Tropeiros, japoneses, maçãs. E vinhos de altitude, dá pra acreditar?

No nosso post mais recente, falamos sobre a aula de história que significou nossa visita à encantadora Laguna, mas contamos que de lá íamos em direção ao Planalto Catarinense, conhecer os vinhos de altitude brasileiros. Para isso, precisamos fazer o mesmo caminho que os tropeiros fizeram há centenas de anos, cruzando a bela e temida Serra do Rio do Rastro.
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Serra do Rio do Rastro. O caminho dos tropeiros. Lááááá no horizonte está o litoral (Laguna).

O traçado original desta rota começa em Laguna (SC) e termina em Sorocaba (SP). Pode ser que você, como eu, imagine que o início da rota dos tropeiros era o Rio Grande do Sul, mas estamos enganados. Na Biblioteca Nacional existe o que se supõe ser o primeiro mapa da Rota dos Tropeiros e esse documento indica que foi entre as cidades catarinenses de Laguna e Araranguá, exatamente no Morro dos Con­ventos, que tudo começou (veja mapa abaixo).

EFonte: Carlos Solera (pesquisador), Leandros Santos (Infografia) e Gazeta do Povo.
Fontes: Carlos Solera (pesquisador), Leandro Santos (Infografia) – reprodução parcial – e Gazeta do Povo.

A exploração da rota se deu cerca de 1728 e em 1730 partiu de Laguna a primeira tropa com muares rumo a Ouro Preto (MG): foram 3 mil mulas e burros conduzidos por 130 tropeiros sob o comando do patrono atual do tropeirismo Cristovão Pereira de Abreu. Levou quase 18 meses para o trajeto ser concluído e olha que parte do trabalho dos tropeiros foi facilitada porque eles fizeram uso de trilhas indígenas para criar a rota.

Homenagem aos tropeiros de São Joaquim.
Homenagem de São Joaquim aos tropeiros.

Entre o Rio Grande do Sul e Minas Gerais passaram cerca de 12 mil muares por ano entre 1730 e 1897. As tropas seguiram, mas nos caminhos que ficaram conhecidos como a Rota dos Tropeiros muito permaneceu. Ali se formaram famílias, uma gastronomia e cultura típicas e estima-se que nada menos do que mil cidades foram fundadas para dar suporte à nova atividade econômica. Inicialmente, eram um punhado de corajosos que vendiam alimentos e serviços ao longo da rota, mas com o passar dos anos o amontoado de casebres destes comerciantes se transformaram em cidades.

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São Joaquim nasceu na rota do tropeirismo.

Por volta de 1733, o caminho que começava em Laguna teve de ser abandonado por­­que na região onde fica hoje Urupema, havia índios muito agressivos que colocavam os viajantes em perigo. Hoje você ainda consegue observar alguns índios remanescentes vivendo numa situação terrível ao longo da estrada nesta região. Voltando à rota. Foi a partir daí que o Rio Grande do Sul entrou para a Rota dos Tropeiros: um novo ramal foi aberto com início na cidade de Viamão (RS) – os tropeiros abandonaram o caminho litorâneo de Laguna e passaram a seguir do Rio Grande do Sul pelo planalto catarinense. “Por este motivo Laguna sofreu um definhamento econômico no pe­­ríodo”, afirma o historiador Fábio Kuhn, professor da Uni­­versidade Fede­­ral do Rio Gran­­de do Sul. Triste para Laguna, bom para São Joaquim.

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E o problema eram os índios ferozes.

A antiga rota já havia deixado suas marcas e a que nós buscamos está a 3 horas de viagem de carro de Laguna pela sinuosa estrada da Serra do Rio do Rastro, a 1.260 metros de altitude. Este terroir especial é marcado pela altitude, pelo frio e pelo clima predominantemente seco devido a presença de ventos constantes. É por isso que a vindima aqui ocorre em abril e não em fevereiro como na Serra Gaúcha, propiciando um longo período de maturação tão benéfico para as frutas. Isto tudo é a pacata São Joaquim, com seus 24.000 habitantes, a cidade mais fria do Brasil. Conhecida como destino turístico daqueles que procuram neve em nosso país, pois desde maio, mesmo que não seja oficialmente  inverno, as mínimas giram em torno de 3°C e 8°C e as máximas entre 11°C e 16°C. Este período se estende até outubro. Ou seja, é frio mesmo a maior parte do ano. É claro que com o aquecimento global as coisas têm mudado um pouco e há 2 anos não neva lá.

Boneco de neve em São Joaquim. Há 2 anos ele está sozinho nessa...
Boneco de neve em São Joaquim. Há 2 anos ele está sozinho nessa…

A primeira vinícola visitada foi a Sanjo. A história da Sanjo começa em 1927 com a fundação da Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC) em São Paulo que acabou fechando as portas na década de 80. Depois dessa, um grupo de 34 fruticultores, a maioria oriundos da CAC começou a procurar uma nova fronteira para estabelecer seus pomares e foi aí que encontraram São Joaquim. Hoje, a Sanjo possui 115 cooperados e produz mais de 50 mil toneladas anuais de maçãs das variedades Gala e Fuji, em uma área plantada de 1.100 hectares.

