Georgia, o berço do vinho. Sempre quis dizer que um vinho branco é tânico, mas sabe que é impossível? Então conheça a Georgia, o país das 8.000 colheitas e do vinho de Qvevri.

Durante a Vinexpo, apesar de todo o oba-oba em torno dos EUA, o maior mercado potencial para vinhos no mundo na próxima década e em torno da China, a desafiante a este posto, a Georgia teve um lugar de muito destaque na feira, com 2 masterclass e 1 apresentação exclusiva. A primeira masterclass sobre o vinho da Georgia foi dada pela Master of Wine Lisa Granik. A segunda masterclass foi com o especialista inglês Robert Joseph. A apresentação exclusiva contou com a presença do Steven Spurrier, aquele mesmo do filme “O Julgamento de Paris” e do Paolo Basso, eleito melhor sommelier do mundo em 2013. O resumo de tudo que eu aprendi com este time de pesos pesados, você vai ver aqui, com exclusividade.

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Lisa Granik
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Robert Joseph

 

 

 

 

 

Tanto interesse na Georgia vem de alguns fatos que você precisa conhecer:

  1. É o mais antigo país produtor de vinho no mundo;
  2. Aliás, o gvino da Georgia pré-data o vinho, daí a origem da palavra;
  3. A Georgia é um país de cultura realmente milenar, tanto que seu alfabeto é um dos 14 sistemas de alfabetos originais;
  4. Foi lá que encontraram sementes de vitis cultivadas há pelo menos 8.000 anos, ou seja, é um país que colhe uvas e produz vinhos há 8.000 anos;
  5. O Monastério de Ikalto na Georgia do leste contém ruínas da primeira escola de vinho que se tem notícia, ensinado junto com ciência, matemática, etc. Aliás, os monastérios têm papel fundamental na conservação do método tradicional de vinificação, pois durante o período de dominação soviética, os bispos da Igreja Ortodoxa da Georgia mantiveram esta cultura intacta.
  6. O vinho da Georgia, mais que em qualquer outro lugar, é a perfeita união entre o antigo e o moderno.
Representantes da Igreja Ortodoxa da Georgia e de um monastério produtosrde vinhos.
Representantes da Igreja Ortodoxa da Georgia e de um monastério produtor de vinhos.

Este país de longa e rica história passou por períodos muito diferentes e isso afetou profundamente a produção de vinho. Hoje existem 18 AOCs na Georgia, localizadas em 40.000 hectares de vinhas cultivadas ao invés dos 150.000 hectares existentes durante o período de domínio da União Soviética já que durante este longo período, a prioridade era o cultivo extensivo da vinha e a produção em quantidade. Isso, graças à boa qualidade das terras da Georgia que possibilitavam grandes produções agrícolas para a antiga União Soviética. A produção massiva de vinho nesta época gerou um descontrole tão grande sobre a apreciada qualidade do vinho da Georgia, que muitas falsificações vindas da Bulgária e Rômenia começaram a aparecer e comprometeram a fama do vinho deste país internacionalmente.

As principais regiões são:

  1. Kakheti (dividida em Gare Kakheti, margem esquerda de Shignit Kakheti e margem direita de Shignit Kakheti)
  2. Kartli
  3. Imereti
  4. Racha-Lechkhumi
  5. Zona sub-tropical

Hoje a produção chega ao redor de 14 milhões de garrafas. A colheita é normalmente manual, o rendimento é tão baixo que vai de 4 a 7 tons / hectares. Para vocês terem idéia do rendimento, só a Barefoot produz 15 milhões de garrafas na Califórnia.

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Mapa da Georgia vitivinicultora.

Kakheti é a região principal e foi a primeira região demarcada, em 1886, porém hoje as vinhas são relativamente novas, renovadas a partir de 2000. Esta região possui 2 montanhas, 2 rios e é responsável por 70% da produção do vinho da Georgia.

O clima é, regra geral, subtropical, com brisas frescas descendo dos Caucasus (a mesma cadeia de montanhas que separa a Georgia da Rússia) e resfriando as uvas, propiciando assim o desenvolvimento de sabores e aromas. A geada não é um problema nesta região. O Mar Negro, a oeste influencia o clima também.

Seguindo a tradição da antiguidade, 75% do vinho produzido e consumido é branco. É verdade, até a época dos romanos, a humanidade preferia  o vinho branco ao tinto. O reverso é uma tendência relativamente recente.

A Georgia é um dos países com mais castas autóctones, 525 no total, mas apenas 45 em produção. As variedades dominantes são:

  • Rkatsiteli que quer dizer ‘caule vermelho’. Esta casta tem baixa sensibilidade à oxidação, é muito aromática e em contato com as borras brancas, adquire cor e estrutura.
  • Mtsvane que significa ‘verde’;
  • Saperavi equivalente a ‘tintura’.
  • Kisi, cujo nome tem uma sonoridade muito bonita para quem fala língua inglesa;
  • Tsinandali;
  • Usakhelouri;
  • Tavkveri;
  • Shavkapito;
  • Mujuretuli;
  • Alexandrouli;
  • Ojaleshi….
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A tinta Saperavi é a uva escolhida como emblemática da Georgia.

