Conheça Colares um vinho raro que triunfa na adversidade há séculos

Escondida atrás da Serra de Sintra, a apenas 40 minutos de Lisboa, está a valente Colares, uma pequena DOC portuguesa que contra todas as probabilidades, faz um vinho maravilhoso há séculos e revela seus segredos apenas a quem se atreve a desbravá-la.

DSC06281

A Região Demarcada de Colares, limitada a oeste pelo Oceano Atlântico e a sul pela Serra de Sintra, inclui parte da união das freguesias de São João das Lampas e Terrugem e parte da união das freguesias de Sintra, todas do Conselho de Sintra.  Para começar, Sintra já é um passeio imperdível para quem visita Lisboa. É também chamada de cidade de contos de fadas, pois está repleta de palácios encantadores que parecem saídos direto de um dos livros de princesa da Disney e imensos parques naturais com bosques de vegetação exuberante. Esta cidadezinha, Patrimônio Mundial da UNESCO, é a prova de que o homem pode interferir na paisagem e realçar a natureza.

DSC_0277
Castelo da Pena em Sintra, visto de Colares
DSC06132
A linda cidade de Sintra, Patrimônio Mundial da Unesco.

 

 

 

 

 

 

 

Colares é região demarcada desde 1908, a DOC mais ocidental da Europa continental e a menor região produtora de vinhos tranquilos de Portugal. No começo de sua história, possuía 1.818 hectares, 1.690 em chão de areia e 128 em solo rijo. O granito domina as áreas montanhosas e o terreno arenoso as áreas mais baixas. E foi graças aos seus terrenos arenosos, onde a filoxera não conseguia penetrar, que estas vinhas sobreviveram à violenta invasão desta praga que em 1865 iniciou a devastação de grande parte das regiões vinícolas portuguesas. Além disso, esta combinação de granito nas colinas e areia nas áreas baixas desenham uma paisagem espetacular.

Logo Colares alcançou fama nacional com seus vinhos de castas autóctones cheios de personalidade, reconhecidos por figurões da época em todo Portugal. Em 1866, Ferreira Lapa, professor catedrático do Instituto Superior de Agronomia, dizia “O Colares é um vinho que possue todos os requesitos (sic) e qualidades dos vinhos tintos de Medoc. É o vinho mais francês que possuímos”. Antonio Batalha Reis escreveu em 1873: “Os nossos Colares tintos têm muito do Bordéus fino, e pena é que cuidados especiais não elevem estes vinhos à altura que lhes compete”.

IMG_7085

No entanto, esta fama, aliada às sérias limitações à produção, provocaram problemas. Na virada do séc. XX,  a demanda era muito maior que a produção e alguns produtores mais ambiciosos começaram a acrescentar aguardente ao produto original que quando não era misturado, só era encontrado a preços exorbitantes. Como a lei do mercado é impiedosa, logo a demanda pelo produto caríssimo e muitas vezes falsificado cai e a região demarcada entra em crise. Uma DOC inteira estava em perigo até que em 19 de setembro de 1934, publicava-se o estatuto da Região de Colares como verdadeira carta-magna do vinho de Colares.

DSC_0691

Porém, alguns anos antes, em 1931, havia sido fundada a Adega Regional de Colares, cujo papel foi fundamental na existência desta DOC para regulamentar e também apoiar os produtores locais. Esta é a mais antiga adega cooperativa de Portugal e reúne até hoje a maioria dos produtores da região demarcada de Colares. A utilização da DOC no rótulo implica na vinificação, pelo menos parcial pela Adega.

Outra característica muito especial de Colares é o modo bem diferente como foi feito o plantio destas vinhas: abriam-se valas que quase podemos chamar de trincheiras, pois têm profundidade de 3 a 8 metros na busca por terreno argiloso, já que sem ele a planta morre no verão por falta de humidade. Tradicionalmente, os experimentados trabalhadores que faziam este trabalho à mão devido à irregularidade do terreno se dividiam em 3 grupos. O 1° tirava a areia, o 2° afastava e o 3° ía cavando, portanto trabalhava nas piores condições de segurança e para se proteger, utilizavam cestos que colocavam na cabeça ao menor sinal de deslizamento para evitar a asfixia imediata e aguardar socorro. Barra pesada.


