Conheça Colares um vinho raro que triunfa na adversidade há séculos / Colares a rare wine that has been triumphing in adversity for centuries

Escondida atrás da Serra de Sintra, a apenas 40 minutos de Lisboa, está a valente Colares, uma pequena DOC portuguesa que contra todas as probabilidades, faz um vinho maravilhoso há séculos e revela seus segredos apenas a quem se atreve a desbravá-la.

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A Região Demarcada de Colares, limitada a oeste pelo Oceano Atlântico e a sul pela Serra de Sintra, inclui parte da união das freguesias de São João das Lampas e Terrugem e parte da união das freguesias de Sintra, todas do Conselho de Sintra.  Para começar, Sintra já é um passeio imperdível para quem visita Lisboa. É também chamada de cidade de contos de fadas, pois está repleta de palácios encantadores que parecem saídos direto de um dos livros de princesa da Disney e imensos parques naturais com bosques de vegetação exuberante. Esta cidadezinha, Patrimônio Mundial da UNESCO, é a prova de que o homem pode interferir na paisagem e realçar a natureza.

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Castelo da Pena em Sintra, visto de Colares
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A linda cidade de Sintra, Patrimônio Mundial da Unesco.

 

 

 

 

 

Colares é região demarcada desde 1908, a DOC mais ocidental da Europa continental e a menor região produtora de vinhos tranquilos de Portugal. No começo de sua história, possuía 1.818 hectares, 1.690 em chão de areia e 128 em solo rijo. O granito domina as áreas montanhosas e o terreno arenoso as áreas mais baixas. E foi graças aos seus terrenos arenosos, onde a filoxera não conseguia penetrar, que estas vinhas sobreviveram à violenta invasão desta praga que em 1865 iniciou a devastação de grande parte das regiões vinícolas portuguesas. Além disso, esta combinação de granito nas colinas e areia nas áreas baixas desenham uma paisagem espetacular.

Logo Colares alcançou fama nacional com seus vinhos de castas autóctones cheios de personalidade, reconhecidos por figurões da época em todo Portugal. Em 1866, Ferreira Lapa, professor catedrático do Instituto Superior de Agronomia, dizia “O Colares é um vinho que possue todos os requesitos (sic) e qualidades dos vinhos tintos de Medoc. É o vinho mais francês que possuímos”. Antonio Batalha Reis escreveu em 1873: “Os nossos Colares tintos têm muito do Bordéus fino, e pena é que cuidados especiais não elevem estes vinhos à altura que lhes compete”.

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No entanto, esta fama, aliada às sérias limitações à produção, provocaram problemas. Na virada do séc. XX,  a demanda era muito maior que a produção e alguns produtores mais ambiciosos começaram a acrescentar aguardente ao produto original que quando não era misturado, só era encontrado a preços exorbitantes. Como a lei do mercado é impiedosa, logo a demanda pelo produto caríssimo e muitas vezes falsificado cai e a região demarcada entra em crise. Uma DOC inteira estava em perigo até que em 19 de setembro de 1934, publicava-se o estatuto da Região de Colares como verdadeira carta-magna do vinho de Colares.

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Porém, alguns anos antes, em 1931, havia sido fundada a Adega Regional de Colares, cujo papel foi fundamental na existência desta DOC para regulamentar e também apoiar os produtores locais. Esta é a mais antiga adega cooperativa de Portugal e reúne até hoje a maioria dos produtores da região demarcada de Colares. A utilização da DOC no rótulo implica na vinificação, pelo menos parcial pela Adega.

Outra característica muito especial de Colares é o modo bem diferente como foi feito o plantio destas vinhas: abriam-se valas que quase podemos chamar de trincheiras, pois têm profundidade de 3 a 8 metros na busca por terreno argiloso, já que sem ele a planta morre no verão por falta de humidade. Tradicionalmente, os experimentados trabalhadores que faziam este trabalho à mão devido à irregularidade do terreno se dividiam em 3 grupos. O 1° tirava a areia, o 2° afastava e o 3° ía cavando, portanto trabalhava nas piores condições de segurança e para se proteger, utilizavam cestos que colocavam na cabeça ao menor sinal de deslizamento para evitar a asfixia imediata e aguardar socorro. Barra pesada.


