adoram estes aromas nos seus brancos, mas o tomam com reserva nos tintos. Curiosamente, à medida que os vinhos tintos envelhecem, a pirazina modifica-se, revelando cereja e chocolate.
Existem 3 metoxipirazinas primárias que contribuem com aromas “vegetais”:
. 2-metoxi-3-isobutil-pirazina (IBMP) = aromas de pimentão, terra, grama e herbáceos;
. 2-metoxi-3-isopropilpirazina (IPMP) = aromas de aspargos, ervilhas e terra;
. 2-metoxi-3-alquilpirazina = aromas de noz e defumados.

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2. Monoterpeno
Aromas de rosas, flores, frutas doces, mexerica, coentro e especiarias doces.
Vinhos: Gewürztraminer, Viognier, Riesling, Albariño, Muscat Blanc e Torrontés.
Os monoterpenos mais pronunciados incluem os compostos de Linalol, Geraniol e Nerol. Estes são os mesmos compostos aromáticos utilizados para criar perfumes, sabonetes e xampus com aromas doces por isso não é nenhuma surpresa que algumas pessoas possam descrever estes vinhos como tendo um cheiro de sabonete. O que é interessante sobre estes aromas é que ao contrário dos outros compostos, você pode senti-los nas frutas, ou seja, eles independem da vinificação.

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3. Sotolona
Aromas de curry, xarope de bordo (o famoso maple syrup), feno-grego, nozes e melaço.
Vinhos: oxidados como Madeira, Vin Jaune, Jerez, Sauternes e alguns tintos ou Chardonnays bem antigos.
Este é o principal composto de sabor encontrado no feno-grego. No vinho, provém da oxidação e é mais prevalente em vinhos fortificados como o Jerez e o Madeira. Você também pode prová-lo se você envelhecer um vinho branco por cerca de 7 a 10 anos, este aroma é intrigante e fundamental para identificar vinhos antigos.

 

Maple Syrup: aproveite para provar fora do Brasil. Taí um aroma difícil para nós. Feno-grego é mais fácil de encontrar. Vire um rato de feiras, supermercados e floriculturas.

4. Rotundona
Aromas de pimenta preta, manjerona, couro, cacau em pó e ervas.
Vinhos: Syrah ou Shiraz, Grenache, Zinfandel, Petite Sirah, Grüner Veltliner e Mourvèdre.
Este composto é o ingrediente chave nas pimentas preta e branca e é cerca de 10.000 vezes menos prevalente no vinho. Ainda assim, a sensibilidade humana a este composto é muito elevada, por isso desempenha um papel importante nos perfis de sabor dos vinhos que o contêm.

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5. Compostos de Enxofre
Podem ser o segredo da super discutida origem da mineralidade no vinho.
Vinhos: Chablis e Champagne
Alguns compostos de enxofre têm notas fantásticas, como o aroma de giz num excelente Chablis. Outros são bem ruins, como cheiro de lã molhada,  considerado uma falha no vinho causada pela exposição à luz solar.

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6. TDN (1,1,6, -trimetil-1,2-di-hidronaftaleno)
Aromas de querosene, petróleo e diesel.
Vinhos: possivelmente em Sauvignon Blanc e Chardonnay, mas é mais perceptível (e amado) no Riesling.
Este aroma é um dos poucos compostos que quase inexistem em uvas ao natural e se desenvolvem nos vinhos à medida que envelhecem. Os vinhos com notas mais pronunciadas de gasolina vêm de vinhedos mais quentes porque este composto se desenvolve com uvas expostas à forte luz solar.

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7. Diacetil
Aromas de manteiga e creme de leite.
Vinhos que sofreram fermentação maloláctica.
Este composto é muito mais pronunciado em vinhos brancos, mas acrescenta um aspecto muitas vezes descrito como cremoso ou aveludado ao vinho tinto. O diacetil se origina no processo de pós-fermentação chamada fermentação maloláctica que envolve bactérias que consomem o ácido málico e o transformam em ácido láctico. O resultado é um vinho incrível com aroma e textura cremosos e amanteigados . Pouquíssimos vinhos brancos passam por este processo é esta uma das principais razões para que tenham um sabor muito diferente dos vinhos tintos.

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Creme e manteiga. Uma delícia fora e nos vinhos.