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Maçãs sendo lavadas.

A colheita da maçã começa agora em janeiro e vai até o fim de junho. Porém a gente quer maçã fresquinha o ano todo, né? Então as maçãs colhidas vão para um período de dormência onde o processo de maturação é interrompido através da colocação das mesmas em câmaras frias (cerca de 2°C) e da retirada de parte de oxigênio das mesmas através de processos especiais.

Maçãs saindo das câmaras frigoríficas e sendo preparadas para ir ao mercado.
Maçãs saindo das câmaras frigoríficas e sendo preparadas para ir ao mercado.

A maçã Gala é mais esponjosa, macia e tem sabor mais suave (mais barata). A variedade Fuji é mais suculenta, crocante e possui um sabor mais cítrico (mais cara). Foi aqui que eu aprendi que pingo de mel não é só uma expressão. É um fenômeno real que ocorre nas maçãs Fuji. Você pode observar um amarelado mais escuro próximo ao centro (cor de mel mesmo). Significa que a maçã foi colhida provavelmente entre abril e junho e tem um sabor diferenciado. Daí só provando mesmo.

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Interior de câmara fria para conservação das maçãs.

São 77 câmaras frias com capacidade de 1.200 caixas de maçã. É maçã pra caramba. Depois de retiradas da câmara fria, as maçãs são lavadas, separadas em categorias (extra, 1, 2 ou industrial) e embaladas a mão para serem entregues no supermercado mais perto de você na época do ano que você desejar. Sabia disto? Nem eu.

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Área de etiquetagem e embalagem manual das maçãs.

Mas as perspicazes mentes orientais perceberam que as condições do terroir eram propícias para o cultivo de vinhedos. A partir de 2002, aliando os valores da tradição japonesa à qualidade das uvas francesas e à experiência de enólogos de descendência italiana, vindos das vinícolas da Serra Gaúcha, numa típica mistura brasileira, a Sanjo resolveu enveredar pelo caminho da produção de vinhos de altitude. Atualmente, a empresa possui cooperados cultivando uvas em uma área total de 30 hectares (a maioria perto de Pericó, cidade a meia horinha de São Joaquim) e produz cerca de 100.000 litros de vinho.

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Barris de carvalho da Sanjo.

A Sanjo possui 3 linhas de vinhos: a linha de entrada, a Nobrese, a premium Núbio e a super premium Maestrale. Na nossa visita, degustamos o espumante Nobrese Moscatel, de aromas e sabores muito delicados, um vinho de excelente custo / qualidade.

A linha Nobrese.
A linha Nobrese.

Depois, foi a vez d Núbio Sauvignon Blanc 2013 com suas notas marcantes de maracujá que foi premiado na 11ª edição do Concurso Mundial de Bruxelas etapa Brasil.

A linha Núbio.
A linha Núbio.

Para finalizar a seção de vinhos, degustamos 4  Cabernet Sauvignons:

  1. o versátil Nobrese Cuve sem passagem por madeira;
  2. o interessante Nubio 2007, com 50% passagem em barris de carvalho e 50% em tanque de inox, medalha de prata na  11° Edição Brasil do Concurso Mundial de Bruxelas;
  3. o elegante Maestrale 2004 com passagem em barris de carvalho.
  4. e o encorpado Maestrale 2008 que tem passagem mais longa em carvalho e posterior amadurecimento na garrafa. Medalha de bronze no Challenge International du Vin – France 2014.
A linha Maestrale.
A linha Maestrale.

Obviamente são 4 vinhos completamente diferentes com características marcadas da casta e cuja madeira é incorporada em níveis diferentes para agradar os vários paladares.

Dois produtos interessantes que degustamos foram o Calvados, um destilado de fermentado de maçã e o próprio fermentado de maçã. O Bardocco é o fermentado de maçã da Sanjo, com borbulhas como os espumantes, feito com 50% maçã Gala e 50% maçã Fuji. Não é exatamente sidra pois de acordo com a legislação brasileira, a sidra só pode ter até 7.5% de álcool e o Bardocco tem 11%. Mas, vamos lá conhecer esta bebida milenar que é extremamente popular na França, mais precisamente na Normandia. Por que esta é diferente das outras do mercado? Qualidade: da colheita manual e selecionada das frutas cultivadas em altitudes acima dos 1.000 metros na região de São Joaquim, passando pela prensagem a frio do suco extraído através da centrifugação, a bebida é então fermentada em tanques de aço inox com temperatura controlada. Fermentada pelo método charmat como alguns dos melhores espumantes – e diferente de muitas outras produções brasileiras que utilizam apenas uma fermentação –  o Bardocco lembra mesmo maçãs, com toques doces e cítricos, leve e  muito delicada com preço atraente, levamos uma direto para a ceia de Natal e agradou a todos.

