Laguna, uma aula de história a caminho dos vinhos de altitude.

Imagine a cena histórica: os governantes de Portugal e Espanha, as 2 grandes e audazes potências navegadoras do século XV, pedem ao Papa que divida o mundo e ele para acertar as brigas entre os 2, publica uma Bula papal em 1493. Mas Portugal tinha lá suas desconfianças de que iria perder um bom pedaço de terra para os espanhóis com este limite e convenceu-os a assinarem o Tratado de Tordesilhas em 1494. Resultado: Portugal dá de cara (aham …. sei) com o Brasil em 1500 e descobre (?) que a linha imaginária de 1,5 milhão de quilômetros de extensão, cortava o Brasil desde a Ilha de Marajó (PA) ao norte a Laguna (SC) ao sul. Portanto, as terras a leste do meridiano seriam portuguesas e os territórios a oeste pertenceriam aos espanhóis. Tudo bem que ninguém nunca respeitou estes limites, mas os livros de história e o marco estão aí para me ajudar a contar o conto.

Marco de Tordesilhas.
Marco de Tordesilhas em Laguna.

Localizada a 1 hora e meia de Florianópolis e dona de uma história e beleza muito peculiares, Laguna foi uma das primeiras cidades catarinenses, fundada em 1676 logo após Desterro (atual Florianópolis) em 1673 e São Francisco do Sul  (a primeira) em 1658. E a razão histórica você viu aí em cima. Laguna servia como posto avançado da coroa portuguesa, utilizada como ponto estratégico de apoio para a resistência à Espanha no sul do Brasil.

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O casario antigo é testemunha da importância e riqueza de Laguna no séc. XVIII.

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Seu fundador, Domingos de Brito Peixoto alcançou projeção na Guerra dos Farrapos em 1835, onde abraçou o ideal republicano e foi em Laguna que instituiu pela segunda vez, em território brasileiro, uma república, chamada de República Catarinense ou Juliana em 1839.

A ex-sede da República Catarinense.
A ex-sede da República Catarinense.

Os ares separatistas estavam soprando forte, junto com o minuano, vindos do Rio Grande do Sul, alimentados pelo descontentamento do governo com o imposto sobre o charque e a erva-mate. Só que não foi só isso que o vento trouxe de lá. Em 21 de julho de 1839 Giuseppe Garibaldi, tendo assumido o comando do “Seival” após naufragar perto dali, se abriga na Lagoa do Camacho e chega à foz do rio Tubarão, que fica ao ladinho de Laguna. Dia 22, ocorre a tomada de Laguna e no dia 24, a fundação da República Juliana.

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Nossa Senhora da Glória, propicia uma vista maravilhosa, além de um momento de reflexão diante desta beleza histórica.
Vista de Laguna.
Vista de Laguna.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Garibaldi foi então convidado para tomar um café na casa de pescadores da Barra de Laguna, recebeu a xícara das mãos de Ana Maria de Jesus Ribeiro, cidadã lagunense, casada em 30 de agosto de 1835, na Igreja Matriz de Laguna com Manoel Duarte de Aguiar, um sapateiro nascido na Barra da Lagoa ou em Ingleses, em Desterro (Floripa, lembra?). Garibaldi indaga quem era a moça e alguém responde que era “Aninha”, e ele, admirando-a chama-a de “Anita” (diminutivo de Ana na língua italiana). Ao sair da casa, toma suas mãos e sentencia, em italiano: “Tu tens que ser minha”. Dá pra ver que o garboso Capitão Garibaldi não perdia tempo seja na conquista de terras, como das gatinhas, né? Do destino do marido há várias versões, mas a mais corrente é que foi para o Rio Grande do Sul lutar contra os Farroupilhas.

Igreja onde Anita Garibaldi se casou com o primeiro marido, Manoel.
Igreja Santo Antonio dos Anjos, onde Anita Garibaldi se casou com o primeiro marido, Manoel.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aninha, agora conhecida por Anita Garibaldi, foi uma menina de origem humilde, sem nenhuma instrução que calçou seu primeiro sapato já moça. Porém, possuía uma tenacidade e um amor à liberdade só reservada aos grandes heróis. Admirada no Brasil e idolatrada na Itália, nasceu em 30 Agosto de 1821 vindo a falecer em 04 de agosto de 1849, muito jovem e muito doente. Uniu-se a um revolucionário, foi soldado, enfermeira, esposa e mãe. Em todos os papéis, sua batalha sempre foi travada em nome da liberdade e da justiça. Tornou-se a “Heroína dos Dois Mundos” pois lutou aqui e morreu lutando na Itália por seus ideais.