Além da maravilha que o vinho como ser vivo representa, através de sua riqueza de compostos, fermentação e envelhecimento, teoriza-se que a videira desenvolveu estes compostos de aroma como um avanço evolutivo para atrair insetos e animais para auxiliar na polinização e dispersão de sementes. Não vamos desapontá-las, não é mesmo?

Créditos fotos: internet.

Fonte: a sempre brilhante http://winefolly.com/tutorial/impact-compound-aromas/

Aposto que desta uva você nunca ouviu falar.

A uva Goethe, também chamada de Rogers 1, é uma híbrida, ou seja, uma uva criada pela mistura com outras. No caso da Goethe, ela foi criada por um cientista americano, E. S. Rogers, e faz parte de um grupo de 45 variedades criadas por ele, em meados do séc. XIX em Massachusetts. O conjunto delas foi chamado de Roger’s Hybrids e em 1862 já aparecia em catálogos de plantas. Ela apareceu no Brasil a partir de 1877 durante colonização italiana. Ou seja, não é exatamente uma novidade. Novidade é o sucesso que ela vem fazendo no sul de Santa Catarina.
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A Goethe é a soma por polinização de 13% de Vitis Labrusca (uvas de mesa, não viníferas ou também chamadas americanas), no caso, a variedade Carter com 87% de 2 uvas viníferas (uvas europeias próprias para a elaboração de vinhos), neste caso as variedades Moscatel de Hamburgo e Chasellas branca.

A Moscatel de Hamburgo é muito aromática, agradável e dá vinhos bem frescos e frutados. A Chasellas é uma das principais variedades suíças (da denominação de origem Valais) e da região fronteiriça francesa que resulta em brancos com boa acidez, vinhos ótimos para fondue, por exemplo. E quando a gente fala de uvas brancas com boa acidez, logo lembramos de espumante, como este produzido com a Goethe.

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Esta uva se adaptou bem às condições climáticas e aos solos da região de Urussanga, no sul de Santa Catarina e foi amplamente difundida entre os colonos da região. O cultivo da uva Goethe é raro por que sua acidez limita um pouco sua utilização enológica e além disso ela pode ser sensível sob certas circunstâncias climáticas. Porém, o entusiasmo econômico gerado pela casta, nesta região foi tanto que o selo de indicação geográfica de procedência Vale das Uvas Goethe foi conquistado em 2011 e implatado em 2013.

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O calcanhar de Aquiles de todo este sucesso é a utilização da uva americana Carter na formação da Goethe. Os híbridos são, por exemplo, proibidos na Europa e vêm sendo extirpados de várias partes do mundo, porque produzem aqueles vinhos com gostinho de vinho de garrafão. Aqui no Brasil, as uvas americanas ou de mesa são parte da cultura vitivinícola do país e bem aceitos pela maioria dos consumidores brasileiros.

E você, já parou para pensar na uva que compõe o seu vinho?

Fontes:  Vales da Uva GoetheProgoethe

O primeiro vinho cult do mundo, um escravo rebelde e nossa última história de 2016.

Quem acompanha a gente no Instagram, deve ter notado o nosso interesse pela série Spartacus. Spartacus foi um trácio (a Trácia ficava mais ou menos onde hoje é a Turquia) e de aliado dos romanos ele rapidamente se transformou em escravo deles, gladiador e líder da maior revolta de escravos durante o Império Romano (mais ou menos no ano 73 a.C.).

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A série, que eu assisti no Netflix,  é muito interessante para quem gosta de história, pois mostra vários elementos da vida romana na época. Um deles, é claro, é o vinho. Todo mundo sabe que os gregos trouxeram as videiras para a Itália e gostaram tanto do vinho resultante que chamaram esta terra de Enotria (terra das vinhas). Não demorou para que os romanos também adorassem seu vinho e o consumissem frequentemente.

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Os romanos achavam que deviam “popularizar” o consumo de vinho. Por isso, incentivavam o populacho a consumi-lo. Por exemplo, os escravos bebiam a  lora, feita com a imersão do mosto das uvas prensadas 2 vezes em água por um dia e então prensada uma terceira vez. O exército romano bebia a posca, uma mistura de água e um vinho quase tão ácido como o vinagre que fazia parte de sua ração, já que possuía níveis de álcool mais baixos. Não era à toa que o vinho era misturado à água do mar, mel, especiarias e ervas. O vinho do povão era feito com uvas tintas, pois a nobreza romana bebia vinho branco. E adorava o vinho de Falerno.