Colares, prioriza 2 castas, a tinto Ramisco e a branca Malvasia de Colares, ambas castas autóctones de pé franco.Como dizia Joaquim Rasteiro, ex-Ministro da Agricultura, em 1926: “A Ramisco é a casta característica e a que lhe dá um cunho distinto, mas o Ramisco criado nas areias movediças da dunas Atlânticas e absorvendo as contínuas massas de humidade que descem da serra. As cepas são rasteiras e descansam as varas na areia, sendo defendidas contra a violência dos ventos vindos do Oceano por abrigos de canas e mato.”

Além da proteção contra o vento, os cachos têm que ser protegidos contra o contato com o solo. Exatamente, com as vinhas rasteiras, as frutas entram em contato com a areia e podem se deteriorar. Cada cacho tem que ser levantado com uma pequena estaca para manter-se seco e são. O micro-clima aqui é muito peculiar. É bastante frio, a neblina raramente se levanta antes do meio-dia. Depois disto normalmente há sol quente até o fim da tarde quando o nevoeiro retorna novamente. O vento sopra constantemente. Incrivelmente, graças à proximidade de Sintra e Lisboa, esta região sofre uma agressiva especulação imobiliária, que aliada às dificuldades de cultivo e limitações de volume tem feito cada vez menos atraente a produção deste vinho.

Hoje, daqueles quase 2.000 hectares, só restam  12 a 15 hectares.  Você leu certo. Na verdade é bem difícil encontrar as escassas áreas de vinha da região. Você tem que se meter em pequenas estradas na região de Azenhas do Mar e espiar por entre estas proteções. Às vezes são macieiras, às vezes vinhas. Às vezes não há mais nada. As plantações estão simplesmente sendo abandonadas. Fui em 2013 e voltei em 2015. Muitas vinhas haviam tristemente desaparecido no areal ou sido tragadas pelo mato no mais puro abandono.

DSC06266

A produção anual é pouco superior aos 20 mil litros e se resume a 4 produtores: a Adegas Beira Mar, a Adega Regional de Colares, a Adega Viúva Gomes e a Fundação Oriente. O engarrafador oficial é sempre a Adega Regional de Colares, que fornece a maioria do vinho.

Aproveite que você está por aqui e desfrute da bela da paisagem além de almoçar. A culinária regional é fantástica e obviamente baseada nos frutos do mar muito frescos.

Como sou fã destes vinhos e vou sempre que posso a Colares, já provei arroz de mariscos, polvo a lagareiro, os mexilhões e a peixada. Todos vão muito bem com o Malvasia de Colares. Um branco gastronômico, ácido, com frutos cítricos em nariz e em boca e uma mineralidade quase salgada que remete imediatamente ao seu terroir.

A tão comentada Ramisco é uma uva ácida e tânica, por isso o potencial de envelhecimento dos Ramisco de Colares que passam cerca de 4 anos em barrica ou tonéis antes de ser posto no mercado. Procure por exemplares com uns 10 anos para usufruir o melhor deste vinho. Prepare-se para belas frutas como ameixas, notas de fumo e couro tudo equilibrado com uma boa acidez e taninos presentes. E é claro, o balsâmico que caracteriza os vinhos mais antigos.

 

Diz  o Google que a Sociedade da Mesa importou vinhos de Colares em algum momento de 2013. Não sei se procede e no site não há informações, mas fica a dica.

E não perca a oportunidade de provar estes grandes vinhos se estiver perambulando por Portugal. Saúde!

Fonte: O Vinho de Colares – Edição da Adega Regional de Colares – 1938 (reimpressão do original)

3 comentários sobre “Conheça Colares um vinho raro que triunfa na adversidade há séculos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s