As muralhas de Monsaraz e sua cidade medieval

Em Portugal, na região do Alentejo, a cerca de 300 km da Espanha, estendem-se infinitas planícies, onde apenas se avistam pequenas aldeias e um grande número de ilhas que ficaram circundadas pela subida da água do rio Guadiana, com a Barragem do Alqueva. O relevo corre manso em direção ao horizonte, e por todo ele brotam um dos símbolos mais marcantes de Portugal, os sobreiros. Viaja-se por horas, observando estas árvores seculares que cedem a cada 10 anos parte de sua casca para a manufatura de 50% da cortiça usada no mundo todo.
Image
Estas planícies pontuadas por monumentos megalíticos conhecem a ocupação humana desde tempos pré-históricos. Porém como as folhas são sopradas pela brisa alentejana nesta região de vocação agro-pastoril, os romanos, visigodos e muçulmanos passaram por ela deixando não mais que vestígios de sua passagem. E Monsaraz é sua testemunha. Seu nome vem de Monte Xaraz, designação moura para a vegetação de estevas, abundante às margens do rio Guadiana.
Image (1)
No alto do monte de mesmo nome, Monsaraz vive adormecida, qual donzela de conto de fadas, como se tivesse ficado suspensa no tempo, sem se importar com o passar do mesmo. Suas muradas protegendo a vila medieval e guardando a fronteira de Portugal com Castela, na Espanha como há séculos. Curiosamente preservada, como se por respeito ao seu passado glorioso e na espera de um futuro que o honre, a população de lá se houvesse retirado em silêncio respeitoso, descendo a colina por uma estradinha sinuosa em direção às aldeias vizinhas. Deixando para trás, uma mistura arquitetônica que sequestra o olhar e tira o fôlego de quem hoje a visita e é impactado por sua beleza misteriosa.
Image (5)
Esta cidade nasceu num tempo de prosperidade. Sua posição estratégica possibilitava detectar a presença inimiga com muita antecedência ao ataque devido a uma eficiente rede comunicação visual estabelecida entre as fortificações. Fez parte do Reino mouro de Badajoz, um dos maiores e mais importantes centros de cultura árabe. E a todos os guerreiros que por ela lutavam, fossem mouros ou ingleses, respondia como sabia: desde o alto de seu poderio, com seu silêncio valente e suas muralhas corajosas.
Image (6)
Definitivamente conquistada por D. Sancho II, após as guerras de 1383 – 1385, Monsaraz foi integrada à casa de Bragança e se tornou uma de suas mais importantes fontes de renda. Não mais que três séculos depois, por reviravoltas da história, Monsaraz perde protagonismo e se fecha, recusando-se a fazer parte do progresso que mudou o seu destino, encerrada em suas próprias muradas, ignorando o mundo que lhe deu as costas.
Image (7)
Sua arquitetura militar mescla elementos de duas épocas bem diferentes: medieval e seiscentista. As fortificações medievais das quais fazem parte o castelo e as paredes da cidade foram construídas antes da aparição de armas de fogo (séculos XII e XIV). As paredes são verticais e muito altas, sendo construídas de pedras de xisto de formato irregular e por blocos regulares de granito. As fortificações do século XVII são uma resposta ao progresso feito em termos de artilharia. As paredes são feitas de xisto, mas muito mais grossas.
Image (2)
A exemplo do que faziam os guerreiros, hoje segue sendo irresistível perder-se no tempo, olhando as extensas planícies do alto do monte de Monsaraz, buscando cada detalhe, porém querendo o horizonte. Sentindo o vento que cruza o Alentejo. Observando as estradinhas estreitas, muitas vezes poeirentas. As modernas rodovias portuguesas tornam-se apenas memórias. Como se o real não fosse “lá fora”, mas a vida aqui dentro destes muros.
Image (8)
Então, já transportado para um outro período da história, com o olhar capturado pelas ruas de xisto estreitas e escorregadias e pela sequência de pequenas casas caiadas, se entregar ao feitiço da imaginação ao contemplar o vilarejo. As escassas lojas, estalagens e restaurantes apenas visíveis por pequenas placas à sua entrada. Curiosamente, o silêncio é quebrado apenas ocasionalmente quando se cruza com outro grupo de turistas transitando pela vila, hipnotizados por seus próprios sonhos.
Image (9)
Monumento Nacional desde 1946 a vila de Monsaraz, marcada pela cal e pelo xisto, é “Monsaraz Museu Aberto”. No patrimônio de Monsaraz destacam-se o Castelo e a Torre de Menagem medievais, e ainda o edifício dos Antigos Paços da Audiência (séc. XIV/XVI) e a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Lagoa (séc. XVI/XVII).
Image (3)
A vila é pequena, rapidamente se percorre todo o seu interior, o sol procura o abrigo da linha do horizonte, querendo fechar mais um dia desta paisagem sedutora. Chega um entardecer que caminhando pelas ruelas estreitas, faz sentir os ponteiros do relógio começarem a girar ao contrário como se tentando provar que aqui o tempo não passa.
Image (4)
A noite chega, a aldeia se cobre de luz amarelada como se fosse a mesma de há séculos, intensifica-se a sensação de viagem no tempo. Agora a sensação é de escutar as feiras e os mercados de rua dos tempos de prosperidade. Os gritos de bravura dos soldados parecem ecoar surdamente pelas paredes, relembrando os períodos de conflito. Ruelas e becos parecem acolher ainda as donzelas que se escondiam do perigo iminente ou buscavam amores proibidos em lugarzinhos escuros, aproveitando os arroubos de paixão numa época em que a vida era muito mais dura e breve.
Image (10)
Seja como for, quando se deixa Monsaraz, se sai enfeitiçado por sua história, pelo passado e não sei se por lá ainda pairam espíritos dos grandes guerreiros ou belas donzelas que lá viveram, mas com certeza seu coração vai ser para sempre capturado.
E o vinho? Bom, há excelentes vinhos nesta região, mas a gente fala deles depois, por que agora meu pensamento voa rápido para o pico daquele monte lá no Alentejo, de encontro ao meu coração que continua prisioneiro de Monsaraz.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s