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O vinho de Falerno era produzido com uvas Aglianico (e possivelmente Greco também ) nas colinas do Monte Falernus, perto da fronteira do Lácio e da Campânia, onde se tornou o vinho mais famoso produzido na Roma antiga. Considerado o primeiro “vinho cult”, foi frequentemente mencionado na literatura romana, mas desde então desapareceu. Havia 3 vinhedos (ou denominações) reconhecidos pelos romanos: Caucinian Falernian das vinhas nas encostas mais altas do Monte Falernus; Faustian Falernian, o mais famoso, da terra nas inclinações centrais que correspondem às áreas montanhosas atuais da cidade de Falciano del Massico e Carinola di Casanova, propriedade de Fausto, filho do ditador romano Sila.

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O Falerno era um vinho branco com um índice relativamente alto do álcool, possivelmente  15%, por isso frequentemente pegava fogo se aproximada à chama de uma vela. O vinho era produzido a partir de uvas colhidas tardiamente após um breve congelamento ou uma série de geadas, era envelhecido por 15 a 20 anos em ânforas de argila e por isso possuía uma cor âmbar quase castanho escuro. Havia 3 variedades: Seco (Latino austerum), doce (Dulce) e leve (Tenue).

A qualidade e preço diferente para os vinhos romanos fica clara nesta antiga inscrição encontrada numa parede em ruínas de um bar em Pompéia.

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Invicto Castrense que seus 3 deuses sejam favoráveis e assim também seja para o leitor.

Viva Edoné! Boa saúde para o leitor.

Edoné diz:

Aqui você bebe por 1. Mas se você me der 2, você vai beber vinhos melhores e se você me der 4, eu vou fazer você beber um Falerno.

Vida longa a Castrense.

Exatamente, para os romanos, o vinho nobre era o branco. Muita gente tem reservas com este tipo de vinho, mas eu proponho que em nosso verão de 42 graus, você se abra e prove o vinho branco, seja o tranquilo, o espumante e inclusive o vinho verde português. Atreva-se a combiná-lo com nosso pratos de fim de ano: salmão, bacalhau, pernil, peru e claro o nosso tradicional churrasco do dia 1º. Tudo depende do grau de doçura e açúcar para combinar bem.

Provavelmente este será nosso último post em 2016, já que estamos na praia curtindo a preguiça de final de ano. Um maravilhoso 2017 com mais histórias e vinhos!

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Receita fácil para o fim do ano. Com história e vinho é claro!

Durante as minhas andanças, eu acabo encontrando por aí estruturas cujo uso eu desconheço. Um bom exemplo disso é o super tradicional espigueiro, usado principalmente no norte de Portugal para armazenar o milho durante o inverno. Ele tem estas perninhas para não entrar em contato com a humidade do solo e afastá-lo dos roedores. Ao mesmo tempo tem estas fissuras nas parede para manter o milho ventilado.

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Quem segue o blog sabe que eu já andei bastante por aí e conheci muita coisa. Mas a gente nunca pára de aprender, então, não é que numa visita ao território português de Trás-os-Montes, dei de cara com isto:

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Esta estrutura arredondada às vezes bem no meio das casas, às vezes no meio do nada. Parecia algo para armazenar água já que é uma região bem árida, pertinho da fronteira com a Espanha, mas não fazia sentido. Estavam bem detonadas, ou seja era algo antigo. Que poderia ser??

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Não controlei a minha curiosidade e assim que parei num barzinho, perguntei o que era aquilo e me disseram que era um pombal. Congelei por alguns segundos tentando imaginar com a minha mente brasileira e urbana porque alguém ía construir uma casa para pombos? Discreta como sou, descongelei e gritei: juraaaaaa? porque? O entrevistado me olhou com cara de pena por tanta ignorância e disse: para comer.

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ECA!

Na hora, imaginei as pombas da Praça da Sé em meio ao lixo e restos de alimentos numa panela. Impossível. Hora da pesquisa. O pombo em questão é o pombo selvagem de uma espécie específica, caçada em determinadas regiões da Europa.

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Pombo selvagem

Há registros de pombais na China antiga e na civilização egípcia. Na Idade Média eles eram tão valorizados que possuí-los era uma prerrogativa dos barões donos das terras. Além de intocáveis, tinham até o direito de comer os grãos da vassalagem.