O fermentado de maçã Bardocco.
O fermentado de maçã Bardocco.

O Apple Jack é basicamente o Bardocco (o fermentado de maçã descrito acima) duplamente destilado em alambique de cobre, estagiando por 24 meses em barris de carvalho. Este Calvados tem teor alcoólico de 43% e surpreende com notas de cravo, canela, mel, maçã. Parece um bolo alcoólico. Adorei!

O destilado de maçã (Calvados) Apple Jack da Sanjo.
O  Apple Jack da Sanjo.

Além disso a Sanjo produz uma variedade de sucos.

Suco de uva, de maçã e de maçã com uva, além de outras variedades.
Suco de uva, de maçã e de maçã com uva! Além de outras variedades.

A Sanjo está aberta a visitação e vale a pena conhecer, mas não espere uma vinícola típica. Espere a austeridade, objetividade e qualidade orientais.

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Instalações de vinificação da Sanjo.

A outra vinícola que visitamos, foi a Villa Francioni, a realização do sonho de uma vida do empresário catarinense Dilor Freitas que infelizmente faleceu antes de ver seu sonho inteiramente concretizado.

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Um estilo de vinícola totalmente diferente da anterior. Localizada também pertinho de São Joaquim,  em solo argiloso, pedregoso e profundo com um desnível tão espetacular que além de utilizá-lo na tradicional exposição solar das vinhas, os proprietários a usaram também na vinícola para facilitar o fluxo gravitacional do vinho, evitando assim  o uso de transferência mecânica.

Os desníveis da vinícola para aproveitar o fluxo gravitacional.
Os desníveis da vinícola para aproveitar o fluxo gravitacional.
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Evitando assim os choques da transferência mecânica.

 

 

 

 

 

 

A colheita é manual. A beleza e atenção aos detalhes se nota até nas paredes. O amante da arte Dilor trouxe de Crisciúma 220.00 tijolos (ou assim reza a lenda) de estufas de secagem de fumo, portas da Indonésia vitrais do Uruguai, murais espetaculares de Rodrigo de Haro e muitos outros itens para compor o cenário de sua vinícola.

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Vitral trazido do Uruguai.
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Tijolos de estufas de fumo e painel do artista Rodrigo Haro.
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Porta da Indonésia.

 

A adega, com capacidade para 180.000 garrafas, foi cavada na encosta de pedra, o que mantém um controle natural da temperatura de 11°C a 13°C.

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Por aqui eu já havia visto bastante o conhecido Rosé da Villa Francioni que tem 8 castas, inclusive a estrela do terroir, a Sangiovese. Um que continuou inédito é o famoso Sauvignon Blanc com muita pêra de maio, típica da região, herbáceo e maracujá que foi escolhido como o melhor exemplar do país pelo crítico Jorge Lucki.

Mas degustamos 4 vinhos muito legais:

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  1. o refrescante Villa Francioni Espumante Brut Rosé, com notas de cereja e morango, delicado e cremoso;
  2. o amanteigado  Villa Francioni Chardonnay com estágio de 10 meses de estágio em carvalho francês novo;
  3. o Villa Francioni 2009. Um corte de Cabernet Sauvignon, Merlo, Cabernet Franc e Malbec com 16 meses de carvalho, complexo e com camadas de frutas vermelhas e especiarias, a madeira bem integrada. Muito elegante;
  4. o preferido Joaquim 2011, um corte de Cabernet Sauvignon e Merlot que passa 10 meses em carvalho francês. Fácil de tomar, tem frutas vermelhas escuras bem integradas com especiarias e um custo / qualidade muito interessante.
Nosso preferido.
Nosso preferido.

Mais 2 que ficaram pendentes para degustação foram o colheita tardia de Sauvignon Blanc botritizado, envelhecido por até 4 anos e o licoroso de Cabernet Sauvignon estilo amarone.

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Outra coisa que descobri é que Santa Catarina é enorme. E que as vinícolas ficam distantes uma das outras para aproveitar tudo num bate e volta, então se você está com pressa, a Casa do Vinho é um bom local para adquirir uma grande variedade dos vinhos locais sem se deslocar demais.

E por falar em correria, não tivemos oportunidade de desfrutar dos muitos restaurantes legais da região. Comemos na lotada, popular, simpática e deliciosa Churrascaria Schlichtung (Tripadvisor). Recomendo.

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Todas as fotos e texto são próprios, mas utilizamos algumas fontes:

Crédito de informações sobre a cidade. Portal da Prefeitura de  São Joaquim.

Crédito de imagem do mapa e informações históricas: Carlos Solera (pesquisador) e Gazeta do Povo. Bem-vindos burros e mulas.

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