Vinexpo vs. Expovinis – só pondo o dedo na ferida ela pode sarar.

Este ano tive a oportunidade de participar de 2 importantes eventos do vinho, um bem próximo ao outro e a comparação foi inevitável.

A proposta das duas feiras é exatamente a mesma: criar oportunidades de descobrir novos produtos, expandir portfolios, fazer negócios, discutir tendências de mercado e proporcionar networking. E fazem isso de maneiras distintas, pois têm algumas diferenças importantes:

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Destes dados já se apreende que a Expovinis é uma feira menor, mais jovem e realizada num país em desenvolvimento com cultura de vinho ainda em formação enquanto a Vinexpo já está bastante consolidada num dos berços mundiais do vinho localizados numa grande potência européia.

Essas são diferenças que a gente tem que respeitar, então eu nem vou entrar no mérito de qualidade de transporte público entre as duas cidades, qualidade das instalações entre os dois ambientes de exposição (banheiros,  como exemplo) e acesso a internet, só para começar, pois isto implica em responsabilidade pública sobre as quais temos nenhuma ou muito pouca influência. Vamos propor uma reflexão sobre o que nós como comunidade de profissionais do vinho podemos fazer para melhorar a Expovinis, pois vejo a cada ano um número crescente de pessoas insatisfeitas com a mesma, enquanto a feira encolhe tristemente.

Podemos começar por exemplo falando de gastronomia. Os profissionais do vinho sabem que a grande maioria dos vinhos é feita para se consumir com comida. Não só pelas características organolépticas do vinho, mas também pelo risco que pode apresentar à saúde, o hábito do consumo de álcool a qualquer momento do dia em qualquer quantidade. Os sommeliers são incentivados a buscar constantemente harmonizações para os vinhos que degustam e seu trabalho é basicamente propor vinhos que combinem com os pratos escolhidos por seus clientes.

A Expovinis tem 4 pontos de venda de comida na feira toda. Detalhe que a feira começa exatamente às 13, horário da refeição mais importante dos brasileiros: o almoço. Creia-me a relação qualidade-preço dos 4 pontos de venda é de chorar. Vai de coxinha de lanchonete de rodoviária a pizza de cadeia internacional pingando óleo.

A Vinexpo oferece quase 50 restaurantes e food trucks. De ostras a hamburguer, sushi, comida basca, thai e claro, francesa. Tem comida para todo lado, de todo tipo e de todo preço. E todo mundo oferece vinho a copo ao preço de refrigerante.

Área de alimentação conta com restaurantes e food trucks.
Área de alimentação conta com restaurantes e food trucks.

Será que podemos ampliar a oferta de alimentação? Trazer foodtrucks que estão tão na moda para participar do evento? Que adotem os vinhos do evento e harmonizem com seus cardápios para enriquecer a experiência. A Expo Center Norte não permite? Então não é o lugar certo para esta feira. Por mais esta razão.

Será que as grandes companhias de alimentos não estão dispostas a patrocinar aulas de harmonização atrevidas em cook shows ao vivo para chamar a atenção da importância da comida para o vinho, a exemplo do que fez a Gault-Millaut com sucesso estrondoso na Vinexpo? Isso também chama a atenção da importância do profissional de vinho para a área de restauração e valoriza a imagem do mesmo.

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Aula de harmonização com cook show.

Beber vinho é muito legal, mas para aprender mesmo, como profissionais, temos que estudar regiões produtoras e seus produtores, entender condições, propostas e conceitos. Só balançar copinho e despachar aromas e sabores não é tudo para quem realmente trabalha com o tema. Por isso, é importante um ciclo de palestras pertinentes à complementação profissional do sommelier brasileiro, seja o de restaurante, o consultor de vinhos em loja ou importadora.

Durante a Expovinis, a grande maioria das palestras foi proposta pela ViniPortugal, em uma iniciativa única e louvável, mas ainda assim pequena.

Onde estavam Chile e Argentina? Os 2 maiores exportadores de vinho para ao Brasil. Recebem isenções de impostos e contribuem como ao crescimento do vinho no Brasil? Será que a Wines of Argentina & a Wines of Chile poderiam manifestar seu interesse no mercado brasileiro com uma presença maior: aulas sobre seus terroirs e degustações guiadas de seus produtores?

E a Vinhos do Brasil? Não seria uma boa oportunidade de apresentar regiões novas e consolidar as tradicionais para os profissionais? Propor degustações guiadas com profissionais reconhecidos?