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Pombo King

Nas Américas, este tipo de animal não existe, mas algumas avícolas dos EUA criam o pombo King para abate, eles são branquinhos, possuem  mais massa corporal e, especialmente,  peito carnudo. Estas aves eram consumidas em tortas, guisadas ou ao forno.

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Vai uma receitinha de pombo aí para ficar com água na boca? É claro que leva vinho!

Ingredientes:
2 pombos depenados e eviscerados
Ervas como tomilho, sálvia e alecrim a gosto
4 dentes de alho picadinhos
2 colheres de sopa de azeite
25g de manteiga
2 fatias grossas de pão tipo italiano
150ml de vinho tinto
Sal e pimenta a gosto

  1. Aqueça o forno a 220C / 200C.
  2. Tempere as aves com sal e pimenta a gosto, inclusive por dentro e coloque ervas e azeite nas cavidades de cada uma.
  3. Aqueça o azeite e a manteiga em uma panela rasa para forno, e doure as aves por 5 minutos em todos os lados. Retire os pombos e frite o pão de um lado até ficar crocante e dourado, adicionando mais manteiga à panela se precisar.
  4. Vire o pão e coloque um pombo em cada fatia de pão. Espalhe as ervas e o alho restantes na panela, e despeje o vinho. Leve ao forno por 20 minutos, em seguida, retire e deixe descansar por 10 minutos. Sirva o pombo diretamente na panela com o pão. Acompanhe com arroz e batatas se achar legal.

Até onde eu pesquisei, não existe criação de pombo comestível no Brasil, portanto antes de comprar, cuidado para não levar gato por lebre. Ou qualquer outra coisa…

E nem imagine em sair correndo pela pracinha pegando qualquer bicho que esteja meio cochilando nos bancos.

Resista e tente a receita com carnes como a perdiz, o galeto ou mesmo o bom e velho frango. Combine com Cabernet, Tannat ou um Sangiovese, qualquer tinto que seja bem encorpado para enfrentar esta carne de caça com temperos fortes. Bom apetite.

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Que terror! Vai entender: dia das Bruxas, dia de Todos os Santos, dia dos Mortos … e seu vinho perfeito.

Se você, como eu, está confuso com o que é Dia das Bruxas, Dia de Todos os Santos e Dia dos Mortos, prepare-se porque este post vai esclarecer todas as suas dúvidas.

31 de outubro – Dia das Bruxas

O tal do Halloween é celebrado em grande parte dos países ocidentais, porém é mais presente nos (filmes de terror dos) Estados Unidos. O costume foi introduzido neste país, pelos imigrantes irlandeses em meados do séc. XIX.

A história desta data comemorativa tem mais de 2500 anos. Surgiu entre os celtas, que acreditavam que no último dia do verão (31 de outubro), os espíritos saiam dos cemitérios para tomar posse dos corpos dos vivos. Para assustar estes fantasmas, os celtas colocavam nas casas, objetos assustadores como, por exemplo, caveiras, ossos decorados, abóboras enfeitadas entre outros.

Por ser uma festa pagã foi condenada na Europa durante a Idade Média, quando passou a ser chamada de Dia das Bruxas. Por que não comemoramos este dia? Bem, porque os celtas não nos deram o prazer de sua companhia em tempos de outrora e por que a Inquisição da Igreja Católica para acabar com este fuá, começou a perseguir e condenar à fogueira quem ficava de graça por aí neste dia. Quando os europeus chegaram aqui, meio que não havia mais (leia-se, já eram) tanta gente interessada no costume.

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Os notórios excessos do Halloween…

1º de Novembro – Dia de Todos os Santos

Segundo os católicos, o Dia de Todos os Santos é uma festa em “honra a todos os santos, conhecidos e desconhecidos”. Santo Desconhecido? Ué? Mais confuso? Eu também. Voltemos as origens da celebração, ou seja ao fim do séc. II, quando os cristãos começaram a honrar os que haviam sido martirizados por sua fé e, acreditando que eles já estavam com Cristo no céu, oravam a eles para que intercedessem a seu favor. A comemoração regular começou em 13 de maio de 609 ou 610, quando o então Papa Bonifácio IV dedicou o Panteão (o templo romano em honra a todos os deuses) à Maria e a todos os mártires. Maio? Agora que achei que havia entendido….

