Quinta do Vale do Meão, mais que vinho, um mergulho na história do vinho português.

Nosso roteiro começa na Ínsua. De lá, vamos viajar uns 90 minutos até Vila Nova de Foz Côa. Sim, se pode ir mais rápido usando as estradas principais, as enormes e bem cuidadas “A”s. Mas elas não têm o charme e visual das pequenas estradas que proporcionam vistas e experiências muito mais interessantes.

Paisagem da N-226, a caminho de Trancoso e Vila Nova de Foz Côa.
Paisagem da N-226, a caminho de Trancoso e Vila Nova de Foz Côa.
A névoa tem seus encantos, não?
A névoa tem seus encantos, não?

 

 

 

 

 

 

 

O dia começou com muita neblina e a Serra da Estrela nos brindou com incríveis paisagens até que chegamos a Trancoso e seu fabuloso Castelo. Parada para um cafezinho e para apreciar a arquitetura que ninguém é de ferro, né?

A histórica Trancoso e seu castelo sob a névoa.
A histórica Trancoso e seu castelo sob a névoa.

No dia da visita à Quinta do Vale Meão, eu estava muito ansiosa, afinal esta não é só mais uma visita técnica com degustação, é um mergulho na história do vinho português. E não espere que este efeito venha de nada muito elaborado, como arquiteturas mirabolantes, efeitos audio-visuais ou qualquer outro recurso. As instalações têm a austeridade e simplicidade pela qual esta família ficou conhecida há gerações. A visita é conduzida pela própria família, sem nenhuma ostentação, mas a qualidade do contato e da informação é a melhor que se pode desejar.

Oportunidade de um bate-papo incrível.
Oportunidade de um bate-papo incrível.

A Ferreirinha

A fim de entender a história desta vinícola, recorremos à Sra. Antónia Adelaide Ferreira (carinhosamente apelidada de Ferreirinha), filha de um proprietário do Douro, nascida em Peso da Régua, em 4 de Julho de 1811 e que ficou viúva com apenas 32 anos. Apesar de ter se casado de novo com o seu administrador, ela tomou a frente dos negócios logo após a morte do primeiro marido, demonstrando a coragem e a veia de empresária que a colocariam na história do vinho português. Esta empresária, mulher forte e determinada, chegou a ter mais de 30 Quintas no Douro, entre elas, Castela, Vallado e Quinta do Vesúvio.

O Douro. Aaaaaahhhhh  o Douro.
O Douro. Aaaaaahhhhh o Douro.

Em 1877 D. Antónia que já era a proprietária do maior património agrícola do Douro, comprou em leilão público 300 hectares de terra virgem da prefeitura de Vila Nova de Foz Côa. Quando as comprou, elas estavam fora da zona demarcada. Uma das dificuldades era a falta de acesso. Ela, por suas conexões com o governo, sabia que por aí passaria uma estrada de ferro e aproveitou a oportunidade de iniciar este projeto que levaria quase 20 anos para se tornar realidade.

Com licença, a gente está procurando a Quinta do Vale Meão? É sério, estamos atrasados....
Com licença, a gente está procurando a Quinta do Vale Meão. É sério, estamos atrasados….
Ficarei aqui ignorando vocês até que desapareçam...
Ficarei aqui ignorando vocês até que desapareçam…

 

 

 

 

 

 

Este foi quase o tempo que levamos para encontrar a vinícola. O nosso ponto de contato lá, a minha xará Luiza, tetraneta da Ferreirinha, estava fora naquele dia, mas gentilmente indicou seu pai para acompanhar-nos. Seguindo as instruções do GPS à risca, fomos parar exatamente na montanha oposta à Quinta. Que bom que o Sr. Francisco veio por fim nos resgatar na estação de trem.

Eu odeio este GPS.
Eu odeio este GPS.
Aguardando o resgate na estação de trem.
Aguardando o resgate na estação de trem.

 

 

 

 

 

 

A Quinta do Vale do Meão

A origem da Quinta do Vale do Meão remonta a 1894, quando foi oficialmente fundada, pouco tempo antes da morte de sua famosa proprietária, em 1896. Hoje a Quinta do Vale Meão possui 279 hectares, sendo 105 de vinhas, localizados sobre uma falha geológica e englobando 3 tipos de solo completamente diferentes: granito no monte, xisto no interior e argila próximo ao rio.

Agora sim.
Agora sim.
Parede de granito do Douro.
Parede de granito do Douro.

 

 

 

 

 

 

E por falha geológica, entenda-se uma montanha enorme, repleta de escarpas, cercada pelo rio Douro e cortada por estradinhas íngremes e sinuosas que o Eng. Pedro Barbosa, responsável pela viticultura, percorre com sua 4×4 em inacreditável velocidade. Foi COM emoção!

Com emoção!
Com emoção!
Entende o que eu digo?
Entende o que eu digo?

 

 

 

 

 

 

 

 

Esta região muito próxima da Espanha, nem 100 km da fronteira, apresenta riqueza tanto de fauna quanto de flora. Durante nossa visita, perguntamos sobre pequenos marcos presentes na mata e fomos informados que se tratam de sinais para localização de caçadores de javalis que além da carne deliciosa, muitas vezes “fuçam” a vinha e prejudicam a planta. Não é preciso dar mais nenhum motivo para o pessoal da vinícola promover caçadas anuais… Há também muitas lebres que repentinamente fogem por entre os parreirais, se escondendo dos visitantes.

