O vinho como herança

A morte e eu sempre mantivemos uma distância respeitosa. Tem gente que é acossada e torturada por ela a vida toda. Direta e indiretamente. Isso quer dizer doenças graves e mortes trágicas sempre muito próximas.

A mim, ela toca de vez em quando. Honestamente, até hoje, em nossos breves e leves encontros, eu era tão jovem que nem conseguia absorver direito o acontecido. E há um mês, quando finalmente ela veio se impor, nos tirando nosso pai, ela veio delicada, no meio da noite, enquanto a mente dele, torturada há mais de uma década pelo Alzheimer, estava dormindo. Ou quase. Acho que ele nada sentiu, com o medo que tinha de ir, foi e acho que não se deu conta.  Espero que, como as crianças que dormem nas viagens longas, só tenha percebido quando já estava lá e seja tenha sido recebido no esplendor e glória de Deus.

A fé e a família na minha primeira comunhão.
A fé e a família na minha primeira comunhão.

Ele foi com 84 anos, portanto teve uma vida longa e saudável. Vida próspera, frutífera e interessante. O pai dele era um mulato músico, a mãe uma dona de casa filha de um militar alemão. Sentiu o drama? Não? Ahhhh esqueci de dizer, nasceu na Porto Alegre dos anos 30. Agora foi? Bom, aqui está a primeira lição aprendida entre lágrimas quando uma amiga me falou que eu nunca conseguiria algo que queria: levanta, sacode a poeira e vai a luta… Não deixe ninguém nunca vai te dizer o que você pode ser e fazer ou não.

avos
Uma rara foto da família Hengist Corrêa. Meu pai é a criança do meio.

Ele começou sua vida profissional catando pinos em boliche aos 11 anos. Aliás, super politicamente incorreto, neste momento da vida começou com o vício que o mataria. O cigarro. Era gorjeta. Pode acreditar. Foi professor de faculdade, diretor financeiro de grandes empresas e empresário. Tomou uns tombos, aprontou umas e outras, mas fez uma legião de amigos. Duas lições: uma fecha a boca, estuda e luta pelo que você quer. Você VAi chegar lá. E a outra: apreciação e lealdade, reconheça quem te apoiou.

O jovem formando em Ciências Contábeis. Faz o que? Uns 50 aninhos?
O jovem formando em Ciências Contábeis. Uma das muitas conquistas.

Tinha um gênio irascível. Difícil mesmo. Se irritava, esbravejava e praguejava. Às vezes era dado à melancolia, acho que mesmo à depressão, mas Deus nos livre de dizer a este gaúcho que estava com sintomas de deprê. Afff. Tudo menos isso. Macho cho cho.  Esta lição eu não vi. Não quis ver. Um erro que poderia ter ajudado muito a ele e a mim que guardo com incrível semelhança algumas destas características. Mas a vida é assim.

Falo isto bem a vontade porque todo mundo diz que sou igual. Tendo a dizer que é exagero, mas sei lá…. Acho que as brigas mostrariam que não.  Com 3 filhos, 4 netos e 1 bisneto a gente pode dizer que não só ele construiu uma família como também me ensinou o que é uma. E eis aqui outra lição: lealdade e proximidade. Sempre. Uma das balizas da minha vida.

No Chile, em visita à vinícola Veramonte.
No Chile, em visita à vinícola Veramonte.

Agora tem umas coisas que a gente é bem igual mesmo. E eu nem havia me dado conta! Fiquei sabendo que sempre que podia ele adorava reunir os amigos, viajar e chamar toda a galera. Eu era jovem, brava e chata. Sei lá, nem notava. As pessoas é que foram me contando. Eu só via aquele cara grandão, introvertido como eu, planejando fins de semana longos em casas de praia ou sítio com mil gentes para jogar buraco, fazer churrasco e …. beber vinho.

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Natal no Chile. Mesa farta, com a companheira de 50 anos. E o vinho presente.

Não curto nenhum tipo de jogo. Nem para passar o tempo com minha filhinha de seis anos. Simplesmente não tenho saco. Ele adorava. Ele gostava de passar o tempo com a natureza, pé no chão, olhos no verde. Isso sim, marcou para sempre meu coração.  Tive toda a oportunidade de cidadã do mundo, fui empurrada para o  mundo corporativo armada de estudo de primeira, línguas estrangeiras e a experiência que se podia pagar naquela época em que tudo era muito mais caro e difícil que hoje. Mas eu gosto mesmo é de mato. Ele, acho que preferia a praia, onde viveu seus últimos dias. Costumava dizer que adorava as cidades com água como a sua querida Porto Alegre natal, banhada pelo Guaíba.

Dando de atleta com o neto, meu sobrinho.
Dando de atleta com o neto, meu sobrinho.

Aprendi com ele a gostar da mesa farta, comida de verdade, gente na beira do forno e do fogão. Ou mais bem da churrasqueira. E com comida farta, vem o vinho, tradição dos italianos que cercavam a família desde a mais tenra idade. Com a prosperidade e o progresso, a vida mudou. Não era mais o vinho da colônia, do garrafão, o vinha do dia a dia. Os horizontes se abriram para jóias como o Almadén, o Lieubfraumilch e o Chateau Duvalier. Eram os anos 90.

Ultimamente ele surfava a onda dos chilenos, os campeões de importação no Brasil. E ocasionalmente provava alguns dos portugueses que eu tanto gosto. Foi este o primeiro contato que tive com este mundo e uma das heranças que meu pai me deixou. Bom, na verdade foi quase tudo. Ele partiu como chegou, mas enquanto isto, deixou sua marca em muitos corações.

amigos inseparaveis
Pai. Saudade. Saúde.

6 comentários sobre “O vinho como herança

  1. Filha.assim escrevendo me fizestes chorar, um tanto pela saudades e outro pelas palavras verdadeiras.Revivi trechos de nossa istória.Não sei se ele já acordou da grande viagem.Se acordou ficará muito feliz. Com certeza!Se eu tivesse de escolher repetiria tudo .

  2. Lindo, delicado e verdadeiro! Sorvi cada palavra do texto como um gole de um bom vinho! Me emocionei ao enxergar o meu tio querido tão bem descrito por essa filha amorosa e supertalentosa!

  3. Luisa ( Para mim Maria Luisa )
    Guardei o texto para ler na hora certa e com calma . Escrevo agora na volta de um projeto na Praia ( que ele tanto curtia )
    Ele foi O cara .
    Bebiam vinhos “simples” como se fossem Grandes Chateaus . O que valia era a amizade e a companhia . Guardarei para sempre as lembranças na minha “adega ” .
    Saudades saudáveis
    Beijos
    Carlinhos Perrone

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