O ponto é que a data foi mudada para novembro quando o Papa Gregório III (731-741) dedicou uma capela em Roma a Todos os Santos e ordenou que eles fossem homenageados em 1.° de novembro. Assim, sem mais nem menos. Talvez, porque o “Samhain” continuava a ser uma festa popular entre os povos celtas durante todo o tempo da cristianização da Grã-Bretanha e a Igreja Britânica tentou desviar esse interesse em costumes pagãos, acrescentando uma comemoração cristã ao calendário, na mesma data do “Samhain”. Daí o resto virou história.

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2 de novembro – Dia dos Mortos (Finados)

Para o pessoal que insistia em infernizar a vida da Igreja, com o perdão do trocadilho, com o tal Halloween, Samhain ou seja lá o que fosse, criou-se, além do dia de Todos os Santos o Dia de Finados, tentando assim  diminuir as influências pagãs na Europa Medieval.

O que fica claro é que o fim do verão era uma data muito pertinente para os celtas que habitaram a Península Ibérica por um bom tempinho, vindos da Irlanda, tanto que a cidade de Bragança, ao norte de Portugal, possuía o nome celta de Brigância. Esta cidade localizada em Trás-os-Montes abrigava um povo duro, acostumado a uma vida de comida escassa e temperaturas extremas, principalmente no inverno.

O que não impediu que em 1808 os franceses invadissem a região levando o povo transmontano a esconder todos os bens que haviam obtido a duríssimas custas. Seu vinho, por exemplo, enterram embaixo da terra, nas adegas e lagares. Quando os invasores se foram e os trasmontanos puderam recuperar seus bens, pensaram que o vinho estivesse estragado, porém ao experimentá-lo, tiveram uma bela surpresa: com o tempo passado sob o solo vinho havia adquirido novas propriedades e estava muito melhor. Pronto, daí nascia o Vinho dos Mortos, perfeito para brindar sem espanto este final de semana.

 

A Música Portuguesa a Gostar dela Mesma

A ampla cultura Portuguesa, influenciada por inúmeras raças e culturas ao longo dos séculos, mas muito arraigada em costumes milenares, obviamente produziu um espectro de atividades muito típicas.

Eu confesso que a música não é uma das coisas que mais me chama a atenção num país, porém nesta viagem, observei muitos estilos diferentes e gostaria de compartilhar com vocês.

Fica de fora o magnifico Cante Alentejano que eu ainda não assisti pessoalmente. Tá na lista.

Estas senhoras de Várzea de Calde têm sua vida em família e trabalho, mas se dedicam a uma modalidade musical muito interessante. No Rancho, enquanto cantam, mostram suas atividades diárias. É uma maneira importante de manter viva as tradições de sua aldeia.
Rancho de Várzea de Calde

Os celtas ocuparam a península ibérica antes de Cristo, acho uns 5 séculos talvez, mas deixaram muitas marcas e a música foi uma delas. Eu adoro, especialmente nas festas medievais que são uma viagem no tempo. 
Festa Medieval

A Cerimônia do Toco é realizada em Várzea de Calde no dia 03 de outubro de cada ano, a idéia é trazer os melhores e maiores pinheiros para as senhoras que passam a noite orando por São Francisco de Assis, o padroeiro da aldeia, se sentirem aquecidas. Acabou foi em festa. Vai vendo os pés de valsa brasileiros se soltando…
Baile na Cerimônia do Toco

Ama Portugal e está com o coração apertado de saudades? Então curte 1 minuto desta concertina típica de festas populares.
Concertina, a música da festa do povo.

Este vídeo é sobre o que é uma tuna, especificamente a de Lamego para seu deleite. Formadas por universitários com o objetivo de bancar suas despesas, principalmente os “extras”, elas são uma herança centenária de Espanha. Eu adorei a beleza da apresentação discreta, mas cheia de charme.
As tunas foram uma descoberta.

Você sabe a diferença entre turista e viajante?

O turista é a pessoa que gosta de visitar lugares. Observa, prova e tira muitas fotos tendo sem dúvida uma experiência agradável.

Já o viajante se propõe a explorar o novo e se mesclar ao lugar e à cultura local. É claro que esta pessoa também vai observar, provar e tirar fotos. Porém mais que isso vai viver e conviver em cada momento. É turismo de convivência e essa é a nossa proposta.

Olha só como nosso grupo se divertiu tecendo num tear tradicional, fazendo pão no forno à lenha para depois comê-lo com sardinhas na brasa e participando de uma vindima da aldeia.

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