Cortiça – do sobreiro à rolha

Tá super na moda o pessoal se lançar em debates frenéticos em defesa ou contra a utilização de rolha de cortiça no vinhozinho nosso de cada dia, pois a cada dia aparecem mais defensores da screwcap, rolhas plásticas, de vidro, etc. O certo é que este é o material vedante preferido para os vinhos, principalmente os de mais alta qualidade, pois a absoluta maioria dos consumidores o associa a este tipo de vinho e inclusive se dispõe a pagar mais pelo produto, de acordo a pesquisas em vários países. No fim das contas, mais de 12 milhões de garrafa por ano são vedadas com rolhas de cortiça.

9 entre 10 consumidores preferem... rolha!
9 entre 10 consumidores preferem… rolha!

A árvore que fornece a cortiça é da família do carvalho e é chamada de sobreiro, o bom e velho Quercus Suber L. Esta árvore é mais facilmente encontrada em Portugal, Espanha, Marrocos e Argélia, onde também se encontram os grandes centros beneficiadores de cortiça.

Nos sobreirais, as árvores se encontram espaçadas, naturalmente, pois não podem estar próximas a outras árvores já que necessitam de muito sol. Gostam também de terrenos mais arenosos e pedregosos, os muito argilosos podem deixar marcas na cortiça, pois a árvore absorve o barro. Um sobreiral, ou seja, um conjunto de sobreiros, é chamado de montado. E é uma das paisagens mais típicas e bonitas do Alentejo.

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Alentejo no inverno.
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Alentejo no verão.

A cortiça é reconhecida por ser:

  1. muito leve;
  2. elástica, por isso pode ser facilmente comprimida para entrar pelo gargalo de uma garrafa;
  3. impermeável a líquidos e quase impermeável a gases, protegendo o conteúdo da garrafa com perfeição;
  4. e imputrescível, pois resiste à ação da humidade.
A bolota também vem de um tipo de sobreiro.
A bolota também vem de um tipo de sobreiro.
E dá um sabor delicioso ao porco preto ibérico.
E dá um sabor delicioso ao porco preto ibérico que se alimenta dela.

A cortiça tem estas características, em parte, pela formação de anéis. Cada anel representa 1 ano de vida da árvore e é uma resposta ao risco de desidratação, pois a árvore é nativa de regiões muito secas. Outro ponto é que ela é bastante resistente a altas temperaturas e esta característica ajudou o sobreiro a sobreviver aos incêndios que destroem grandes florestas nos verões escaldantes destas regiões.

O sobreiro agradece tantas bênçãos de 2 formas:

  • tendo folhas verdes durante todo o ano e assim realizando fotossíntese por mais tempo que as árvores que perdem suas
  • folhas no inverno … e nós humanos certamente precisamos deste oxigênio;
    fornecendo a cortiça, é claro!

Além disso o beneficiamento da cortiça é bastante ecológico. Até suas aparas viram aglomerados, moídos e com cola. Ou combustível para as caldeiras.

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Só depois da árvore alcançar 25 anos de vida é retirada a primeira cortiça, a cortiça virgem como chamam os produtores, que não pode ser usada. A segunda é chamada amadia e daí por diante se segue um ritual que se repete a cada 9 anos. Não é anormal que só após a quarta retirada de cortiça se possa produzir rolhas. Para elas a vida começa mesmo aos 50! O ano que a gente vê marcado na árvore é o ano da extração. Um sobreiro dá cortiça por cerca de 200 anos.

Mas há que se ter cuidado! A cortiça é basicamente a casca da árvore e só pode ser retirada por profissionais habilitados e com muita cautela, pois um corte errado pode destruir a produção da árvore para sempre. Por exemplo, não se retira cortiça da parte de cima da árvore para não estragar a copa. A extração se dá no final da primavera e no verão.

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A rolha pode ser:

  1. natural: extraída por brocagem da cortiça;
  2. natural colmatada: tem seus poros preenchidos por pó de cortiça;
  3. de champagne: possuem um corpo aglomerado e 1, 2 ou 3 discos num dos topos, mas com diâmetro maior que as rolhas normais;
  4. técnica: possui um corpo de cortiça aglomerada muito densa e com discos de cortiça natural colados em 1 ou 2 topos;
  5. técnica micro-granulada: de nova geração com um corpo de cortiça aglomerada de granulometria específica;
  6. capsulada: rolha natural cujo topo é colada uma cápsula de madeira, PVC, metal, vidro, etc.