As salas de treinamento sempre pequenas, apertadas, mal aparelhadas e desconfortáveis não podem ser melhoradas? Está claro que não são suficiente. A improvisação não funciona. A fila de pessoas frustradas na porta porque não conseguiram participar de palestras e workshops e a existência de debates pouco ou não divulgados denuncia a área de melhoria e a necessidade do público.

Salas amplas para acolher os muito interessados e bem equipadas com som e visual.
Salas amplas para acolher os muitos interessados e bem equipadas com som e visual.

O último ponto ao qual convido um reflexão é nosso postura como profissionais. Existe uma diferença muito grande entre um sommelier fora e no Brasil. A responsabilidade é sempre a mesma, zelar por uma seleção adequada (que harmonize com o cardápio, com o conceito da casa, variada, equilibrada e sobretudo rentável) de vinhos para uma loja ou restaurante.

O problema está na valorização da profissão. Lá fora um profissional em início de carreira ganha cerca de USD 4,000 por mês, aqui cerca de USD 400. Obviamente o impacto disto na formação é enorme. Fora do Brasil um curso de formação tem mais de 300 horas. Aqui é a metade disso ou menos. E a profissão tem uma formação cara: é estudar muito, viajar, ler e beber. Parece divertido, e é. Mas requer empenho, disciplina e investimento tanto quanto qualquer outra profissão ou até mais.

Credito a esta falta de valorização uma postura que beira ocasionalmente a falta de profissionalismo. Testemunhei várias cenas lamentáveis na Expovinis de pessoas alteradas, bêbadas ou simplesmente passando mal publicamente. Na Vinexpo não vi absolutamente nada. E há uma pequena diferença: lá há vários pontos de degustação livre. Você pega  sua taça, se serve do vinho que quiser. Os dados do produtor constam da ficha técnica, incluindo o stand dele e você pode consultá-lo posteriormente caso haja interesse. As cuspideiras estavam lá por toda parte e eram amplamente utilizadas. Havia também higienizadores de copos disponíveis em locais estratégicos. Não tem que lavar a tacinha no banheiro.

Degustação livre de rosés.
Degustação livre de rosés.
Degustação livre de rosés com enomatic.
Degustação livre de rosés com enomatic.

 

 

 

 

 

Voltando ao poder aquisitivo do sommelier brasileiro e o custo e necessidade de formação, tenho que dizer que a Vinexpo custa zero para os profissionais da área. Nada mesmo. A Expovinis em teoria não custa nada, até que você entra e te pedem R$ 50 pela taça. Se não, não dá para degustar a não ser em circunstâncias especiais como palestras, degustações orientadas, todas aqueles que estão sempre lotadas, lembra?

Estas três áreas de oportunidade podem impulsionar o ponto crítico da Expovinis que é abrir mais frentes para concretização de negócios, reclamação frequente entre todos os que deixaram de frequentar a feira, seja como expositor, seja como visitante.  Na Vinexpo, a gastronomia, as palestras e a correta postura profissional ocupam os que querem aprender e liberam o expositor para tratar com aqueles que realmente querem comprar seu produto. Ele não fica enrolado num pequeno stand cercado por dezenas de pessoas com copos estendidos aos quais não terá oportunidade nem de explicar seu terroir, método, conceito e produto, menos ainda de negociar. O clima é totalmente distinto.

Ambiente de negócio.
Ambiente de negócio.

Essa foi a marca principal: deu para perceber o vinho como negócio, com profissionalismo, aberto, franco e participativo. O vinho no Brasil precisa se abrir, ser discutido ser conversado. A elite que domina o setor hoje tem que reconhecer que o modelão atual não tem funcionado. A economia fechada do Brasil nunca vai correr a favor do mercado do vinho que embarcou faz tempo no mesmo formato, com grande atraso em seu  desenvolvimento. Tá aí os eternos 2 litros per capita de consumo que não me deixam mentir enquanto outros países crescem de 20% a 30% nos últimos anos. Há que existir um ar de negócio sério para mudar o estado de estagnação atual.

A empresa que promove a Expovinis é francesa, improvável que ignore tudo o que está descrito aqui. Provavelmente maiores e melhores que eu já tentaram coisas diferentes para mudar esta situação. Porém a idéia deste post é ser mais uma voz, mais idéias, mais vontade, pois só com uma mobilização é que se vai trazer a mudança desejada. Concorda? Ou não? Este espaço é democrático e está sempre aberto.

E vem mais post por aí.

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