Colares, prioriza 2 castas, a tinto Ramisco e a branca Malvasia de Colares, ambas castas autóctones de pé franco.Como dizia Joaquim Rasteiro, ex-Ministro da Agricultura, em 1926: “A Ramisco é a casta característica e a que lhe dá um cunho distinto, mas o Ramisco criado nas areias movediças da dunas Atlânticas e absorvendo as contínuas massas de humidade que descem da serra. As cepas são rasteiras e descansam as varas na areia, sendo defendidas contra a violência dos ventos vindos do Oceano por abrigos de canas e mato.”

Além da proteção contra o vento, os cachos têm que ser protegidos contra o contato com o solo. Exatamente, com as vinhas rasteiras, as frutas entram em contato com a areia e podem se deteriorar. Cada cacho tem que ser levantado com uma pequena estaca para manter-se seco e são. O micro-clima aqui é muito peculiar. É bastante frio, a neblina raramente se levanta antes do meio-dia. Depois disto normalmente há sol quente até o fim da tarde quando o nevoeiro retorna novamente. O vento sopra constantemente. Incrivelmente, graças à proximidade de Sintra e Lisboa, esta região sofre uma agressiva especulação imobiliária, que aliada às dificuldades de cultivo e limitações de volume tem feito cada vez menos atraente a produção deste vinho.

Hoje, daqueles quase 2.000 hectares, só restam  12 a 15 hectares.  Você leu certo. Na verdade é bem difícil encontrar as escassas áreas de vinha da região. Você tem que se meter em pequenas estradas na região de Azenhas do Mar e espiar por entre estas proteções. Às vezes são macieiras, às vezes vinhas. Às vezes não há mais nada. As plantações estão simplesmente sendo abandonadas. Fui em 2013 e voltei em 2015. Muitas vinhas haviam tristemente desaparecido no areal ou sido tragadas pelo mato no mais puro abandono.

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A produção anual é pouco superior aos 20 mil litros e se resume a 4 produtores: a Adegas Beira Mar, a Adega Regional de Colares, a Adega Viúva Gomes e a Fundação Oriente. O engarrafador oficial é sempre a Adega Regional de Colares, que fornece a maioria do vinho.

Aproveite que você está por aqui e desfrute da bela da paisagem além de almoçar. A culinária regional é fantástica e obviamente baseada nos frutos do mar muito frescos.

Como sou fã destes vinhos e vou sempre que posso a Colares, já provei arroz de mariscos, polvo a lagareiro, os mexilhões e a peixada. Todos vão muito bem com o Malvasia de Colares. Um branco gastronômico, ácido, com frutos cítricos em nariz e em boca e uma mineralidade quase salgada que remete imediatamente ao seu terroir.

A tão comentada Ramisco é uma uva ácida e tânica, por isso o potencial de envelhecimento dos Ramisco de Colares que passam cerca de 4 anos em barrica ou tonéis antes de ser posto no mercado. Procure por exemplares com uns 10 anos para usufruir o melhor deste vinho. Prepare-se para belas frutas como ameixas, notas de fumo e couro tudo equilibrado com uma boa acidez e taninos presentes. E é claro, o balsâmico que caracteriza os vinhos mais antigos.

Diz  o Google que a Sociedade da Mesa importou vinhos de Colares em algum momento de 2013. Não sei se procede e no site não há informações, mas fica a dica.

E não perca a oportunidade de provar estes grandes vinhos se estiver perambulando por Portugal. Saúde!

Fonte: O Vinho de Colares – Edição da Adega Regional de Colares – 1938 (reimpressão do original)


Hidden behind the Serra de Sintra, just 40 minutes from Lisbon, is the brave Colares, a small Portuguese DOC that against all odds, makes a wonderful wine for centuries and discloses its secrets only to those who dare to unfold it.

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Colares DOC is bounded to the west by the Atlantic Ocean and to the south by the Serra de Sintra. It includes part of São João das Lampas and Terrugem and part of Sintra. For starters: Sintra is a must-see for anyone visiting Lisbon. It is called fairytale town for their charming palaces that look like they came straight out of one of Disney’s princess books. It also boasts immense natural parks with lush greenery. This little town, a UNESCO World Heritage Site, is proof that man can interfere with the landscape and enhance nature.

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Castle of the Pena in Sintra, seen from Colares

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The delightful city of Sintra, UNESCO World Heritage Site.

Colares is a DOC since 1908, the westernmost DOC of continental Europe and the smallest producer of still wines in Portugal. At the beginning of its history, it had 1,818 hectares, 1,690 in sand and 128 in hard soil. Granite dominates the mountainous areas, and the sand prevails in the lower areas. It was thanks to the sandy lands, where phylloxera could not penetrate, that these vines survived the violent invasion of this plague that in 1865 started the devastation of a lot of Portuguese wine regions. In addition, this combination of granite in the hills and sand closer to the beachfront draws a spectacular landscape.