Tudo isso visa se adequar às necessidades do vinho e seu produtor. A rolha para vinho de mesa, por exemplo, tem diâmetro superior à rolha para o vinho do Porto, pois o vinho do Porto não gasifica e não precisa de rolha tão forte. Já a rolha de espumante, como vimos, é super reforçada. Faz todo sentido, né?

Tá vendo?
Tá vendo?

Mas o destino da cortiça, em termos de rolha, é selado já na sua pré-seleção após a extração, a primeira de 3. Vamos ver como é o beneficiamento, passo a passo?

  1. Secagem. Ela passa 6 meses secando antes do beneficiamento. Esta fase é fundamental para a qualidade. Aqui ocorre a primeira separação de acordo a cor e textura.
  2. Cozedura em caldeira a lenha. Só água para esterilização e amolecer, assim se pode aplainar por 1 hora, pois fica mais maleável. Após o processo, ela deve repousar, de acordo com a cortiça, mais ou menos 8 dias;
  3. Corte / rabaneira;
  4. Fura / broca;
  5. Pré-escolha, a segunda classificação;
  6. Secagem em estufa por 1 noite mais ou menos;
  7. Retificagem de calibres e topos;
  8. Pré-seleção classe, a terceira e ultima triagem;
  9. Limpeza;
  10. Revestimento;
  11. Gravação de nome do produtor, etc;
  12. Tratamento com silicone;
  13. Embalagem;
  14. Teste de humidade, densidade e diâmetro com 20 rolhas a cada lote no vinho para macerar e analisar.
Cozedura.
Cozedura.
Rol.has cortadas.
Rolhas cortadas.
Seleção final.
Seleção final.

Você já deve imaginar que com tudo isto, a simples e inocente rolha que você parte no meio ao abrir sua segunda garrafa tem um custo significativo. Pois bem, os preços variam de 70 a 800 euros o milhar.… Existem 7 classes de rolha: a flor ou super extra é a de melhor qualidade.

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Os cuidados com limpeza e qualidade são muito bem explicados pelo TCA. Quem? Um composto químico, o TCA, o que o pessoal do vinho chama de bouchonné, que pode ser originário da cortiça. Ou não, já que o TCA é encontrado em barris de madeira, e pode ser causado por más condições de armazenamento e pelo transporte da cortiça e do vinho. Mas a rolha de cortiça é normalmente considerada a responsável pelo odor característico, descrito como semelhante a jornal mofado, cachorro molhado, pano úmido ou porão úmido.

O limiar humano para a detecção de TCA depende da sensibilidade de cada indivíduo, mas é sempre inofensivo para a saúde. A taxa de incidência do TCA é de 0,7 a 1,2%. Para nossa alegria, os resultados de testes, mostram uma forte redução nos níveis de TCA, de cerca de 81% na última década.

Nosso amado Portugal é responsável por cerca de 50% da produção mundial de 200 mil toneladas de cortiça. Aproximadamente 1/3 da cortiça é transformada em rolha, pois o material é muito versátil e não só origina roupas, calçados, bolsas, bijuterias, mas também serve por exemplo, de revestimento para foguetes. Isso mesmo. Foguetes…

A indústria da cortiça é hoje um verdadeiro pilar social para milhares de pessoas, muitas vezes em regiões onde representa a principal fonte de renda das famílias, pois em Portugal deram origem a 8.000 postos de trabalho diretos em mais de 600 empresas e mais de 6.000 postos de trabalho na área de exploração florestal. Isso fora os postos de trabalho indiretos.

Quem diria...
A rolha. Quem diria…

Nosso agradecimento especial ao Sr. Elisio Ferreira dos Santos, 97 anos, proprietário da Elisio e da JJ, fábricas que tem mais de 70 anos de história beneficiando cortiça e a seus filhos que nos acolheram com tanta consideração.

Não tá a fim de ler tanto? Vê o filme, mas tem menos detalhes porque é material de aula.  Não tá a fim de cortiça? Espera nosso próximo post. Até!

Fonde de dados: APCOR

2 comentários sobre “Cortiça – do sobreiro à rolha

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