Dica do dia: se você for javali, mantenha-se longe desta sinalização.
Dica do dia: se você for javali, mantenha-se longe desta sinalização.

Curiosamente, desde a década de 70, a Quinta utiliza vinhas em que as castas estão separadas, o que era uma raridade no Douro. Uma das diferenças nas técnicas de produção dos vinhos da Quinta é esta, pois assim fazem as fermentações de variedades separadas, vinificações diferentes, tipos de madeiras diferentes. Isso não impede que conservem castas antigas como a Tinta Francisca. E aqui pontuamos que a riqueza da flora não se limita às vinhas, tivemos por exemplo a incrível oportunidade de degustar aspargos selvagens. Isso, no pé mesmo!

A colheita no Douro.
A colheita no Douro.

A nova geração dos Olazabal

Até 1999 (sim, isso mesmo, um século de história rolou até que retomamos nossa história), muitos eram os descendentes proprietários da quinta, e até esta época, as uvas eram vendidas para as empresas da família. Foi nessa época que o Sr. Francisco Javier de Olazabal, aquele mesmo que nos resgatou na estação de trem, realizou um antigo sonho e adquiriu todas as ações da Quinta, tornando-se assim seu único proprietário.

Vista do lado esquerdo do "meião". O Douro correndo para o Porto.
Vista do lado esquerdo do “meião”. O Douro correndo para o Porto.
Aqui vem o Douro pelo lado direito do "meião", chegando da Espanha.
Aqui vem o Douro pelo lado direito do “meião”, chegando da Espanha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ele que fez carreira na Sogrape, empresa da família, contava já com 60 anos na época, idade em que muitos sonham com a aposentadoria e não com um novo negócio, mas em busca do sonho antigo, com o apoio dos filhos e munido de uma vitalidade e energia contagiantes, partiu para o desafio. Hoje o filho Francisco é enólogo e a filha Luiza é responsável pela parte comercial da Quinta.

Lagares de granito para pisa a pé.
Lagares de granito para pisa a pé.
Sr. Francisco junto ao tesouro.
Sr. Francisco junto ao tesouro.

 

 

 

 

 

 

A partir de 2003, a família decidiu passar a produzir e engarrafar seu próprio vinho: o Quinta do Vale Meão. Verdadeiro superstar desde sua primeira safra, já nasceu apelidado de “Barca Nova”. Mas para entender a brincadeira, a gente tem que conhecer melhor o icônico Barca Velha.

O Barca Velha

Um vinho mítico na história dos fermentados do Douro, região célebre pela produção de uvas para vinho do Porto. Até pouco tempo, as uvas para produzir o Barca Velha saíam das vinhas da Quinta do Vale Meão.

O Barca Velha foi uma invenção do Sr. Fernando, na década de 1950, sogro e avô de nossos anfitriões, Fernando era o responsável pelos vinhos da Ferreira e decidiu fazer um vinho diferente. Ele queria fazer um vinho de mesa (vinho fino não fortificado), pois não havia grandes vinhos de mesa em Portugal nesta época.

Para isso decidiram inovar. Estes foram os primeiros vinhos com temperatura controlada em Portugal. O gelo era trazido do Porto, há mais de 200 km para isso… Outra inovação foi colocar o vinho no mercado quando estivesse pronto para beber. O Barca Velha é lançado de 10 a 12 anos após vinificado. A safra mais recentemente lançada foi a de 2004.

Aqui era originalmente armazenado o Barca Velha.
Aqui era originalmente armazenado o Barca Velha.

O Premiado Quinta do Vale Meão

Este vinho é um corte de Touriga Nacional, Touriga Franca , Tinta Barroca e Tinta Roriz. Cada variedade é vinificada separadamente, pisadas a pé e envelhecidas em carvalho francês (80% novo). O resultado é um vinho cheio de frutas escuras, especiarias e notas de chocolate com taninos sedosos, um final longo e notas minerais. A safra de 2011 foi escolhida como um dos melhores vinhos (4° lugar, mais especificamente) do mundo em 2014 pela revista americana Wine Spectator. Deve estar ainda melhor entre 2015 e 2022. Você pode encontrar este vinho no Brasil sem problemas. Bom, a safra de 2011, não tenho certeza.

Aceita uma taça?
Aceita uma taça?

O Imperdível Meandro

Um corte de Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e 12% de outras castas.
Passa por pisa a pé em lagares de granito. As castas são vinificadas separadamente. Este vinho estagia em barricas de 2° e 3° ano de carvalho francês.
Apresenta boca com notas intensas de fruta, mostrando um final de boca prolongado muito fresco e complexo.  Tem preço bem mais acessível que os outros 2 e acho que você vai gostar.

Acessível, fácil de encontrar por aqui e uma delícia.
Acessível, fácil de encontrar por aqui e uma delícia.

Se provar algum deles, conta para nós.

Enquanto isso agradecemos ao Sr. Francisco, à Luiza e ao Pedro pela atenção.

Não percam o próximo post!

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