Soon Colares achieved national fame with their wines of native grape varieties. Full of personality, they were recognized by bigwigs of the time in Portugal. In 1866, Ferreira Lapa, a professor at the Higher Institute of Agronomy, said “Colares is a wine that possesses all the requisites (sic) and qualities of Medoc red wines. It is the most French wine we have.” Antonio Batalha Reis wrote in 1873: “Our red Colares have a lot in common with fine Bordeaux, and it is a pity that special care does not raise these wines to the height where they belong.”

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This reputation, coupled with serious limitations to production, led to problems. At the turn of the XX century, the demand was much higher than production and more ambitious producers added brandy to the original product. that when it was not mixed, was only found at exorbitant prices. As the demand and offer rule the markets ruthlessly, soon the demand for the expensive and often falsified product falls and the DOC dives into crisis. An entire DOC was in danger until on September 19, 1934, the status of the Colares Region was published as a true carta-magna of the Colares wine.

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Regional Wine Cellar of Colares was founded a few years earlier, in 1931. Their role was fundamental to the existence of this DOC in order to regulate and also to support the local producers. This is the oldest cooperative winery in Portugal. It still gathers most the producers of the Colares DOC. Using DOC on the label implies vinification by the Cellar.

Another special feature of Colares is the remarkably different way in which these vineyards were planted. Ditches were opened, practically trenches since they have depths of 3 to 8 meters looking for clay soil since without it the plant dies in summer due to lack of humidity.

Traditionally, the experienced workers did this manually due to uneven terrain. They were divided into 3 groups. The first one took out the sand, the second one moved it away and the third one dug. This last group worked in the worst safety conditions. They used baskets over their heads to avoid immediate suffocation while they waited for help in case of landslides.

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Colares prioritizes 2 grape varieties: red Ramisco and white Malvasia de Colares, both indigenous breeds from a frank foot. As Joaquim Rasteiro, former Minister of Agriculture said in 1926: “Ramisco is the characteristic variety from this DOC but the Ramisco harvested from shifting sands of Atlantic dunes which absorb the continuous masses of moisture that descend from the mountains. The vines grow close to the sand and are supported by rods, being defended against the violence of the winds coming from the ocean by fences and natural forage.”

Besides wind protection, vines must be protected against contact with the ground. If the fruit comes in contact with the sand, they can rotten. Each bunch of grapes has to be lifted with a small stake to keep it dry.

The micro-climate here is extremely peculiar. By the morning, it is rather cool and the mist rarely rises before noon. Usually, the sun is hot until the late afternoon when the fog returns. The wind blows constantly.

Incredibly, thanks to the proximity of Sintra and Lisbon, this region undergoes an aggressive real estate speculation, which together with the difficulties of cultivation and volume limitations has made the production of this wine less and less interesting.

Today, of those approximately 2,000 hectares, only 12 to 15 hectares remain. You read that right. In fact, it is particularly difficult to find the sparse vineyards in the neighbourhood. Get on small roads near Azenhas do Mar and peer through the protection fences. Sometimes they are apple trees, sometimes vineyards. Sometimes there is nothing left. The plantations are commonly being abandoned. I went in 2013 and I came back in 2015. Many vineyards sadly disappeared in the sand or had been swallowed by vegetation.

The annual production is a little over 20 thousand litres and it is reduced to 4 producers: Adega Beira Mar, Adega of Colares, Viúva Gomes Winery and Oriente Foundation. The official bottler is always the Colares Regional Wine Cellar.

When you are here enjoying the gorgeous landscape, have seafood lunch. The regional cuisine is fantastic and based on the wonderfully fresh seafood.

As I am a fan of these wines and I go whenever I can to Colares, I have tasted seafood rice, octopus, mussels and fish. All a perfect pairing for Malvasia de Colares. A gastronomic, acidic white with citrus fruits on the nose and in the mouth and a salty minerality that at once brings memories of its terroir.

Ramisco is an acidic and tannic grape, so Ramisco de Colares spends about 4 years in barrels before being sold. Look for vintages with 10+ years to enjoy the best of this wine. Get ready for pretty fruits such as plums, notes of smoke and leather all balanced with a good acidity and tannins present. And the balsamic that characterizes the older wines.

Do not miss the opportunity to drink these great wines if you are in Portugal. Cheers!

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Source: The Colares Wine – Edition of the Colares Regional Wine Cellar – 1938 (reprint of the original)

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