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Agora, o que você provavelmente já escutou falar é sobre o tradicional método de produção de vinho, patrimônio cultural da Unesco desde 2003. Esse método ancestral acontece assim:

  1. Primeiro as uvas são esmagadas  em uma prensa de madeira, a satsnakheli.
  2. Depois o suco decorrente do processo corre para o kvevri.
  3. O kvevri é fechado com uma pedra, vedado com argila e enterrado no solo.
  4. O vinho permanece assim até março ou abril.

Obviamente a fermentação não é controlada, o que provoca estilos diferentes. Por exemplo, um fevereiro mais frio pode parar a fermentação provocando maior açúcar residual. É importante notar que a cor e a estrutura dada aos vinhos brancos de produção através do kvevri vêm através do contato com as borras, não é oxidação, pois como vimos o kvevri é lacrado e a oxidação acontece na presença do oxigênio. Este é o único vinho branco do mundo sobre o qual se pode falar de tanicidade.

Repare na cor!
Repare na cor!

Os kvevris não são recipientes de armazenagem ou transporte como as talhas ou ânforas. Eles são utilizados exclusivamente para fermentação do vinho. São cobertos internamente por cera de abelha, assim não há como não como saboreá-lo no vinho. Além do controle (ou falta dele) da fermentação, outro grande desafio deste método de produção é limpar o kvevri durante o período em que fica vazio.

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Estes são os kvevris ou qvevris (se pronuncia quéveris).

A Georgia produz vinhos muito interessantes. Alguns pelo método ancestral (no kvevri), alguns pelos métodos mais modernos de vinificação. Os vinhos de kvevri são normalmente brancos ou tintos, há experiências com os rosés, mas atingir a cor é um desafio. Os aromas potentes e tónicos do vinho branco de kvevri implicam num serviço diferente do vinho branco normal: a temperatura deve ser a ambiente para não inibir aromas.

As lindas cores do vinho da Georgia.
As lindas cores dos vinhos da Georgia.

Por isso se diz que o vinho de kvevri da Georgia é o vinho como ele é. Toda a tradição, a história, a autenticidade, a pureza do varietal dentro de estilos variados.

O que mais me chamou a atenção ao conhecer o vinho da Georgia foi que mais que um país de cultura vínica milenar, castas variadas, método de produção exótico, beber é uma parte importante da cultura da Georgia. É um dos poucos países onde o vinho é muito mais importante do que qualquer outra bebida alcoólica (inclusive a cerveja!) e é associado com as tradições culturais e religiosas. Este é um povo incrivelmente hospitaleiro e o vinho desempenha um papel essencial na hospitalidade. Assim que você chegar a uma casa, o anfitrião vai te oferecer uma taça, provavelmente de vinho que ele mesmo fez (mesmo que more em apartamento) e é muito indelicado recusá-la. Você pode até dizer não ao vinho, mas só depois de provar a primeira taça. O consumo de vinho está sempre e intimamente associado com alimentos. 

Dentro do ritual da comida e do vinho, existe uma figura interessante, o Tamada. Ele é o responsável por fazer o brinde numa mesa ou ocasião específica. Este personagem deve ser eloqüente, inteligente, esperto, perspicaz, ter pensamento rápido, bom senso de humor porque muitas vezes alguns dos convidados podem tentar competir com ele na hora do brinde. Na mesa do pessoal da Georgia, um Tamada faz a ponte entre passado, presente e futuro. Ao brindar, todos os homens têm de se levantar e beber vinho em silêncio. Um brinde só pode ser proposto pelo Tamada e os outros desenvolvem a idéia. Todo mundo tenta dizer algo mais original e emocional do que o orador anterior. Todo o processo se transforma em uma espécie de concurso de oratória.

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Este Tvishi 2014 é muito aromático, floral, lembra pêras e maçãs verdes. Passa 4 meses em madeira.
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Natural que a figura do Tamada virasse … vinho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas vamos aos vinhos:

1) Tsitska 2012: muito floral. Apresenta pêssego branco. Muito leve, fresco e vibrante.

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2) Tbilvino de Qvevris, casta Rkatsiteli. Toques de giz, pêssegos e nectarinas secos e cozidos. Passa 5 meses no kvevri. Apresenta uma cor âmbar. É elegante, levemente amargo. Adorei!

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3) Monastério Alaverdi. Casta Saperavi 2011. Cor intensa, poderoso, bem integrado.

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4) Otskhanuri Sapere 2011: Toques de violeta, mineral, herbáceo, carnoso.

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5) Chateau Mukhrani. Casta Goruli Mitsvane 2013. Aromático, floral, fresco, expressivo e mineral. Este Chateau era a antiga casa da família real da Georgia.

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6) Chateau Mukhrani. Casta Shavkapito 2013. Passa  6 meses de carvalho do Caucaso. Equilibrado, fresco e adstringente.

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Despedi-me dos vinhos da Georgia com sabor de quero mais. Por estas bandas acho difícil encontrá-los tão cedo, mas certamente os planos de atravessar o mundo para conhecê-los começam a se desenhar em minha mente. Enquanto isto, me despeço de vocês com um brinde representado por nosso Tamada. Que sua volta de férias seja próspera, que agosto lhe traga boas surpresas e que você desfrute de nossa companhia sempre. Saúde!

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O hábito de beber vinho em chifre de boi é originário da Georgia.

 

3 comentários sobre “Georgia, o berço do vinho. Sempre quis dizer que um vinho branco é tânico, mas sabe que é impossível? Então conheça a Georgia, o país das 8.000 colheitas e do vinho de Qvevri.

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