Conquista: na história, no amor e no vinho.

Adoro história, mas essa me chama mais a atenção que a anterior porque é menos trágica, embora não menos triste

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Em 711, os muçulmanos (mouros ou árabes) cruzaram o Estreito de Gibraltar e invadiram a Península Ibérica onde permaneceram até 1942. Falando em mouros, a gente pensa logo em seguidores do Islã, isto se deve ao fato de terem sido estes povos árabe-berberes, não cristãos oriundos principalmente da região do Saara ocidental e da Mauritânia que ocuparam os territórios da Península Ibérica.

Embora cientificamente mais adiantados, os árabes não desprezaram os conhecimentos obtidos com os habitantes da península. Tais conhecimentos foram utilizados nas escolas e observatórios que criaram e também deram a eles a sua própria contribuição. Assim, surgiu uma cultura riquíssima e uma ciência que não só produziu obras muito importantes, como também foi aproveitada na prática.

As grandes navegações, ou seja, o descobrimento de nosso país, por exemplo, devem muito a instrumentos como o quadrante e o sextante, desenvolvidos pelos muçulmanos, assim como aos mapas e às descrições feitas por eles. Este legado pode ser encontrado em várias áreas diferentes do saber, desde palavras iniciadas em ‘al’ como Algarve e álcool, até na arquitetura.

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Na tradição oral portuguesa, os mouros são protagonistas de narrativas associadas a cultos pré-cristãos, muitas vezes pré-históricos. Em geral, as lendas das mouras encantadas (assassinadas) que guardam tesouros, andam associadas a montes, florestas, rochedos, monumentos pré-históricos ou fontes e revelam restos de tradições muito antigas.

Mas, claro, nem tudo era harmonia, e as nações ocupadas por quase setecentos anos lutaram bravamente para expulsar os invasores – a Guerra da Reconquista, também chamada de “Cruzadas Ocidentais”.

O rei Afonso III de Portugal teve papel protagonista nas Cruzadas e na reconquista do Algarve, então ainda quase totalmente dominado pelos mouros. E a seu lado, fiel e amigo, cavalgava sempre D. João Peres de Aboim. E é dele que a gente quer falar hoje.

Lutavam para retomar a cidade de Faro, nesse tempo chamada Harume (rei mouro) pelos mouros e durante uma patrulha, D. João encontrou uma garota que pediu para falar com o rei, dizendo que estava temerosa da ferocidade dos guerreiros portugueses e que queria pedir clemência para seu povo.

Esse foi o primeiro encontro entre D. João Peres de Aboim e a linda princesa moura Alandra, filha do príncipe de Harume. Na realidade já estavam trocando olhares fazia tempo  e o coração de D. João andava cheio com a imagem da bela princesa que muitas vezes encontrava nos seus caminhos. Mas agora era a primeira vez que a tinha perto de si.

Ele aproveitou para conversar com ela em sua tenda de campanha. Ela disse que viu em seus olhos que algo ele sentia por ela e que aproveitava para procurá-lo para pedir pela vida das mulheres e das crianças de Harume… nem que para isso tivesse que sacrificar sua honra!

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D. João disse que a retomada seria pacífica, que ela não tinha que sacrificar nada e que não seria por essa batalha que o  Algarve ficaria para sempre cheio de mouras encantadas. Mas que ele estava encantado por ter Alandra em frente de si.

Neste dia, entregou sua alma à bela Alandra , fazendo-lhe uma promessa de que não a perseguiria se quisesse fugir, mas se ela achasse que ele falava a verdade, então que ficasse em seus braços. E conforme reza a lenda antiga — Alandra ficou!

As condições eram honrosas para os vencidos. E os vencedores, acima de tudo, respeitaram integralmente a vida das mulheres e das crianças, conforme promessa feita por D. João Peres de Aboim à bela princesa Alandra.

D. Afonso III ficou tão satisfeito durante a retomada pacífica de Faro que se deitou sob um arco. E o descanso, foi tão perfeito, tão bom, tão completo, que o arco se chama o Arco do Repouso!

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Mas e Alandra? Fugiu, desapareceu misteriosamente deixou apenas um pequeno ramo de flores… Flores rubras como o sangue e belas como o desejo… Para D. João Peres de Aboim, ela era a própria temperança, o amor e a saudade das coisas que duram por muito e muito tempo.

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E logo, imerso em dor, mas num impulso de imaginação, D. João Peres pediu permissão ao rei para chamar alandras a estas flores de amor e saudade… mais tarde se transformou em aloandras, e depois em aloendros — ou apenas loendros, seu nome atual…

Estas flores silvestres inspiraram a elaboração do vinho português Esporão Alandra, tanto o tinto como branco. Esse rótulo é uma homenagem às flores que todos os anos florescem em memória de um amor eterno, com ótima relação custo / qualidade, produzido pela Herdade do Esporão, indiscutivelmente a mais famosa vinícola do Alentejo, em Portugal. A Herdade teve os seus limites fixados na região no ano de 1267 por D. João Peres de Aboim, seu primeiro proprietário. Ótimo custo qualidade. Aproveite neste dia dos namorados.

E como diz um antigo brinde inglês, ao contrário do amor de D. João Peres: que nosso amor seja como vinho de boa qualidade: melhor a cada dia que passa.

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