Anita era tão pobre que esta era a casa onde se arrumou para seu casamento.
Anita era tão pobre que esta era a casa (hoje museu) onde se arrumou para seu casamento.

No centro da cidade, a Doca é um local onde pequenas embarcações e iates ancoram. No passado também esteve ancorado nas Docas, o tal navio “Seival”, aquele conduzido por Giuseppe Garibaldi. Um lindo local onde se pode apreciar o pôr do sol e durante a noite a Lagoa Santo Antônio iluminada.

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A bela doca no centro de Laguna.

Outra maravilha da beleza natural de Laguna é a pesca com auxílio dos botos que já faz parte da cultura local e hoje atrai milhares de turistas para a cidade durante o ano todo. A técnica é a seguinte: nas águas onde a lagoa se encontra com o mar aberto, os botos cercam os cardumes, geralmente de tainhas, para levá-los até os pescadores à beira dos Molhes. Os pescadores de pé, em fila dentro d’água preparam suas tarrafas para o arremesso. Quando o boto surge conduzindo o cardume em direção à praia, os pescadores acompanham a perseguição. Tentando escapar, os peixes procuram lugares mais rasos, onde o boto não pode chegar. As tarrafas são então atiradas ao mar, quase simultaneamente.

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Observação dos botos no Molhe da barra. A quantidade realmente impressiona.

Os botos são uma espécie de golfinhos. Nascidos nesta região e em contato diário com o ser humano, acabam perdendo o medo e começam a trabalhar juntos. Não se sabe ao certo quando começou esta parceria, mas de acordo com a cultura local, já faz muito tempo. O espetáculo da pesca em parceria com os botos só existem em três lugares no mundo: na Austrália, África do Sul e em Laguna.

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Estima-se que há cerca de 40 botos nas lagoas da cidade e todos são reconhecidos pelos pescadores por seus respectivos nomes, colocados por eles mesmos. São eles: Tafarel e seu filhote Borrachinha, Canivete, Chinelo, Juscelino, Chega Mais, Galha Torta e outros.
Os botos nascem, crescem e desaparecem nas lagoas da cidade. A pesca com auxílio dos botos ocorre durante o ano todo, mas é nos meses de abril, maio e junho que se torna mais atraente, devido ao ciclo da tainha. Para assistir este espetáculo é só procurar o Molhe da Barra. A pesca da tainha é considerada uma forte atividade em Laguna e tornou-se um dos pratos mais procurados na região

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Restaurantes no Mar Grosso, ideais para se degustar a tradicional tainha.

Outro ponto de visita interessante em Laguna é a Fonte da Carioca, construída pelos escravos, em 1863, a Carioca até hoje abastece a população de água potável, cuja nascente, no alto do morro é protegida e fiscalizada constantemente. Ao processo de depuração natural uniu-se a filtração artificial com filtros de areia. A água da Fonte da Carioca, conforme crendice popular, tem poderes afrodisíacos, sendo que os visitantes que beberem desta água ficarão eternamente enamorados por Laguna e aqui sempre voltarão.

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A Fonte da Carioca, água pura e muitas lendas.

Após ter uma posição bem estabelecida no litoral, os portugueses sentem a necessidade de ocupação do interior e aparecem os caminhos tropeiros que levavam principalmente gado do Rio Grande do Sul a Sorocaba. Lages é fundada em 1771, ligada a Laguna pela estrada da Serra do Rio do Rastro. Mafra, Curitibanos, Campos Novos e São Joaquim são fundadas para dar pouso aos tropeiros e assim começa uma das novas fronteira do vinho: o Planalto Catarinense, esse é o nosso rumo, mas isso é assunto para outro post. Até mais!

Serra do Rio do Rastro. O caminho dos tropeiros.
Serra do Rio do Rastro. O caminho dos tropeiros. Vamos nessa com a gente?

2 comentários sobre “Laguna, uma aula de história a caminho dos vinhos de altitude.

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